Ex-presidente
a Academia Brasileira de Letras, Arnaldo Niskier, defende com vigor a
ampliação do ensino a distância no Brasil
O ensino no Brasil
vai se tornar irreconhecível nos próximos cinco anos com
a explosão da educação a distância. Essa profecia
é de um dos maiores especialistas no assunto, o professor de matemática
e pedagogo Arnaldo Niskier, docente aposentado da Universidade Estadual
do Rio de Janeiro (Uerj), autor de 43 livros, entre eles, A Nova Escola
(1971), O Impacto da Tecnologia (1974) e Tecnologia da Esperança
(1979). Ele está preparando uma nova obra, a respeito da influência
da tecnologia na educação. Niskier defender as vantagens
do ensino a distância desde a época em que os recursos possíveis
eram a televisão e os correios. Hoje, a internet cria atrativos,
amplia a velocidade, a capacidade e o alcance da informação.
"Isso muda tudo", visualiza o professor e ex-secretário
de estado da Ciência e Tecnologia (1968/71) e da Educação
e Cultura (1979/83) no Rio de Janeiro. "O Ministério da Educação
tem medo que as instituições de ensino abusem da prática
e se transformem em fábricas de diplomas", pondera, sobre
o excesso de rigor do governo na aprovação de cursos on
line.
Educação
- A educação a distância é um conceito que
existe há várias décadas e parece que nunca emplacou
no Brasil. Por que o Sr. acha que agora as coisas vão ser diferentes?
Arnaldo Niskier - A diferença é a internet. Essa
nova tecnologia consegue atingir um grande público e permite maior
capacidade de armazenamento e transmissão de informações,
além da interatividade. A internet é mais poderosa e mais
rápida que a televisão, principal meio utilizado pelo ensino
a distância no passado.
Educação - Nós
já tivemos uma experiência nacional de ensino a distância na década de
70 com os Telecursos. Que lições podemos aprender dessa fase?
Niskier - Realmente, o Telecurso foi uma iniciativa de ensino a
distância. Mostrou que é possível o aprendizado fora
das fronteiras de uma sala de aula, de um ambiente presencial. Acontece
que sempre faltou coragem política para o governo abordar esse
assunto de maneira definitiva. O governo tem medo que a educação
a distância se transforme em facilitador para a obtenção
de diplomas de qualquer maneira, sem critérios. Por isso as autoridades
brasileiras nunca deram oportunidade para o desenvolvimento da modalidade.
Educação - Entretanto,
hoje existe uma legislação específica. Niskier - De
fato hoje esse tema está sendo debatido dentro do Conselho Nacional de
Educação após a lei 9.394, de 1996, que estabelece regras para a educação
a distância. Mas falta uma definição mais concreta do governo; uma sinalização
de que acredita mesmo nisso.
Educação - Esse
hiato de tempo entre a experiência da década de 70 e a da lei 9394 produziu
um descompasso da educação a distância no Brasil em relação a outros países?
Niskier - De
fato, perdemos tempo. Ao contrário do que aconteceu em outros países,
o governo brasileiro não deu oportunidades para o sistema se desenvolver.
Perdemos um tempo precioso no desenvolvimento de metodologias de ensino
e na criação de uma cultura de aprendizado a distância que pesa nesse
momento de nova implantação. Evidentemente, o momento hoje é outro. A
tecnologia mudou e facilitou as coisas.
Educação - E a
atual legislação, não deu um novo impulso à idéia? Niskier- Foi um passo importante. Foi a primeira vez que se
estabeleceu uma regra, mas a regulamentação da lei está esbarrando em
problemas burocráticos e até excesso de zelo por parte dos técnicos responsáveis
dentro do Ministério da Educação. Mas o importante é que o projeto não
está parado. O Conselho Nacional de Educação tem debatido o assunto. Acredito
que falta ainda uma definição concreta por parte do governo de que deseja
mesmo implantar a educação a distância em curto espaço de tempo. Falta
alguém do governo dizer isso explicitamente e fazer a máquina administrativa
trabalhar em prol do tema.
Educação - Não
é só o governo que se mostra vacilante. Poucas escolas e universidades
aderiram ao sistema.
Niskier - As
instituições de ensino não sentiram firmeza no modelo oficial e ainda
estão tímidas na abordagem do assunto.
Educação - O que
é preciso para começar?
Niskier - Um
projeto desse nível necessita de gente capacitada, experiente para
desenvolve-lo, muito investimento e disposição para fazer
uma coisa séria. A atração pelo facilitário
é muito grande e engana quem pensa que tudo se resume em um software
e um site. O governo está certo em estabelecer parâmetros
rígidos para aprovação dos projetos. Faz-se necessário
ter uma proposta pedagógica diferente de um sistema de ensino presencial
e ao mesmo tempo tem que ser igual ou até mais eficiente do que
um curso em sala de aula.
Educação - Existe
tecnologia, mas parece que está faltando mão-de-obra.
Niskier -Hoje as coisas estão bem diferentes que há 20 anos atrás,
quando a educação a distância começou a engatinhar no Brasil. Temos agora
tecnologia, a internet e o interesse dos jovens. Algumas universidades
começam a pesquisar e a formar técnicos e docentes para trabalhar com
esse novo meio. Será uma questão de tempo.
Educação - Muito
tempo?
Niskier - A
educação a distância deve ter um grande crescimento
nos próximos cinco anos. O sistema de ensino brasileiro irá
se tornar irreconhecível após esse tempo. Tenho absoluta
certeza que a educação a distância vai explodir no
país. Será massificada como já acontece no Exterior.
Educação - Se as
instituições de ensino brasileiras ainda estão tímidas para trabalhar
com essa tecnologia, isso significa que entidades do exterior podem entrar
em nosso mercado?
Niskier - A
legislação brasileira criou algumas barreiras para instituições internacionais
entrarem no Brasil diretamente, oferecendo cursos a distância. O curso
só é reconhecido se tiver uma parceria com instituição local. Mas são
regras pequenas perto da pressão que o país vai sofrer. O que importa
lembrar é que essas instituições entrarão mesmo em nosso país. O Brasil
é um mercado de 50 milhões de estudantes e outros milhares fora da escola.
As entidades internacionais estão com olho grande nesse nicho.
Educação - Como
está a educação a distância no Exterior?
Niskier - O
modelo está consolidado em muitos países e não pára
de crescer. Na Inglaterra, a Universidade Aberta, a mais famosa nessa
modalidade, tem 200 mil alunos. É um esforço sério
que continua expandindo sua atuação fora das fronteiras
do país. Há exemplos semelhantes na Austrália, África
do Sul, Portugal e Espanha.
Educação - E os
cursos são mais na área de humanas ou cursos técnicos?
Niskier - Há todo o tipo de cursos em todas as áreas:
humanas, exatas e biomédicas. Cursos de graduação,
pós-graduação, extensão. Em áreas como
Medicina, que exige um conhecimento prático maior, o sucesso acontece
nos cursos de pós-graduação. Em Israel, por exemplo,
existe uma pós-graduação em medicina de primeira
qualidade.
Educação - Com
toda essa experiência internacional ficou comprovada a eficiência da educação
a distância?
Niskier - Não tenha dúvida. Existem até vantagens
em comparação com o modelo tradicional. O aluno estabelece,
por exemplo, o seu próprio ritmo de aprendizado de acordo com suas
possibilidades. Pode concluir um curso em dois ou três anos, sem
necessidade de estar presente fisicamente todos os dias em alguma sala
de aula. Apesar disso, a metodologia força uma disciplina de aprendizagem.
Educação - E quanto
à avaliação?
Niskier - Essa sim deve ser presencial, obrigatoriamente. E isso
faz a diferença entre um curso sério e uma picaretagem.
Toda avaliação deve ser presencial e acontecer em diversos
períodos do tempo de estudo, com uma prova final. Caso contrário,
o que irá acontecer é uma simples venda de diploma, porque
a entidade promotora não teria um controle de que o aluno que realmente
estudou é o mesmo que está realizando os exercícios,
as provas. Até porque o hábito consumista da internet pode
confundir um pouco as coisas. Hoje em dia podemos comprar de tudo na Internet
- até diploma, pensarão os mais afoitos.
Educação - Pode
acontecer do curso a distância ser até melhor que o presencial?
Niskier - Eu diria que o aproveitamento do curso a distância
é melhor do que o presencial. O aluno é obrigado a ter mais
disciplina, concentração, estudar mais. O estudante acaba
colhendo mais resultados no aprendizado. O aluno que tem a obrigação
de se descolar diariamente ou diuturnamente para o local de estudos, depois
de um dia de trabalho, terá seu desempenho comprometido pelo cansaço.
Em casa, o aluno do curso a distância organiza melhor sua agenda
de estudos.
Educação - Entretanto,
os preços nem sempre são mais baratos em comparação ao curso presencial.
Niskier - O
preço é relativo. Não dá para comparar os
dois sistemas. A tendência a médio e longo prazos é
do curso a distância ser mais barato que seu correspondente presencial.
Educação - O governo
está de certa forma incentivando o ensino a distância, mas não se vê nenhuma
iniciativa na rede de ensino pública.
Niskier - É verdade, poucos governos estão empenhados
nisso. O único governo que eu conheço que está interessado
na educação a distância é o do estado do Rio
de Janeiro. O governador já designou um grupo de trabalho e em
breve será anunciado publicamente o projeto. É uma proposta
audaciosa. O governo quer interligar todos os municípios do estado
na Internet e criar uma rede de educação on line. Irá
ser o primeiro Estado a ter o ensino informatizado no Brasil. E isso graças
a uma decisão política. Aliás é isso o que
está faltando para o ensino a distância acontecer de fato
no Brasil: decisão política em todos os níveis de
governo. O Rio de Janeiro será um exemplo de que quando o governo
quer, ele faz.
Educação - Se tudo
der certo, o ensino a distância não pode concorrer com o presencial?
Niskier - Não, são dois sistemas complementares. Nos EUA existem
universidades tradicionais fazendo cursos a distância, o que mostra que
os dois sistemas podem conviver harmoniosamente. Há ofertas de cursos
presenciais e semipresenciais. A Nova Universidade da Flórida, por exemplo,
tem 17 mil alunos, 8 mil deles no modelo a distância, e isso na graduação
e na pós. Principalmente em cursos ligados a informática, biotecnologia
e telecomunicações.
Educação - O mercado
de trabalho aceita bem o diplomado em cursos a distância?
Niskier - Na Inglaterra, tanto faz para as empresas. A universidade
aberta britânica é chancelada pela Rainha da Inglaterra,
como qualquer outra instituição educacional séria.
O mercado inglês não faz distinção entre o
profissional diplomado por curso a distância ou presencial. Nos
EUA também acontece isso. Aqui no Brasil, como o sistema é
muito recente, ainda não temos exemplos concretos.
Educação - Qual
o perfil do aluno que freqüenta cursos a distância?
Niskier - Em geral, a maioria mora em pequenas cidades ou no interior.
Em outros casos, são estudantes estrangeiros, que residem em países
diferentes da instituição promotora do curso, através
de parcerias locais. No Canadá, uma instituição de
ensino a distância possui convênio com universidades do México
e da Costa Rica. Esse é o modelo que irá chegar aqui no
Brasil.