Na porta de cada elevador
de São Paulo, em cada pavimento, há o seguinte aviso, resultante
da Lei no. 8596, de 11 de março de 1997. Só que a data vem
inscrita assim: 11/03/97. Por que "03"? Por que o zero antes
do número correspondente ao mês, como se costuma fazer por
aí? Para evitar falsificações?
Alguém teria interesse em transformar o 3, se solitário,
em 13, 23 ou 33? Essa é uma das manias singelas tiradas da linguagem
bancária ou da binária informática. As gentes não
podem ver um algarismo solitário que logo que lhe enfiam um zero
antes. É o tal zero à esquerda. Vale tanto quanto um desses
políticos populistas vale para o povo: zero. Abaixo o zero das
datas. Há de ser "5/6/2000". E 2000 sem ponto.
Isso é o de
menos. É o seguinte o teor da piedosa advertência, que todos
quantos já se aventuraram num elevador paulista devem ter lido
com prazer:
Antes de entrar no
elevador verifique se o mesmo encontra-se parado no andar.
Muito prazer - Eis
aí uma advertência oficial que se lê com o mesmo prazer
de versos do Drummond, do Bandeira, do Borges ou do poeta de sua preferência.
Um gênio bolou a providência necessária, porque pode
ocorrer de o elevador estar alhures, quando se vai penetrar nele descompenetradamente,
e o resultado será ruim. Mas a forma... Terá muita gente
trabalhado para alinhar as palavras do aviso, uma atrás da outra,
tão bem encadeadas? Será que esses vereadores sábios
não têm um redator levemente alfabetizado entre seus auxiliares?
É preciso reler para crer.
Ainda bem que não
utilizaram o verbo adentrar, como alguns locutores esportivos a anunciar
a entrada dos jogadores em campo, ou penetrar, de pecaminosa sugestão
para mentes poluídas. Ou ingressar, introduzir-se, meter-se, acomodar-se,
que teriam sua graça.
Nem é preciso
lembrar que a comissão de redatores municipais esqueceu de botar
vírgula depois de "elevador", última palavra da
espaçosa oração inicial.
Isso pouco importa.
O mais importante é que os dizeres estão na porta do elevador,
e só dele. Onde mais se entraria por aquela porta? Seria curioso
se a advertência começasse: "Antes de entrar no banheiro,..."
ou "Antes de entrar na garagem,...".
Coisinha feia - Diante
disso, um redator menos singelo omitiria o lugar óbvio a que a
porta dá acesso: "Antes de entrar" está bom e
suficiente.
E continua, inspirado:
"verifique se o mesmo está parado no andar". O "mesmo"?
O indefinido "mesmo" no lugar de "ele", o elevador,
é uma das coisas mais tristes que podem ocorrer num textículo.
Dá vontade de cair em prantos. Ninguém jamais numa conversa
séria ou amena se refere a "ele" como o "mesmo".
Por que quando escreve a criatura faz isso? É quase tão
feio quanto votar num desses vereadores picaretas dos quais há
muitos em São Paulo e no Brasil. Só vereadores?
E a malufosa colocação
pronominal "se o mesmo encontra-se"? A eufonia, uma conjunção
(o primeiro "se") e o mal-usado "mesmo" forçam
o pronome "se" a antecipar-se ao verbo. Se a caca fosse apenas
essa, a horrenda frase seria a seguinte, corrigida apenas a péssima
colocação pronominal: "verifique se o mesmo se encontra
nas adjacências". Coisa indiscutivelmente tenebrosa, mas sem
o horror do pronome mais perdido do que o Pitta em casa ou na Prefeitura
de São Paulo.
Claro que a maioria
dos textos pode ser reescrita com vantagem. Ou reescritos, para quem preferir.
O do ascensor municipal por certo é um deles: "Antes de entrar,
veja se o elevador está no lugar".
Essa é uma
das possibilidades, ainda que rimada. Como se vê, "menas"
palavras, como diria o autor do texto original, e a mesma caridosa idéia.
Outra: "Não entre sem ver se o elevador está no lugar".
Que tal?