Estes são os dois
últimos artigos do jornalista Aloysio Biondi para a revista Educação.
Ele morreu dia 21 de julho. É considerado o pai do jornalismo econômico
brasileiro. A dimensão de sua importância permite afirmar que ele é insubstituível.
Dessa forma, encerra-se aqui a coluna Pensata.
Como
será o futuro?
Aloysio
Biondi
Dados divulgados
pela ONU mostram o Brasil em uma situação de abandono social
Não apenas
desalentadores. Na verdade, são assustadores os indicadores sociais
do Brasil, divulgados no Programa das Nações Unidas para
o Desenvolvimento Humano (PNUD), organizado pela ONU - com dados fornecidos
pelo próprio governo de cada país. Eles mostram que o País
continua a formar gerações irremediavelmente comprometidas
em sua capacidade de aprendizagem, física e intelectualmente estropiadas
pela fome, as doenças, a miséria. Detalhe importante: as
estatísticas do PNUD-2000 se referem ao ano de 1998. A realidade
atual é ainda pior, diante dos violentos cortes de verbas em 1999
e neste ano, em nome do ajuste fiscal combinado com o FMI, em todas as
áreas sociais.
O aumento da mortalidade
infantil e o avanço da miserabilidade da população,
não apenas nas regiões pobres, mas também na periferia
das grandes cidades, por exemplo, já foram constatados em pesquisas
e levantamentos realizados por entidades ligadas à Igreja. Especificamente
na área da Educação e apoio à criança
e ao jovem, podem ser apontados, em um rápido retrospecto, casos
de retenção de recursos em todos os níveis: transporte
escolar, construção de escolas, sobretudo nas zonas rurais
e regiões pobres, "bolsas" para combater o trabalho infantil,
merenda escolar, cestas básicas, nutrição infantil,
recuperação de menores...
A partir do PNUD,
pode-se avaliar os reflexos futuros dessas "economias" realizadas
pelo governo Fernando Henrique Cardoso: Em
queda - o PNUD inclui a divulgação do Índice de Pobreza
Humana (IPH), calculado com base em uma série
de carências, dissecadas abaixo, enfrentadas pela
população. Mesmo com os dados de l998, o Brasil
piorou sua situação, caindo do 19º para 21º lugar
no ranking da desgraceira social, e ficando atrás
de 12 países latino-americanos. Desnutrição
e fome - nada menos de 6% das crianças até 5 anos têm
peso abaixo do padrão. Subnutrição
na infância, carências irreversíveis. Saneamento
básico - 24% da população sem água potável,
30% sem esgotos. A falta de saneamento é apontada
como a principal causa de doenças nas populações
de baixa renda, e responsabilizada pela maioria das
mortes de 350 mil crianças de l995 a 1997, segundo o Ministério
da Saúde. Os planos de expansão das redes foram suspensos
desde 1998, até em São Paulo, porque o governo proibiu os
empréstimos do FGTS, com essa finalidade, a Prefeituras e Estados.
Preparando a privatização... Educação
- chegaria a 96% o total de crianças entre 7e 14 anos matriculadas
nas (freqüentando?) escolas. Trata-se, porém, de uma "média
nacional". No Nordeste e outras regiões pobres, o total de
crianças fora da escola chega a 7,5% - e são
elas que seriam atendidas pelas novas escolas e pelo
transporte gratuito cortados.
Para coroar esse quadro,
o analfabetismo no Brasil continua em 15,5% (contra l6% no ano anterior)
para a população acima de l5 anos. Mais que o dobro da taxa
de 7,2% do Paraguai, colocando o País em 90º lugar, nesse
aspecto. Em entrevista, o ministro Paulo Renato atribuiu o índice
vergonhoso ao "grande número de pessoas mais velhas que ainda
são analfabetas". Realmente. Os l5,5% "também
são apenas uma média nacional". Em algumas regiões,
chega a incríveis 30% o número de analfabetos na faixa acima
dos 39 anos. São as "pessoas velhas", lixo humano, a
que o ministro se refere (e que tinham 34 anos quando o governo FHC começou).
Diante desses números,
o ministro diz imaginar que "em quatro ou cinco anos vamos ter uma
bela (sic) situação para mostrar". Como o governo nunca
fez menção a nenhum plano de alfabetização
em massa (o Alfabetização Solidária atendeu a ridículos
700 mil adultos em l999), pode-se supor que o ministro confia em outro
tipo de solução. Por exemplo: o mesmo PNUD mostra que chega
a nada menos de 11,5% a parcela da população brasileira
que morrerá antes dos 41 anos. Realidade terrível, mas capaz
de melhorar as estatísticas de analfabetismo que (não) incomodam
o ministro do governo FHC.
Para
refletir
Aloysio
Biondi
Foi a geração
jovem que mudou ou os mais velhos desistiram da luta?
Frio insuportável,
chuva. Noite. Uma favela inteira - 200 a 300 barracos, 200 a 300 lares
queiram os nossos preconceitos ou não - é consumida por
um incêndio provocado por fagulhas de uma fogueira em torno da qual
famílias se aqueciam, em São Paulo. Noite do dia seguinte,
24 horas depois. Homens, mulheres, crianças, postados na escuridão,
no frio insuportável, diante dos escombros carbonizados de seus
barracos, lágrimas a correr pelo rosto, confundindo-se com as gotas
da chuva que continua a cair. Sem casa. Sem ter para onde ir. Sem nada.
Ignorados pelo governo do Estado e Prefeitura. Lixo humano. Nos jornais
noturnos da TV, sua tragédia não mereceu mais de 30 segundos.
Da mesma forma que a situação de seis mil sem-teto, deitados
nas calçadas da capital paulista por falta de vagas nos albergues,
não mereceu mais de 20 segundos de reportagem. Lixo humano.
Impressionado com
a total indiferença dos governantes e dos meios de comunicação
diante das tragédias de milhares de seres humanos, um repórter,
ainda em gozo de suas férias, puxou conversa sobre o assunto com
pessoas de todos os níveis sociais, nos dias subseqüentes.
Incrível. Não ouviu um único comentário espontâneo
de solidariedade para com as vítimas. As primeiras observações
dos interlocutores, quando o jornalista relembrava o incêndio, eram
sempre as mesmas: "Ah, sim, o incêndio provocou uma confusão
incrível na cidade... O trânsito ficou insuportável".
Como na música do Chico.
Eis um episódio-síntese
da desagregação social que o País está vivendo.
Cientistas políticos e sociais, psicólogos e sociólogos
têm mil teorias para explicar o quadro atual e, o que interessa
aos educadores, o papel que os jovens desempenham dentro dele. Além
do declínio da religião, há a globalização,
novas gerações obcecadas com seus desempenhos, preocupadas
com sucesso profissional, encantadas com a tecnologia, voltadas para si
mesmas, indiferentes à sorte de seus semelhantes. Os professores,
em sua maioria, pactuam com esse diagnóstico.
E, a partir desse
diagnóstico, os professores crucificam os jovens, "tão
diferentes de nós, que na nossa época lutamos por um Brasil
e um mundo melhor, por uma vida decente para todos, pelo respeito à
vida e ao ser humano". Tornam-se amargos, dão aulas mecanicamente,
acham que não vale a pena "tentar nada", pois "os
jovens nada querem".
Não será
a hora de rever esse amargor impotente? Refletir mais sobre ele? Afinal,
foi a geração jovem que mudou, ou as gerações
mais velhas que desistiram da luta? Não será cômodo
(com pitadas de masoquismo, dó de si mesmo) proclamar que o País
está destroçado pelas elites, pelo governo, o que é
verdade, e declarar-se derrotado?
Pesquisa realizada
pela Cidade Escola Aprendiz (antigo Projeto Aprendiz) no ano passado mostrou
que o jovem não é esse bloco de gelo social, ou robô
tecnocrático que se diz (só 17% foram classificados como
"tecnológicos", contra 43% de "engajados").
Se a sociedade brasileira vem colocando de lado valores básicos
da humanidade, as salas de aula não seriam o melhor local parafazê-los
começar a renascer? Nada de discurso "ideologizado",
sectário, partidário.
Simplesmente, a utilização
de episódios da vida real, como o incêndio na favela, para
ressuscitar aqueles conceitos esquecidos de solidariedade, igualdade entre
os homens, vida humana, sofrimento, dor, sociedade, Estado, cidadania
(que até os contos da Carochinha de antanho disseminavam). O jovem
é o que os adultos ensinam a ele. A tentativa de "virada"
pode vir das mãos dos professores. A refletir.