Ações
de ONGs, movimentos comunitários e professores motivam jovens a
intervir nos problemas da periferia
Ao chegar na Rua Hercília
Gonçalves dos Santos, é quase impossível reconhecer
que ali há uma escola. Muros pichados e sem qualquer identificação
dão a impressão de que se trata de um prédio abandonado.
É preciso checar o endereço e perguntar a algum morador
das imediações para se assegurar de que naquela esquina
funciona realmente a Escola Estadual Antônio Aggio. Localizada no
Jardim Ângela, um dos bairros mais pobres e violentos da zona sul
de São Paulo, a instituição é cercada por
três favelas, consideradas os principais pontos de tráfico
de drogas da região. Até o muro da escola é aproveitado
pelos moradores como parte da construção de suas casas de
alvenaria.
A violência,
que mata um quinto dos jovens de 15 a 24 anos da região, também
está presente no interior das classes da Antônio Aggio. "Tem
muita violência. Um dia, um cara que nem era estudante esmurrou
a porta da sala e acertou um professor", diz Leandro Rodrigues de
Souza, de 17 anos. Quando efetuou sua matrícula, Leandro sabia
de todos os problemas da instituição. "Minha mãe
não queria que eu mudasse de escola de jeito nenhum, mas eu tinha
meus motivos", conta. A Antônio Aggio fica próxima do
local em que ele realizava um curso profissionalizante. "Não
tinha escolha, ou estudava lá ou corria o risco de ficar sem escola."
Apesar de todas as
condições adversas, ele, acompanhado de um grupo de amigos,
quer mudar a situação, fazendo da Antônio Aggio uma
prova de que, com a participação de pais, professores e
estudantes, é possível melhorar a escola e incentivar a
integração comunitária. Desde 2000, Leandro e seus
amigos coordenam uma comissão pró-grêmio estudantil
e passaram a inserir a discussão sobre violência, participação
e direitos humanos nas aulas.
"É muito
triste ver que ninguém respeita a escola e as pessoas que estão
dentro dela. A gente está tentando mudar isso e fazer dela um lugar
melhor", diz Cintia Pires Rafael, de 15 anos, também integrante
da comissão pró-grêmio. Desde o começo do trabalho,
já apareceram sinais positivos. "Os professores estão
muito envolvidos, aproveitam nossas palestras sobre direitos humanos para
trabalhar em sala com suas turmas. As brigas e confusões diminuíram",
entusiasma-se.
Uma das propostas
da comissão é realizar, com professores e direção
escolar, um campeonato de grafite, cujo tema é o nome da escola.
O ganhador fará um letreiro para identificar a instituição.
O grupo de estudantes conta com auxílio do Instituto Sou da Paz,
que desenvolve o projeto Grêmio em Forma em outras duas instituições
escolares do Jardim Ângela. A entidade oferece cursos, palestras
e material explicativo para os estudantes das escolas parceiras. A iniciativa
surgiu a partir de um estudo que comprovou que as escolas que tinham saído
de uma situação de extrema violência possuíam
em comum a atuação dos estudantes. "O Grêmio
em Forma é uma maneira de democratizar essas experiências
de participação", explica Amanda Leal de Oliveira,
coordenadora do projeto.
Segundo Amanda, a
experiência é uma oportunidade de procurar soluções
de problemas que todos os estudantes conhecem muito bem e que não
estão restritos ao universo escolar. "Eles estão percebendo
que têm um papel fundamental para a mudança da realidade.
É um exercício de participação, mobilização
e compromisso muito interessante e que repercute no exterior da escola,
na medida em que os jovens vão questionando a inexistência
de espaços de lazer, cultura e educação", diz.
Integração
- Mudar a visão dos moradores e lutar por uma realidade melhor
para o bairro é também um dos objetivos de um outro projeto
para jovens do Jardim Ângela. Utilizando a comunicação
para transformar a comunidade em um espaço de debate, fomentando
a discussão de temas como valorização do espaço
público, cultura e direitos humanos, a Associação
de Incentivo à Comunicação Papel Jornal transformou
a vida de 20 jovens e repercute por toda a vizinhança. Criada há
dois anos, a ONG surgiu de um ideal comum entre alguns jovens da região
e de profissionais ligados à área de jornalismo. "Fui
ao bairro cobrir uma pauta sobre desemprego e me pediram para fazer oficinas
de fotografia. Mais tarde, jornalistas voluntários aderiram à
causa e iniciamos os primeiros trabalhos para a elaboração
de um jornal comunitário", lembra a fotógrafa Marlene
Bérgamo.
Com aulas de diagramação,
fotografia, texto e discussões sobre cidadania, foi lançado
em novembro de 2000 o jornal Becos e Vielas Z/S - A Voz da Periferia,
distribuído pelo bairro e nas escolas da região. Segundo
Ricardo Oliveira, de 22 anos, um dos responsáveis pela elaboração
do jornal, o Vielas vai além de um simples informativo das condições
do bairro, ele mostra o que a mídia em geral não publica.
"O jornal educa e conscientiza as pessoas a lutar pelos seus direitos,
porque é feito por nós, que enfrentamos essa realidade todo
dia", afirma.
A comunidade recebeu
bem a iniciativa, mandando cartas e querendo participar. "Conquistamos
a confiança, até cobram a entrega do Vielas. Isso nos motiva
ainda mais para continuar o projeto", conta Roberval Oliveira, 23,
irmão de Ricardo e também repórter da publicação.
Mas o Becos e Vielas não é lido só pelo Jardim Ângela.
O grupo da Papel Jornal escreve uma coluna na revista bimestral Simples?,
dirigida a jovens de classes A e B.
O debate comunitário
incentivado pelo jornal também se infiltra na escola. Ana Paula
Assunção, de 21 anos, que participa do projeto desde que
ele começou, assegura que discutiu muito com seus professores por
uma educação melhor. "Eu estava no segundo ano do ensino
médio e não sabia fazer um texto direito. Nas poucas aulas
que tivemos na Papel Jornal aprendi mais coisas do que em um ano de aulas
de português na escola", explica. Hoje, já formada,
conseguiu um emprego por intermédio de um dos fotógrafos
ligado à ONG. Agora, ela quer entrar na universidade e fazer um
curso ligado à comunicação.
Esta coluna é
produzida por estudantes que integram a Cidade Escola Aprendiz, coordenada
por Gilberto Dimenstein e Fernando Rossetti, com a colaboração
de Alexandre Sayad e Natasha Madov. No site Aprendiz (www.aprendiz.org.br),
há uma versão on-line da revista Educação.