Andi
completa dez anos de atividades em defesa dos direitos de crianças
e adolescentes
A Agência de
Notícias dos Direitos da Infância (Andi) está completando
dez anos e tem muito o que comemorar. Depois de se tornar imprescindível
para a imprensa brasileira, a agência está expandindo seu
trabalho para outros países latinos. Este ano, a Andi abriu uma
editoria na América Latina com o objetivo de orientar ONGs que
queiram ser suas sucursais. Em outubro, ONGs de dez países sul-americanos,
latinos e caribenhos irão se reunir para discutir a junção.
Fundada pela jornalista Âmbar de Barros e por Gilberto Dimenstein,
diretor da ONG Cidade Escola Aprendiz, o principal objetivo da Andi é
contribuir para a construção de uma cultura que priorize
a promoção e a defesa dos direitos da criança e do
adolescente. No momento em que foi fundada, a sociedade estava se mobilizando
a favor do Estatuto da Criança e do Adolescente, que acabara de
entrar em vigor, substituindo o antigo Código do Menor.
Âmbar e Dimenstein
receberam um série de denúncias sobre crime organizado.
Eles sentiram que, juntamente com seus colegas jornalistas, desconheciam
a real situação da criança pobre. Na época,
era comum os veículos de comunicação chamá-las
de "crianças de rua", elas apareciam apenas nas manchetes
policiais e eram tachadas de "pivetes".
De lá para
cá, muita coisa mudou. Os estudos produzidos pela própria
instituição mostram que ela está alcançando
seus objetivos. Todos os anos, a agência divulga a pesquisa Infância
na Mídia, que mostra como os meios de comunicação
brasileiros abordam a criança e o adolescente em suas reportagens.
De acordo com a 12ª
Pesquisa Infância na Mídia, lançada este ano, desde
1997 a cobertura da mídia impressa sobre crianças e adolescentes
cresceu 608%. E o aumento não foi apenas quantitativo. A qualidade
das reportagens também evoluiu, ao privilegiar denúncias
e busca de soluções. Hoje, os jornalistas não se
contentam apenas com os boletins de ocorrência das delegacias.
Eugênio Pacelle,
repórter do jornal Diário de Natal, afirma que a Andi foi
a principal responsável pelo trabalho que ele realiza hoje. Pacelle
foi um dos primeiros ganhadores do Prêmio Jornalista Amigo da Criança,
concedido anualmente pela Agência aos jornalistas que mais se destacaram
na defesa dos direitos de crianças e adolescentes.
"Minha maneira
de abordar as questões da infância e adolescência mudaram",
afirma Pacelle. Além de incluir mais reportagens sobre o tema em
seu trabalho, ele fundou a ONG Companhia Terra Mar, que leva educação
a jovens por meio dos veículos de comunicação.
O Diário de
Natal é um dos pequenos jornais em que a Andi atua. "É
importante trabalhar com os veículos menores, pois são eles
os que mais aproveitam esse subsídio. Isso não significa
que os grandes jornais necessitem menos, mas corrigir as deficiências
da imprensa com base no pequeno jornal é como investir em uma criança:
deve-se trabalhar na infância para que ela cresça e se torne
um adulto saudável e equilibrado", constatou Pacelle.
Para Antônio
Gois, jornalista da Folha de S.Paulo, a Andi tem um papel interessante,
pois ela busca qualidade e eficiência nas matérias: "A
Andi sai do bom-mocismo inútil de que cobrir educação
é bom e faz uma análise objetiva." Gois destaca que
a Andi não impõe as mudanças, apenas dá dicas,
respeitando o perfil de cada veículo.
Para Geraldinho Vieira,
conselheiro da diretoria colegiada da Andi, os jornalistas estão
mais preparados para lidar com o assunto, pois muita coisa mudou desde
a criação da Agência. "Os jornalistas que atuam
hoje estão mais sensíveis ao cidadão comum, mais
preocupados com os direitos humanos", defende.
A Andi tem uma editoria
especializada em Mídia Jovem, que também apresentou evoluções
nos últimos anos. "A idéia nasceu quando percebemos
o potencial dos veículos de comunicação voltados
para jovens. São espaços onde o jovem é ouvido e,
por isso, devem ser valorizados", acredita Veet Vivarta, diretor
editor da Andi.
A primeira pesquisa
de mídia jovem foi realizada em 1997 e revelou que 24,2% do espaço
dos veículos impressos era dedicado a temáticas de relevância
social. O último levantamento mostrou que, hoje, 45,97% das editorias
trazem esse tema à tona. "Percebeu-se que o público-alvo
desses veículos são pessoas que estão em um processo
de formação e, por isso, qualquer informação
que chegue até eles interfere nesse processo", explica Vivarta.
O editor conta que
a principal mudança vai além da quantidade de reportagens
sobre os temas ligados à educação: "Antes, o
jornalista que escrevia para jovens não era levado a sério.
Até hoje os cursos de comunicação não trazem
a criança e o adolescente como temas a serem discutidos."
O sucesso da Andi
já é fato consumado. Hoje, em vez de a ONG correr atrás
de parcerias, como é comum nas outras empresas de terceiro setor,
são os parceiros que querem vincular seu nome à entidade.
Foi criada a Rede Andi, uma parceria com ONGs de seis Estados com perfis
semelhantes, aptas a desenvolver o mesmo trabalho da matriz na região
onde atuam.
Para Geraldinho Vieira,
se o trabalho da Andi continuar tendo a mesma eficácia, a entidade
terá trabalho por mais dez anos. "Sempre seremos uma usina
de idéias, mas o ideal seria que a Andi não precisasse mais
existir, porque a sociedade e a imprensa dialogam com fluidez, fazendo
com que nosso trabalho já não tenha mais sentido. Esse,
na verdade, é o sonho utópico de toda ONG. Seria uma sensação
de missão cumprida", concluiu.