Nunca
houve, no Brasil, tanta vontade, acompanhada de medidas concretas, de
levar ciência à sociedade
São muitos
os sinais de que está em curso uma ofensiva inédita para
popularizar o conhecimento científico gerado nas universidades.
O Brasil sempre fez ciência de boa qualidade, mas nunca deu o passo
quantitativo necessário para se tornar um grande produtor de pesquisas.
O trabalho ficou, tradicionalmente, confinado ao esforço de poucos
notáveis e não levou à proliferação
de laboratórios e talentos a ponto de tornar a pesquisa nacional
competitiva internacionalmente. A sociedade, por sua vez, acostumada historicamente
a ver apenas ciência e tecnologia estrangeiras no dia-a-dia, não
entendeu que tinha direito de ser informada sobre ciência e de exigir
mais investigação científica. Esse quadro, tudo indica,
está mudando.
Dois episódios
recentes são saudáveis sintomas de uma febre que, nos últimos
dois anos, tem se alastrado entre cientistas, órgãos governamentais,
universidades e instituições de pesquisa. Sob o patrocínio
de empresários, o Centro de Estudos do Universo (CEU) inaugurou,
dia 17 de maio, em Brotas, pequena cidade do interior de São Paulo,
o primeiro espaçoporto para crianças do país. Os
alunos aprendem sobre física, matemática e química.
No mês de março, a Estação Ciência, centro
de difusão científica, tecnológica e cultural da
USP, lançou o livro Educação para a Ciência:
Curso para Treinamento em Centros e Museus de Ciência. Essas iniciativas
mostram o quanto é imprescindível que a sociedade e a ciência
saibam um pouco mais uma da outra.
O programa Educação
para a Ciência, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (CNPq), recebeu, em 2001, R$ 5,2 milhões,
que foram utilizados na criação de diversas atividades educacionais
e de divulgação. Outros 9,8 milhões foram destinados
pelo CNPq para a implantação dos 17 Institutos do Milênio,
uma novidade criada no ano passado. São redes interligadas por
meio da internet que congregam instituições de ponta, universidades
e grupos de pesquisadores, que aproveitam a infra-estrutura já
existente para tornar a pesquisa brasileira ainda mais competitiva e integrada
no cenário internacional. Mas, além dessas atividades, a
divulgação do conhecimento gerado aparece como fundamental
e obrigatória. Trata-se de uma idéia inovadora dentro da
estrutura de ensino do país e fortalece muito a popularização
da ciência.
A Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) fez
algo parecido ao criar os Centros de Pesquisa, Inovação
e Difusão (Cepids), nos quais também se considera a divulgação
científica parte integrante da própria atividade de pesquisa.
Segundo José Fernando Perez, diretor científico da Fapesp,
a fundação deverá investir, em parceria com o governo
do Estado, cerca de R$ 15 milhões anuais durante 11 anos. "Além
dos Cepids, temos também o programa em jornalismo científico
chamado Mídia Ciência, voltado para profissionais que querem
se tornar divulgadores científicos", diz. Outra iniciativa
da fundação é a Revista da Fapesp, criada em 1999
e que, este ano, com orçamento de R$ 1,5 milhão, passa a
ser vendida nas bancas. A tiragem subiu de 24 mil para 30 mil exemplares.
Estréias – Em janeiro, em Sidney, Austrália, os participantes
do 4º Congresso Mundial de Centros e Museus de Ciência decidiram
que em 2005 o Brasil sediará pela primeira vez um encontro da entidade,
uma das mais importantes do mundo. Outra estréia brasileira no
cenário internacional de divulgação científica
é a realização, também inédita no país,
do 3º Congresso Mundial de Jornalistas Científicos, que acontecerá
na Universidade do Vale do Paraíba (Univap), em São José
dos Campos, SP, em novembro, juntamente com o 8º Congresso Brasileiro
de Jornalismo Científico.
A USP também
tem novidades na área: transformou a antiga sede do seu Instituto
Astronômico e Geofísico (IAG) no Parque de Ciências
e Tecnologia (Cien&Tec). Instalado em uma área de cerca de
141 hectares (equivalentes a 1.410 km2), esse novo espaço de lazer,
entretenimento e educação informal tem como objetivo atender
a população da Grande São Paulo, levando para o público
leigo muitas das grandes questões da ciência. "Só
nos bairros próximos ao parque moram mais de dois milhões
de pessoas", lembra Marta Mantovani, diretora do Cien&Tec, que
contará com cinema esférico de 180 graus para filmes didáticos,
planetário e luneta Zeiss digitais, estação meteorológica
e outra sismográfica, trilhas em mata atlântica preservada,
esculturas de planetas ao ar livre e anfiteatro. "Também ofereceremos
cursos de computação para jovens e de treinamento e atualização
para professores da rede pública e para a terceira idade. O complexo
ficará pronto em etapas, com conclusão prevista para daqui
a cinco anos", complementa Marta.
Outra iniciativa voltada
para o cosmos é o CEU. Mantido por uma associação
de empresários da região de Brotas que investiu cerca de
R$ 400 mil no projeto, trata-se de um centro de educação
científico-astronômica informal que conta com observatório
que consegue mapear qualquer um dos 65 mil astros catalogados em seu sistema
e transmitir as imagens para uma tela de projeção situada
em um auditório. Também há um planetário com
mais de 5 mil estrelas e uma réplica do "templo" de Stonehenge,
estranho círculo de rochas enormes, aparentemente edificado na
pré-história, na Inglaterra, que muitos cientistas acreditam
ter sido uma espécie de observatório astronômico primitivo.
Todos os aparelhos
do CEU foram desenvolvidos por meio de convênio com a Universidade
de Harvard (EUA), e se baseiam em projetos aplicados em cerca de 3 mil
escolas norte-americanas. "Estamos propondo à Agência
Espacial Brasileira a criação de um concurso chamado Seja
um Astronauta", informa Antonio Augusto Rabello, diretor do centro.
A idéia é premiar trabalhos sobre astronomia feitos por
estudantes secundaristas. O primeiro prêmio seria uma viagem até
a sede da agência espacial norte-americana, a Nasa, situada em Houston,
no Texas. Mais 29 concorrentes ganhariam viagens até o CEU, em
Brotas [O concurso ainda não foi confirmado].
Já o livro
Educação para a Ciência: Curso para Treinamento em
Centros e Museus de Ciência não é longo só
no título. Com 678 páginas organizadas em 30 capítulos,
formados por 81 ensaios escritos por 131 pessoas, a obra é, segundo
um de seus organizadores, Ernst Hamburger, diretor da Estação
Ciência, a maior coletânea brasileira de artigos nessa área.
"A publicação é resultado de um workshop ocorrido
na Estação em junho de 2000, com o objetivo de promover
o intercâmbio de informações e experiências
entre os profissionais que trabalham nesses espaços de ensino informal
e divulgação das ciências", explica.
"A necessidade
de se criar cursos dessa natureza foi identificada nas reuniões
preparatórias para a criação da Associação
Brasileira de Centros e Museus de Ciência, e em outros encontros."
São fundamentais para quem quer entender melhor o panorama atual
dessa atividade em nossa região a leitura dos artigos de Jorge
Padilla, presidente da Associação Mexicana de Museus e Centros
de Ciência e Tecnologia, e de Alice Rangel de Paiva Abreu, vice-presidente
do CNPq, que faz um balanço das atuais estratégias de desenvolvimento
científico e tecnológico e a divulgação da
ciência no Brasil.
Avanço – Dados recentes do CNPq sobre investimentos em divulgação
científica feitos nos últimos dois anos mostram o crescimento
da área e como ela tem sido, cada vez mais, considerada fundamental
por diversos segmentos da sociedade. O livro Cinqüentenário
do CNPq – Notícias sobre a pesquisa no Brasil, com mais de 200
páginas e tiragem de 2 mil exemplares, recebeu investimentos de
cerca de R$ 300 mil.
Por sua vez, o Programa
de Apoio às Publicações Científicas do CNPq
recebeu, em 2001, R$ 3.668.035, 62% a mais que no ano anterior. No caso
dos Institutos do Milênio, além dos R$ 9,8 milhões,
o CNPq e o MCT disponibilizarão mais R$ 90 milhões até
2003. Apesar de estar começando a receber essas verbas agora, muitos
institutos já se preocupam com a divulgação dos conhecimentos
gerados por seus pesquisadores. "Em dois meses estaremos colocando
no ar o site do Instituto", diz Jorge Kalil, diretor do Instituto
de Imunologia, ligado à USP.
Segundo Marco Antônio
Zago, professor da Faculdade de Medicina do campus da USP de Ribeirão
Preto (SP), um dos Cepids, o Centro de Terapia Celular, situado na cidade,
já está destinando de 5% a 10% do cerca de R$ 1,3 milhão
anual que recebe da Fapesp para as atividades de divulgação
e interação com a comunidade.
Zago, que dirige o
centro, explica que os investimentos incluem a criação de
uma Casa da Ciência – existe outra, ligada à Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) –, com exposições e cursos
para professores, e do Jornal da Ciência, com tiragem bimestral
de 3.500 exemplares, voltado para as atividades do Cepids. "Nosso
objetivo não é essencialmente a divulgação
da ciência, mas sim a aproximação com a escola secundária,
estimulando os alunos e professores desse setor a se transformar em agentes
criadores do conhecimento por meio do amplo debate crítico de idéias",
diz Zago.
Apesar de os números
serem sempre fontes de informação que nos permitem analisar
os contextos sociais de maneira mais ampla, no caso da atual expansão
da divulgação e educação científica
no Brasil, os números de iniciativas e projetos previstos para
o curto e o médio prazo falam por si.
A USP, por exemplo,
está lançando uma grande ofensiva na área da divulgação
científica. Até o final do ano serão iniciadas as
obras para a construção do setor de museus da universidade,
um local que irá unir, em meio a árvores e espelhos d’água,
os museus de Arqueologia e Etnologia (MAE), de Zoologia (MZ) e de Ciências,
criado no ano passado e atualmente em fase de instalação
de sua primeira exposição-piloto, dedicada aos recursos
hídricos.
"O Museu de Ciências
vai funcionar como um grande pólo criador de exposições
e outros projetos que divulguem os conhecimentos gerados em todos as unidades
da USP", explica Maria Ruth Amaral de Sampaio, diretora da Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo (FAU) e presidente da comissão formada
para implantação do projeto, orçado em R$ 50 milhões,
sem contar os custos com novos equipamentos, num total de 58.130 m2 de
área construída.
A universidade criou
outra iniciativa inédita: a disciplina de graduação
divulgação de ciências físicas e naturais.
Voltada para os alunos dessas áreas, a idéia surgiu a partir
de estudos feitos sobre pesquisas dos jovens estudantes universitários
que trabalham como monitores na Estação, que mostraram a
necessidade de uma capacitação maior. "Esperamos, em
breve, disponibilizar o curso para todas as áreas, incluindo Humanidades",
ressalta Ernst Hamburger, um dos cientistas que há mais tempo têm
se dedicado à divulgação da ciência no Brasil.
Ele também informa que a Associação Brasileira de
Centros e Museus de Ciência (ABCMC) recebeu verba de R$ 450 mil
do Programa Educação para a Ciência, do CNPq, para
a criação de um portal (com início previsto para
2003) que vai congregar os sites de cerca de 120 centros e museus de ciência
brasileiros.
Dos R$ 5,2 milhões
que o programa recebeu no ano passado, cerca de R$ 1,2 milhão foi
destinado à realização de olimpíadas de química,
física, matemática, computação, astronomia,
informática, genética, saúde e meio ambiente, iniciativas
que têm como objetivos despertar vocações para as
carreiras técnico-científicas. Outros R$ 2 milhões
foram destinados à capacitação de professores de
ciências e criação de recursos didáticos para
o aprimoramento de atividades educacionais na área. Os recursos
restantes foram destinados para outras atividades, muitas relacionadas
aos centros e museus de ciência, incluindo cursos, criação
de materiais e desenvolvimento de infra-estrutura.
Apesar de se declarar
um otimista com o progresso da divulgação, ensino e popularização
da ciência no Brasil, Hamburger acredita que a criação
de um plano nacional de popularização da ciência é
altamente necessária. "Várias entidades e diversos
profissionais envolvidos com a área têm defendido isso há
algum tempo, ação conjunta que já tem produzido alguns
efeitos, como mostra a criação do programa Educação
para a Ciência e dos Institutos do Milênio", afirma.
O Laboratório
de Jornalismo da Unicamp (Labjor) também prepara uma novidade para
2003: o lançamento de um mestrado em jornalismo científico.
"A última edição do curso de especialização
em jornalismo científico teve uma demanda recorde de 230 inscritos
para 30 vagas, o que nos fez entender que havia chegado o momento de criarmos
um mestrado na área", explica Carlos Vogt, ex-reitor da Unicamp,
coordenador do Labjor e responsável pelo novo projeto editorial
da revista Ciência e Cultura.
Originalmente, a Ciência
e Cultura era uma revista voltada para a divulgação de ciência
para o grande público. Com o tempo, passou a ser uma publicação
mais acadêmica. Nessa nova fase, com 30 mil exemplares e custo de
R$ 110 mil por edição, será uma revista bimestral
voltada para o debate das grandes questões da ciência e as
tendências da pesquisa mundial. "Também vamos tentar
lançar o novo formato do Brasil Pensa, programa de divulgação
científica feito durante seis anos em parceria com a TV Cultura
e que, agora, será relançado por meio de uma parceria com
a TV Futura", informa Vogt.
Ele também
vê com otimismo o atual desenvolvimento da divulgação
científica no Brasil, mas tem dúvidas sobre a viabilidade
da criação e execução de um plano nacional
de popularização da ciência. "Uma iniciativa
desse tipo somente terá sucesso se houver ampla participação
popular", afirma. "O que existe hoje é uma enorme curiosidade
sadia da sociedade pelos temas científicos, cuja satisfação,
por meio desse amplo e rico mosaico de iniciativas de divulgação,
permitirá sua participação em um projeto dessa natureza",
diz, informando que o Labjor está preparando um grande projeto
de avaliação quantitativa e qualitativa do comportamento
da mídia brasileira quando o tema é divulgação
científica. "Em breve estaremos colocando na internet o maior
banco de dados brasileiro sobre os índices da ciência e tecnologia
na mídia nacional e análises baseadas em pesquisas sobre
o poder difusor e conscientizador dessas ações junto à
sociedade."
Para Fabíola
Oliveira, diretora de publicações e divulgação
da Associação Brasileira de Jornalismo Científico
(ABJC), o cenário atual mostra, indubitavelmente, que a divulgação
científica está vivendo um momento de grande expansão,
cuja origem se encontra nas atuais demandas da sociedade da informação.
"Entretanto, as iniciativas são isoladas, o que acaba favorecendo
a perda de uma parcela desse potencial de expansão. Nos Estados
Unidos e em países da Europa, a divulgação científica
e a conseqüente popularização da ciência fazem
parte, de maneira altamente organizada, das metas das políticas
públicas, incluindo, no caso norte-americano, ações
de defesa da pesquisa científica e tecnológica por parte
das instituições e dos pesquisadores junto ao Congresso",
diz, concordando com Hamburger: "O que falta para o Brasil é
a criação de um Plano Nacional de Divulgação
e Popularização da Ciência."
Doutores – A tese de doutoramento de Fabíola, defendida anos atrás
junto à Escola de Comunicações e Artes da USP, mostrou
que muitos organismos governamentais e institutos ainda fazem uma divulgação
muito atrelada às ações de seus dirigentes e não
aos projetos em si. "A USP, a Unesp e a Unicamp são exemplos
de instituições que possuem políticas e infra-estrutura
de divulgação sistemática de suas atividades, cada
uma à sua maneira e adaptada às suas realidades."
Das três, a
maior das estruturas foi criada pela USP que, além de manter assessorias
de imprensa em diversas unidades, também criou a Coordenadoria
de Comunicação Social, formada por uma agência de
notícias, jornal, TV, rádio, portal na internet, gráfica,
um banco de dados alimentado por nomes de especialistas em vários
assuntos – que qualquer um pode consultar –, um centro de visitantes que
fornece informações sobre o campus da capital e uma divisão
de marketing e relações públicas.
De acordo com Ulysses
Capozolli, editor da Scientific American – uma das maiores revistas do
setor, cuja versão brasileira foi lançada em junho –, o
atual avanço da divulgação científica é
resultado dos investimentos feitos nos últimos 50 anos, com a criação
do CNPq, nos anos 50, e da pós-graduação, nos anos
60, que permitiram a formação da massa crítica necessária
para esse processo.
Para Ronaldo Sardenberg,
ministro da Ciência e Tecnologia, a divulgação científica
é uma ferramenta democrática, um meio de garantir a continuidade
da reforma da política científica iniciada em sua gestão.
Essa reforma pode dobrar o ritmo de crescimento da ciência brasileira
que, formando atualmente 6 mil doutores ao ano, já é uma
das que mais crescem no mundo.
"A divulgação
é importante porque desperta o interesse da população
pela ciência. Ter esse apoio é a melhor maneira de garantir
a continuidade e o crescimento da pesquisa científica no país",
afirma. "A revolução em curso conformará a implantação
da sociedade da informação e da economia baseada no conhecimento,
com o aumento da velocidade e a redução dos custos dos instrumentos
para a pesquisa e para o desenvolvimento tecnológico", anima-se
o ministro.