Uso escolar das histórias
em quadrinhos sofre preconceito e falta de interesse dos educadores
Um pôster do
Homem-Aranha logo acima da mesa amadeirada e as estantes abarrotadas de
outros super-heróis denunciam os verdadeiros interesses de Waldomiro
Vergueiro. Como coordenador no Núcleo de Pesquisas de Histórias
em Quadrinhos (NPHQ), da USP, ele tem uma missão: combater "o
preconceito e a falta de conhecimento na resistência dos professores
ao uso escolar das HQs." Sem adotar identidade secreta, vai logo
abrindo o jogo: é um aficionado por quadrinhos e não se
conforma que eles não sejam utilizados no ambiente escolar. "Sempre
me interessei muito. Dou aulas sobre quadrinhos há 19 anos",
confessa. Mas ele tem um plano.
Para provar que é um desperdício a negligência dos
educadores com esse tipo de material, a USP está criando o Diretório
Geral de HQs no Brasil. "Talvez seja o projeto mais ambicioso sobre
HQs no país. A idéia é fazer um levantamento de tudo
que foi e continua sendo feito no Brasil em quadrinhos", arquiteta
Vergueiro. O projeto brasileiro é inspirado no modelo norte-americano,
em que a catalogação é ainda mais minuciosa, englobando
cada história, título e personagem.
Além dessa
iniciativa, o núcleo promove encontros mensais para a discussão
de textos sobre HQs, organiza eventos e diversas atividades, inclusive
de desenvolvimento artístico. Realiza, ainda, entrevistas com autores
e conhecedores do tema no Brasil, para que essa informação
não se perca. O núcleo já começou a tornar
tudo disponível na internet. O que move essa iniciativa, além
do gosto pelo tema, claro, é a vontade de derrubar os preconceitos
e valorizar o papel social das histórias em quadrinhos.
Vergueiro explica
que as HQs reproduzem a linguagem coloquial, do dia-a-dia. Nos EUA, elas
foram utilizadas como elementos de aculturação. As histórias
do começo do século XX tinham como objetivo incorporar à
cultura americana todas as levas de imigrantes que chegavam ao país.
E podem ajudar muito no ensino de idiomas, garante ele: "É
diferente de você pegar um livro de literatura; as pessoas não
falam daquele jeito".
Em São Paulo,
não há desculpa para o professor que queira conhecer melhor
esse mundo. A maior gibiteca do país, a Henfil, fica no Centro
Cultural São Paulo e o acesso é gratuito. O local conserva
95 mil revistas e 30 mil títulos. Mensalmente, 2.400 pessoas freqüentam
o lugar, que recebe 1.500 doações de revistas por mês.
Para Vergueiro, o fundamental é que o professor se interesse, busque
temas relevantes nas próprias revistas, e, principalmente, use
a imaginação.
Assim faz Lucimar
Mutarelli, professora de história da arte, nos ensinos médio
e fundamental nas redes pública e privada de São Paulo.
O que para muitos docentes é um terror a ser combatido com apreensões,
repreensões e lições de moral, para Lucimar é
um sinal positivo: "Aluno lendo gibi é bom, tem que perguntar
o que é, demonstrar interesse". Há mais de uma década,
ela trabalha HQs em sala de aula. O fascínio veio da infância,
antes mesmo de conhecer seu marido, o ilustrador Lourenço Mutarelli.
Essa tem sido, segundo ela, uma ferramenta chave para conquistar os "líderes
negativos", que costumam gostar de HQ.
A maleabilidade do
material transparece no trabalho desenvolvido por Lucimar. Ela utiliza
quadrinhos para estimular a construção de personagens, debater
eventos históricos, fazer os alunos refletirem sobre desemprego
em uma atividade conjunta com a cadeira de geografia, enfim, não
há limites nesse campo. Aos colegas que querem usar HQs em sala
de aula, Lucimar faz um alerta: "Tem de ter seriedade; não
adianta trazer para preencher lacunas, não é só diversão".
Para a professora,
o desenho é a linguagem natural da criança, mas a alfabetização
freia o desenvolvimento do traço. "Não é preciso
curso de desenho; tem de aprender a observar", explica. Waldomiro
Vergueiro também defende as histórias em quadrinhos aos
desmistificar a idéia de que elas atrapalham a alfabetização.
"Não há nenhuma pesquisa que comprove isso. Ao contrário,
as crianças que têm contato com HQs antes da alfabetização
têm muita facilidade para aprender a ler. E os que adquirem esse
costume têm menos resistência a outros tipos de leituras."