Psicopedagoga
argentina analisa influência da confiança que professor deposita
no aprendizado do aluno
O papel do professor é esse, a característica do educador
do século XXI é aquela, a melhor metodologia é ainda
outra - poucas profissões sofrem tamanha avalanche de análises,
críticas e conceituações como a do professor. Mas
nem todos os pesquisadores de educação pensam apenas no
profissional. Há quem procure centrar-se na pessoa do mestre e
se ocupe em analisar as formas pelas quais também os professores
aprendem. Entre essas pesquisadoras está a psicopedagoga argentina
Alicia Fernandez. Conferecista requisitada no Brasil, na Alemanha, na
França, na Espanha, nos Estados Unidos e no Uruguai, Alicia tornou-se
uma importante referência para psicólogos, pedagogos e psicopedagogos
por suas abordagens originais e transformadoras, nas quais procura estudar
o que chama "autoria do pensamento e modalidades do conhecimento".
No Brasil, publicou A Inteligência Aprisionada, A Mulher Escondida
na Professora, Os Idiomas do Aprendente e Psicopedagogia em Psicodrama
(todos da ArtMed), e O Saber em Jogo (Vozes). Alicia desenvolveu um relacionamento
especial com o Brasil, trabalhando com universidades e pesquisadores;
recentemente, participou da I Conferência Internacional da Educação,
promovida pela ONG Ghrubas - Projetos Educacionais e Culturais, em Ribeirão
Preto (SP). E voltará em setembro, para participar do Congresso
Saber 2002, no qual fará a palestra Colocando o Saber em Jogo:
A Alegria do Descobrimento da Autoria. Em São Paulo, Alicia concedeu
à revista Educação a seguinte entrevista:
Educação - Você é uma pesquisadora muito respeitada
no Brasil, com vários livros traduzidos. Como se construiu esse
relacionamento? Alicia Fernandez - Profissionalmente, começou há
mais de dez anos, quando psicopedagogas brasileiras viajaram para a Argentina
para fazer cursos e estágios. Eu havia criado, então, o
Espaço Psicopedagógico de Buenos Aires (Epsiba). Em seguida,
alguns livros meus foram sendo traduzidos no Brasil, inicialmente A Inteligência
Aprisionada, o que fez aumentar esse contato. Depois, comecei a ser procurada
para eventos, congressos, universidades. Esse relacionamento cresceu a
tal ponto que o Epsiba, aquela instituição que tinha sido
criada, continuou com a mesma sigla, mas mudou de nome. Passou a se chamar
Espaço Psicopedagógico Brasil e Argentina, editando uma
revista com o mesmo nome.
Educação - Como poderíamos delimitar sua área
de pesquisa?
Alicia - Bem, minha área é a psicopedagogia, mas
sei que isso é bem amplo. Posso dizer que tenho construído
um espaço dentro da psicopedagogia, uma área de pesquisa
já bastante consolidada, que tem por objeto de estudo a autoria
do pensamento de professores, crianças, pais, enfim, de todas as
pessoas. Pesquisando sobre a autoria do pensamento, estudo as modalidades
de ensino em sua relação com as modalidades de aprendizagem.
Veja, quando falo de modalidades não se trata de metodologias de
ensino, mas de algo que vem a ser inconsciente, pré-consciente
e até consciente. Esse algo é a maneira como nós,
desde bebês, construímos nossa forma de aprender, sempre
em relação com os adultos que nos cercam.
Educação - Você pode definir essas modalidades de
forma sintética ou trata-se de referências teóricas,
mais complexas? Alicia - Tenho medo de que, ao catalogar essas idéias,
eu possa sugerir que são receitas. Não gosto muito da idéia
de catalogar coisas. Todo ser humano nasce inteligente. Mas é preciso
saber que a inteligência se constrói na relação
com os outros. Ela vai se desenvolvendo à medida que os adultos
considerem essa criança, acreditem que ela vai aprender. Costumo
dizer que não aprendemos a andar porque temos pernas. Aprendemos
a andar porque tivemos pessoas que nos ensinaram e acreditavam que iríamos
andar, que nos estimulavam a isso. Em espanhol, as palavras crer e criar
têm a mesma raiz etimológica. A palavra para dizer "eu
crio" e "eu creio" é a mesma. Para mim, isso tem
um significado enorme. Pois é preciso acreditar para criar as condições,
para que se possa algo.
Educação - É possível transpor esse raciocínio
para a realidade brasileira? Alicia - Claro. O que essa idéia tem a ver com a escola?
Ora, se o professor imagina que certos alunos não vão aprender,
seja por quaisquer causas, sociais ou disciplinares, eles realmente não
aprenderão. Pois todos nós, e ainda mais as crianças
e os adolescentes, reconhecemos a nós mesmos de acordo com que
os outros nos consideram. Se estou em um meio no qual todos acham que
não sou capaz, vou me conformando.
Educação - Podemos voltar às modalidades de ensino
e aprendizagem?
Alicia - Sim, podemos agora falar de um modo genérico sobre
isso, mas prefiro que as pessoas também leiam os livros para que
isso não fique solto. Há uma modalidade de aprendizagem
que se orienta pelo que as pessoas não podem fazer. Fala-se sobre
as dificuldades, as impossibilidades, como a maior parte das avaliações
diagnósticas. Isso está na base da problemática da
aprendizagem. Saber o que a criança ou o adolescente não
pode fazer resolve o problema para o diagnosticador, seja ele pai ou professor.
Mas de nada adianta para a pessoa que sofre o problema.
Educação - Você poderia citar um exemplo?
Alicia - Um exemplo atual: hoje em dia, está na moda dizer
que a criança tem um distúrbio de hiperatividade. Bem, resolveu-se
o problema, já temos a resposta da questão. Isso não
apenas não resolve o problema da criança, mas a prejudica,
pois todos os que lidam com ela se desresponsabilizam. Ela não
aprende? Então, é por isso, ela é hiperativa. Ora,
estamos vivendo em uma sociedade desatenta e hiperativa, que medica o
que ela mesma produz, em vez de se conectar ao problema real. No caso
da escola, muitas vezes os professores demandam que os alunos os atendam,
quando a situação é estranhamente inversa. A função
do professor é criar condições justamente para que
os alunos atendam a si mesmos, reconheçam-se a si mesmos, façam
suas descobertas.
Educação - Há outras modalidades de ensino e de
aprendizagem que você poderia citar?
Alicia - Há uma modalidade de ensino que esconde, que trabalha
com o segredo, que tenta esconder parte do conhecimento. Isso leva a uma
situação na qual o aluno se vê obrigado a espiar.
E quando você espia, ao mesmo tempo incorpora uma idéia de
culpa por ter obtido esse conhecimento. Então, pode ser que esqueça
o que espiou ou faça de conta que não tem aquele conhecimento.
Com a mídia, que de certa forma também é "ensinante",
como pais e professores, esse processo se sofisticou. Hoje, esconde-se
exibindo. Tudo é excesso. Na escola, isso se traduz no "enciclopedismo".
Prepara-se o aluno para que tenha sucesso, mas oferecemos um conhecimento
que não tem significação. E para que algo tenha significação,
precisamos outorgar sentido às coisas.
Educação - Como assim?
Alicia - Veja o adolescente de hoje. Está entediado. Evita
conhecer, como se o conhecimento doesse, produzisse ferida. Mas não
é o conhecimento que produz a ferida. Aqui entra a questão
da autoria do pensamento. Hoje, fazemos como fazia um rei da Antiguidade,
que matava o mensageiro que portava más notícias. O mensageiro
aqui corresponde à autoria do pensamento. Sei que essas idéias
estão expostas aqui de forma genérica, mas meu trabalho
com os educadores é relacionar esses aspectos teóricos no
vínculo concreto entre professor e aluno, sempre trabalhando com
a pessoa.
Educação - Sob esse ponto de vista, será que,
ao tratarmos o professor apenas como profissional, não estamos
nos esquecendo da pessoa?
Alicia - Completamente. Muitos palestrantes e capacitadores fazem
com o professor justamente aquilo que dizem para o professor não
fazer. O meu trabalho principal é sobre a pessoa do professor,
recuperando sua própria história como aluno, recuperando
sua capacidade de brincar. Brincar mesmo, pois o professor precisa se
conectar com a criança interior. O desejo de ensinar é secundário
no professor. O desejo primário é o de aprender, e é
isso o que temos de resgatar. Poder ser um professor "suficientemente
bom" não se consegue com técnicas nem com cursos. Requer
um trabalho constante consigo mesmo para construir uma postura, um posicionamento
como aluno, que redundará em modos de ensinar. Um bom "ensinante"
é um bom "aprendente". A tarefa difícil do mestre
pode se tornar prazerosa se tratar de fazer consigo mesmo o que se propicia
aos outros.
Educação - O professor continua ligado às pessoas
que o ensinaram?
Alicia - Todos estamos. Vou contar uma pequena história
real. Eu estava em um hospital público de Buenos Aires e lá
havia um senhor de 82 anos, acidentado, em coma, desenganado e sem família.
Depois de quatro dias, teve alta. Perguntei a ele onde tinha buscado forças
para se segurar. Ele respondeu: "Quando estava na UTI, lembrei o
modo com que minha terceira professora me olhava, quando criança.
A primeira me dizia ‘você não vai conseguir’; a segunda,
também. E na minha terceira série encontrei essa professora,
que me olhava como alguém que ia conseguir." Provavelmente,
essa professora morreu sem saber de sua enorme importância para
o conjunto da vida de seus alunos. Porque isso é realmente um bem
invisível. Só o próprio professor pode saber a importância
subjetiva de seu trabalho.
Educação - Como é seu contato com os pesquisadores
brasileiros, você vem com freqüência ao Brasil?
Alicia - Venho bastante por conta dessa proximidade de que falei
no início. Agora mesmo, volto de Ribeirão Preto, tenho vários
atendimentos em São Paulo, sigo para Porto Alegre e de lá
retorno para Buenos Aires. É um pouco cansativo. Em setembro, volto
novamente ao Brasil para participar do Congresso Saber 2002, para falar
desses assuntos sobre os quais conversamos.
Educação - Aliás, esse evento terá justamente
como tema Educar para viver, viver para educar: as muitas faces do professor.
Como você avalia a importância dessa tentativa?
Alicia - É fundamental ou, diria mais, é urgente
tratar da vida pessoal do professor. Um congresso provavelmente poderá
situar a questão, não terá como completar o trabalho,
mas fundamentalmente terá o papel de levar o professor a se perguntar.
E isso é muito, muito importante. Sempre digo que mais importante
do que conhecer é reconhecer. O conhecimento que você tem
de nada serve se você não se reconhecer.
Educação - Como será sua palestra no Saber 2002?
Alicia - A palestra vai se chamar Colocando o Saber em Jogo: A
Alegria do Descobrimento da Autoria, e discutiremos muitas idéias
interessantes. Entre elas, vou falar do espaço que se abre entre
o ensinar e o aprender. Um campo de autorias, de diferenças. Aprender
é "a-prender", é "não prender",
desprender e desprender-se. A riqueza dessa diferença nos obriga
a pensar pelo menos em quatro questões: 1) uma prova de que o professor
ensinou é que o aluno não continue dele necessitando; 2)
para aprender se requer liberdade; 3) a liberdade supõe responsabilidade
coerente com a autoria; e 4) pais e professores, como "ensinantes",
necessitam nutrir seu próprio desejo de aprender e o desejo genuíno
de ensinar só pode ser considerado como um derivado do desejo de
aprender. A escola, sendo o lugar onde alunos e alunas se encontram com
adultos investidos do poder de ensinar, pode possibilitar a potência
criativa do jogar e do aprender da criança. Isso se alcança
com "ensinantes" que desfrutam o aprender, o jogar com idéias
e palavras, com humor, com as perguntas de seus alunos; que não
obriguem a urgência da resposta, que possibilitem a construção
de novas perguntas a partir das perguntas de seus alunos. O marketing
do produto rápido e de êxito fácil atenta contra o
valor da autoria e do processo.