Numa das novelas da
Globo, O Clone, as personagens vinham do Marrocos para o Brasil e para
lá iam como quem vai do Brás à Mooca. Ou de Moema
ao Itaim. Coisa fácil, apesar do trânsito. Nada surpreendente
num regime econômico feliz como o gerido pela trinca dinâmica
Fernandenrique, Malan & Armínio Fraga, que acabou com a tenebrosa
concentração de renda, promoveu a redistribuição
e tornou todos felizes, ricos, empregados, saudáveis e bonitos.
Igualzinho ao Brasil dos discursos de Fernandenrique.
As figuras clonescas
que vinham de lá pra cá e iam de cá pra lá
jamais se queixaram do preço das passagens aéreas ou de
aflições financeiras. - Você vai para Fez amanhã
mesmo - disse certo dia o pai marroquino irritado com o namorico da filhota
adolescente com um garotão carioca no Rio de Janeiro.
Só que ele
e as outras personagens se referiam à cidade marroquina como "Fez",
com "e" aberto. Mas "fez", com "e" aberto,
é forma obsoleta de fezes. O singular, talvez. Por isso, antes
da reforma simplificadora que eliminou quase totalmente o acento diferencial
em 1971, "fez", do verbo "fazer", ou barrete (espécie
de chapéu turco), e o nome da cidade levavam acento circunflexo:
era "Fez", para que ninguém a chamasse de cocô,
como fazem agora. Ainda há resquícios do acento diferencial.
Outro exemplo: o pronome
"aquele" era acentuado ("aquêle") para não
se confundir com a forma verbal "aquele" (pronuncia-se "aquéle"),
de "aquelar", que usamos uma vez em cada 96 anos. O verbo "aquelar",
de uso restritivíssimo, parece ter sido criado num lugarejo lusitano
chamado Caminha, foi o que disse o lexicógrafo e filólogo
Cândido de Figueiredo, também luso, descobridor do vocábulo.
Conhecido como palavra-ônibus, é usado no lugar de outro
que, por lapso ou ignorância, não ocorre a quem fala. São
muitos os seus significados: atinar, arranjar, compor, fazer, preparar,
perceber. Equivale a algo como "coisar". É verbo desnecessário.
Como a maioria dos políticos e governantes.
Mais exemplos de palavras
antigamente marcadas pelo acento diferencial? "Êste",
"êsse", "acôrdo", "fôrro",
"gôzo", "ôsso", "ôvo"
e milhares de outras homônimas heterófonas, isto é,
de grafia igual, mas significados e pronúncias diferentes.
De todo modo, seria bom que os autores e diretores de novelas inteligentes
e verossímeis como aquela, pesquisassem para que as personagens
não falassem bobagens. Os dicionários anotam a prosódia
de palavras pouco usadas, como a homônima de fez, do verbo fazer.
Está lá
no Houaiss:
"fez /é/substantivo feminino. (...) obsoleto 1. Mesmo que
fezes."
"fez /ê/ s.m. (...) barrete cônico e em geral rubro,
usado por alguns povos, especialmente pelos turcos (...). Fez (do árabe
fãz), cidade do Marrocos onde esse barrete é fabricado.
fez /ê/ (fazer)."
Nota-se que nos dois
verbetes, anotados aqui parcialmente, o "e" entre barras indica
a pronúncia. Curioso é que "fezes", com o primeiro
"e" fechado, é plural de "fez", o barrete turco,
também com "e" fechado, convém repetir.
A conclusão
é que não fica bem falar cocô em público. Muito
menos mandar alguém ao cocô. É deselegantíssimo.
Josué
Machado é jornalista e autor do livro Manual da Falta de Estilo
(Ed. Best Sellers)