Pesquisa
da Fundação Orsa sobre educação infantil demonstra falhas e carências em creches
brasileiras
O muro alto impõe
respeito. Ao entrar no colégio, o que prende mais a atenção
é a cor branca que predomina nas paredes do prédio reservado para
a educação infantil. O ambiente é amplo e, para cortar o
branco, estão expostos os trabalhos das crianças de até seis
anos que passam grande parte do dia ali. Quem está ali é filho da
chamada elite paulistana, que recebe o tratamento julgado ideal por especialistas
da educação. Falar sobre creche com os profissionais daquela escola
é quase uma piada. Eles não compreendem mais a educação
infantil nos moldes em que ela ainda se dá hoje.
Além das estruturas
excelentes, a escola já se adaptou às exigências da Lei de
Diretrizes e Bases (LDB). Todos os professores da educação infantil
têm nível superior completo ou, no mínimo, em curso, inclusive
os assistentes.
Há outra realidade
no Brasil, porém, bem diferente.
Pesquisa da PUC-SP, com
o apoio da Fundação Orsa, divulgada no 2o Congresso de Desenvolvimento
Infantil, em outubro passado, revela que 43,7% dos profissionais de creches brasileiras
não têm o ensino médio completo. Pelo contrário, 11,7%
não concluíram, sequer, o ensino fundamental.
O levantamento feito por
11 especialistas e coordenado pela professora da USP Tizuko Morchida Kishimoto
utilizou dados de 619 instituições em 26 estados brasileiros. O
estudo comprovou que, além de mal remunerados, os profissionais que trabalham
com educação infantil estão longe de possuir a formação
adequada para essa função.
Vera Melis, do núcleo
de educação da Fundação Orsa e uma das pesquisadoras,
lembra que esta realidade não está vinculada apenas à rede
pública. No interior do Estado de São Paulo, 41,6% dos profissionais
das creches particulares não completaram o ensino médio, contra
33,4% nas públicas. A explicação, segundo Vera, é
a diferença do nível de exigência entre as duas redes. "Na
rede pública existe uma seleção, concurso público
ou contrato assinado. Já na particular, as exigências quanto à
formação e escolaridade são menores por não serem
tão fiscalizadas", explica a pesquisadora.
Durante o levantamento,
Vera percebeu também que as referências vinculadas aos profissionais
da educação infantil não são, necessariamente, baseadas
na formação profissional. Segundo ela, 20% dos questionários
mostraram que, para trabalhar na área é preciso, apenas, "ter
dinâmica, gostar de criança e ter boa saúde". No caso
das berçaristas, o referencial de um bom profissional é ser uma
senhora", ressalta Vera.
Na creche Adail Tine de
Araújo, na Zona Sul de São Paulo, é possível encontrar
um exemplo bem comum do resultado da pesquisa. Ana Cláudia dos Santos Silva
trabalha na instituição há um ano e dois meses. A denominação
de sua função dentro da creche é de Auxiliar de Desenvolvimento
Infantil (ADN) e, para isso, ganha cerca de R$ 350 por mês, com uma jornada
de oito horas diárias.
A auxiliar da creche tenta
dar continuidade ao ensino médio freqüentando aulas de suplência
- está no primeiro ano. Apesar de não ter a qualificação
adequada, ela foi privilegiada pela política da instituição
que, juntamente com o município, sustenta a creche: contratam apenas funcionários
do bairro. Com isso, viu a primeira oportunidade de sair do "hall dos desempregados".
A funcionária da
creche sonha em cursar o ensino superior, talvez pedagogia ou enfermagem. A possibilidade
de sentar-se em uma classe de universidade pública é, para ela,
remota; e as particulares vão exigir um esforço grande para uma
funcionária que também precisa sustentar a filha. "Uma faculdade
próxima daqui do bairro deve custar mais de R$ 350 e quando eu conseguir
entrar em uma delas terei de arrumar outra coisa mais para fazer e ganhar um dinheirinho",
conta.
No Colégio Visconde
de Porto Seguro, as professoras denominadas conselheiras, responsáveis
por uma sala, têm uma jornada diária de cinco horas. Qualquer atividade
fora desse tempo é considerada hora extra, portanto, paga separadamente.
As assistentes não têm um horário muito diferente: cumprem
seis horas diárias auxiliando as conselheiras e preparando o ambiente para
as crianças.
O salário de uma
professora conselheira gira em torno de R$ 2,6 mil mensais por 100 horas de trabalho.
A excelente condição de trabalho, segundo a professora do colégio,
Carla Scatena, proporciona uma dedicação maior aos alunos e tempo
para reciclagem. "Aqui há toda uma situação privilegiada
para se fazer educação", confirma.
Em seu tempo livre, Carla
freqüenta cursos de artes. As especialidades de cada profissional são
utilizadas nas reuniões pedagógicas semanais. Ela afirma que, "o
trabalho com as crianças não depende apenas de um olhar meigo, envolve
muito trabalho pedagógico para o nortear". A jornada reduzida prioriza
a formação do professor. Com tempo extra e boa remuneração,
os profissionais conseguem atualizar-se e também atingir as metas da LDB.
Segundo a pesquisa, apenas
0,39% do total de despesas das creches é destinado a formação
de profissionais. A maioria dos recursos cobre salário e alimentação.
A diretora da creche Adail
Tine, Ana Helena Seixas de Campos, confirma que captar recurso para essa atividade
é uma tarefa muito difícil. O município não prevê
verbas desse tipo, o esforço para consegui-las é da própria
administração das creches ou das instituições conveniadas.
A formação
dos profissionais da educação infantil esbarra, segundo a pesquisadora
Vera Melis, não só na falta de preparo em nível superior,
mas também nas lacunas deixadas pelas universidades. "São poucas
as instituições que têm uma proposta de habilitação
ou curso de extensão com um olhar voltado para a criança de zero
a seis anos. Então, as pessoas fazem um curso que é importante para
a formação, mas formalmente elas não têm formação
para esse tipo de ensino", afirma.