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50 anos de infância Guilherme Bryan Em seus cinqüentenário, TV brasileira desempenha papel cada vez mais fundamental na formação - e deformação - das crianças Leia
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Nesse aspecto parece caber à escola um papel fundamental, como comenta Claudemir Edson Viana, pesquisador do Laboratório de Pesquisa sobre Infância, Imaginário e Comunicação da ECA-USP (Lapic): "Muito mais importante do que se avaliar o conteúdo dos programas, é o papel que o adulto - primeiro pais e depois professores - tem de conversar com a criança a respeito deles". Já Silvia Cristina Grunauer Scuracchio, que defendeu a tese de mestrado A Criança, a Pré-Escola e a Televisão, acredita que um trabalho conjunto dos pais com a escola ajuda a diminuir um pouco a informação distorcida que a criança recebe da televisão. "É necessário desenvolver o senso crítico na criança para que ela não se torne um telespectador passivo e possa avaliar e questionar o que está sendo apresentado", garante. A psicóloga Ana Olmos, psicanalista e fundadora do grupo TVer (organização não-governamental que se propõe a discutir a qualidade da TV no Brasil), acrescenta que os programas deveriam ter a função de ajudar a criança a ser mais crítica e, portanto, mais cidadã. Lamenta, porém, que eles não sejam pensados como alimento pedagógico para a faixa etária que deseja atingir. Silvia complementa: "O ideal seria uma programação que pudesse entreter as crianças passando valores, normas de conduta e respeito pela diferença. Pode gerar também interesse por histórias, desenvolvendo vocabulário, memória e introspecção, e despertar a curiosidade da criança para assuntos interessantes e produtivos. Tem que ser levado em conta que ela está em fase de formação da personalidade". Todos concordam que não é mais tão simples educar um filho diante do forte apelo da televisão. Mas nem sempre foi assim. Muitos programas, principalmente os pioneiros, procuravam enriquecer a formação das crianças, caso do Teatrinho Troll, que, durante os dez anos em que ficou no ar, procurou oferecer a adaptação ao vivo de grandes clássicos da literatura universal (Chapeuzinho Vermelho e Rapunzel, entre outros), em boa parte interpretados por atrizes de renome, como Fernanda Montenegro, Norma Blum e Íris Bruzzi. "Ele primava pelo cuidado que Fábio Sabag (criador do programa) tomava com os textos, que eram histórias internacionalmente conhecidas. Deu tão certo que seu modelo teve prosseguimento com o Teatrinho Tupi", lembra Zilka Salaberry, atriz que se consagrou como a Dona Benta do Sítio do Pica-pau Amarelo.. De lá para cá muitos outros programas foram realizados. Alguns se mostraram preocupados em recuperar o universo lúdico da criança, caso daqueles estrelados por palhaços (Programa do Bozo - modelo importado dos Estados Unidos - e Cirquinho do Arrelia, que imortalizou o bordão "Como vai, como, como vai? Muito bem, muito bem, bem, bem"). Bonecos também fizeram história, como o Garibaldo, da Vila Sésamo, o Fofão, da Turma do Balão Mágico, a cadela Priscila, do TV Colosso, e os do Bambalalão, Rá-Tim-Bum, CoCóRiCó e Castelo Rá-Tim-Bum). Desses programas, o mais popular talvez tenha sido o Sítio do Pica-Pau Amarelo, baseado na obra de Monteiro Lobato, em que uma boneca de pano (Emília) e um sabugo de milho (Visconde) ganhavam vida. Houve também os programas que procuraram ensinar às crianças desde bons hábitos, como lavar às mãos antes das refeições e escovar os dentes (Catavento e Vila Sésamo) até desenhar (Turma do Lambe-Lambe) ou fazer mágica (X-Tudo) e escutar contos musicados (Canta Conto, da TVE) . Já outros, que não eram voltados exclusivamente às crianças, tornaram-se sucesso entre elas, caso de Os Trapalhões, em que os personagens Didi, Dedé, Mussum e Zacarias ganhavam a simpatia dos telespectadores com um humor leve, ingênuo (às vezes preconceituoso) e circence A partir de meados dos anos 80, no entanto, o mercado percebeu que as crianças eram consumidoras em potencial. É o início da fase em que os programas infantis passam a ser comandados por jovens apresentadoras - na maioria loiras e comprometidas em estimular hábitos de consumo entre os "baixinhos". O pioneiro da mercantilização da programação infantil foi o Clube da Criança. Na seqüência, vieram Xou da Xuxa, Xuxa Park, Bom Dia & Cia., Pintando o Sete, Eliana & Alegria e tantos outros que copiaram a fórmula. Apresentando desenhos e brincadeiras, as "tias" se tornam modelo para crianças de todo o país - basta lembrar as botas brancas e minissaias que Xuxa transformou em uniforme nacional entre as meninas. Mas, em pesquisa realizada pelo Lapic, as apresentadoras aparecem como a terceira opção na preferência infantil. Em primeiro lugar, aparecem os desenhos animados, seguidos pelas brincadeiras promovidas nos programas. Isso pode ser comprovado pelo atual sucesso de canais a cabo, como o norte-americano Cartoon Network. Recentemente, começou a ganhar espaço programas apresentados pelas próprias crianças, caso de Gente Inocente (TV Globo), Band Kids (TV Bandeirantes), Chiquititas e Disney Club (ambos do SBT). Precursor desse modelo, já no início da década de 80, a Turma do Balão Mágico (Simony, Tobby, Mike e Jairzinho) conseguiu grande êxito tanto em termos de audiência para sua emissora, a TV Globo, quanto na vendagem de seus discos, que atingiu a marca de 10 milhões. Pode não ser educativo, mas, definitivamente, é um bom negócio.
Pausa
para o talento Em meio ao pragmatismo mercadológico que tomou conta da programação infantil na TV, com os "ilariês" que garantiram milhões de cópias de discos vendidas, sobrou espaço, entre os comerciais, para que se veiculasse música considerada de qualidade. Foi assim na TV Globo, no início da década de 80, com musicais como A Arca de Noé, de Vinícius de Moraes, que tornou conhecidas canções de versos singelos como O Pato e A Casa e ajudou a aproximar as crianças de artistas como Ney Matogrosso, MPB-4, Marina, Elis Regina, Chico Buarque e Milton Nascimento. Outros exemplos foram Plunct, Plact, Zuum, Casa de Brinquedos (idealizada por Toquinho), A Era dos Halley, A Turma do Pererê e Pirlimpim, uma viagem com os personagens do Sítio do Picapau Amarelo. "Eram musicais feitos de maneira bastante descontraída e familiar. A gente se divertia muito. Eu pedia para que cada artista colocasse nas músicas o seu lado brincalhão e não tratasse as crianças como débeis mentais", comenta o produtor musical Guto Graça Mello. A fórmula parecia tão bem-sucedida que até a Turma do Balão Mágico mereceu um programa especial, Amigos do Peito, onde apareceria cantando com Roberto e Erasmo Carlos, Fábio Jr. e Fagner. Com a entrada em cena das consagradas apresentadoras infantis, o mercado fonográfico descobriu que poderia encontrar nelas grandes vendedoras de, entre outros produtos, discos. As canções, então, perderam o cunho educativo e ganharam melodias mais assimiláveis. Exceção, no período, são as trilhas sonoras dos programas da TV Cultura - caso do Rá-Tim-Bum, que contou com produção musical de Edu Lobo e músicas interpretadas por Caetano Veloso, Boca Livre, Joyce e Jane Duboc, e de outros tantos realizados por Arnaldo Antunes, Fernando Salém e Hélio Ziskind e Paulo Tatit. Quando questionado a respeito da possibilidade dos musicais atualmente, Graça Mello é categórico: "Teria espaço hoje sem a menor dúvida e acredito que tenha que se fazer grandes musicais fugindo do esquema da apresentadora. Tudo que é bem feito e respeita a criança tem resposta imediata".
Goiabada
de marmelo Mesmo tendo sido apresentado inicialmente pela TV Tupi, foi mesmo nas TVs Cultura e Globo, onde ficou no ar de 1977 a 1986, que o Sítio do Pica-pau Amarelo (adaptação da obra de Monteiro Lobato) tornou-se um dos grandes marcos da televisão brasileira. Bastava que a música de Gilberto Gil começasse a tocar para que crianças de todo o país se colocassem em frente ao televisor. "Eram ensinados os bons costumes, as brincadeiras simples que as crianças de hoje já não conhecem, como fazer carrinho com caixote, e o amor aos animais e aos empregados", avalia Zilka Salaberry, a Dona Benta do seriado. Por meio de uma boneca de pano falante (Emília), um sabugo de milho intelectual (Visconde) e os dois netos de dona Benta, Pedrinho e Narizinho, as crianças eram transportadas para um mundo de fantasia, onde tudo podia acontecer, incluindo o encontro com personagens de outras histórias, como Peter Pan e o Barão de Munchaüsen. Como uma das grandes novidades anunciadas pela TV Globo para a sua programação do ano 2001, está a volta do Sítio. Basta saber se a empatia com as crianças permanecerá a mesma. "Eu achei uma idéia maravilhosa. Espero só que não se modernize demais. Não se pode mexer no espírito do Monteiro Lobato. A simplicidade tem que continuar", espera Zilka. Orgulho
nacional "Os programas infantis da TV Cultura têm um caráter de formação, no sentido de entreter e educar levando os princípios éticos e de cidadania", avalia Walter Silveira, diretor de programação da emissora. Segundo ele, o público infantil sempre foi a prioridade e lamenta que a TV comercial veja as crianças apenas como público consumidor. A Cultura conquistou uma marca de qualidade em programas educativos. Já produziu programas apresentados por jovens bonitas em meio a mímicas e contadores de histórias (Bambalalão), bonecos que viviam numa fazenda cenográfica (CoCoRiCó) e atores que apareciam como peixinhos (Glub Glub). Chegou até a realizar uma espécie de telenovela com astros como Antonio Fagundes e Gianfrancesco Guarnieri (Mundo da Lua). Esses programas buscam ensinar às crianças desde hábitos elementares, como escovar os dentes, lavar as mãos antes das refeições e tomar banho (Catavento), até mágica (X-Tudo) e história da arte (O Museu Divertido - uma produção francesa). Sua co-irmã TVE fez sucesso no início dos anos 80 com o seu Canta Conto, em que a apresentadora transformava histórias em música. Um dos maiores sucessos recentes da programação infantil é o Castelo Rá-Tim-Bum, premiado internacionalmente e transposto para as telas de cinema. "A adequação de conteúdos educacionais a entretenimento e aventura deu muito certo no Castelo", comemora Silveira.
Momento
antológico Tratava-se de uma versão brasileira da série educativa norte-americana Sesame Street, criada para tirar as crianças das ruas e proteger os guetos nova-iorquinos. Os 20 primeiros capítulos realizados no Brasil tiveram que seguir os moldes do original, mas depois foi nacionalizada completamente, ficando no ar praticamente oito anos, na TV Cultura e depois Globo. A preocupação didática era tão evidente que os atores conviviam em tempo integral com uma equipe de 16 técnicos em educação. A série brasileira era ambientada em uma vila operária, onde moravam personagens típicos como o Juca (Armando Bógus) e a professora Ana Maria (Sônia Braga). "Ela era o modelo de professora que eu gostaria de ter, pois estava sempre entre as crianças, brincando", lembra a orientadora educacional Maria Eugênia Ribeiro. O Brasil vivia os duros anos do regime militar, tanto que o bordão de um programa infantil da época era Alô, alô, criançada, aqui quem fala é o capitão Aza, comandante-em-chefe das forças armadas infantis deste Brasil. "Conseguimos ludibriar a censura e, apesar de o programa ser extremamente pobre, chegamos na realidade brasileira com muita tranqüilidade", comenta Laerte Morrone, o marcante boneco Garibaldo. O programa se dirigia principalmente às crianças carentes, ensinando hábitos de higiene e noções de matemática e língua portuguesa. Os atores eram obrigados, no entanto, a gravar diante de um censor imposto pelo governo. Morrone considera que nunca mais apareceu nada parecido com o Vila Sézamo. "Foi o que de mais importante realizei em quarenta anos de profissão", orgulha-se.
Súditos,
os baixinhos? Não é de hoje que garotas aparecem em programas infantis para apresentar desenhos e brincadeiras. Logo na primeira década da televisão brasileira, tia Gladys parecia ser um modelo adaptado da professora. Já nos anos 60, tia Fernanda inauguraria o estilo na TV Globo com Uni-Duni-Te. A ainda iniciante Elis Regina teria o seu Clube da Gurilândia, numa emissora do Rio Grande do Sul. Depois, foram inúmeras as que mereceram programas, caso da apresentadora do Zás-Trás, de Gigi e Silvana (no Bambalalão), Lucinha Lins (no ZYB Bom) e Paula Saldanha (no Globinho). Foi, no entanto, com a aparição da modelo Xuxa Meneguel, em 1984, no Clube da Criança, da TV Manchete, que se abriu espaço para que outras tantas aparecessem. Xuxa ficou conhecida como a "rainha dos baixinhos" e logo teve no mercado diversos produtos com seu nome, desde sandálias até discos, sempre com vendagens expressivas. Quando Xuxa transferiu-se para a TV Globo, onde apresentou o Xou da Xuxa e, já na década de 90, o Xuxa Park, assumiu seu lugar a também loirinha Angélica, com sucesso similar. As emissoras concorrentes trataram de repetir a fórmula com Mara Maravilha, Eliana, Andrea Veiga (ex-paquita da Xuxa), Mariane, Jackeline Petkovic e outras tantas que passaram praticamente despercebidas. Além de uma evidente falta de teor educativo em seus programas, elas passaram a ser consideradas por muitos críticos culpadas pela erotização das crianças, que copiavam suas roupas curtas e justas. "A erotização precoce das meninas está ligada a toda uma indústria de produtos que têm o nome da apresentadora da vez. Não é que as apresentadoras sejam maleficamente sensuais", contemporiza a psicóloga Ana Olmos.
Desenho
inanimado A Turma do Lambe-Lambe, durante os dez anos em que esteve no ar, primeiro pela TVE e depois pela Bandeirantes, ajudou crianças de todo o país a desenhar e se familiarizar com os traços dos grandes mestres. A apresentação era de Daniel Azulay, que avalia: "O grande diferencial do programa é que era educativo sem ser didático". Como uma espécie de irmão mais velho, Daniel não só ensinava as crianças a desenhar como também foi pioneiro em ensinar a fazer brinquedos com sucata e dobraduras. Também lançou seis discos de músicas infantis - um deles com Lucinha Lins e Sivuca, em 1982. Em 1996, após dez anos fora do ar, voltou com o programa Oficina de Desenho Daniel Azulay, que vai ao ar pela TV Bandeirantes. Ele insiste em combater o que chama de "erotismo banalizado em tudo o que é mostrado pela televisão". Atualmente, "alerta" as crianças quanto à prevenção de acidentes por meio do Jornalzinho da Oficina de Desenho, distribuído gratuitamente nas escolas. Também lançou um CD-Rom interativo com mais de 100 cantigas de roda. E garante: "Nunca deixei de ser como sou. Não iria me sentir a vontade num auditório com as Azuletes atrás".
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