Setor
de educação deve ganhar espaço na agenda de investimentos da comunidade financeira
Eles estão por perto
e, tenha certeza, isso significa que há muito, muito dinheiro envolvido
no negócio. De olho no mercado de educação, instituições
financeiras de grande porte começam a articular uma presença mais
efetiva no setor e, assim, ficar com uma fatia do faturamento bruto de R$ 90 bilhões
verificados na área. A primeira negociação foi anunciada
no final de novembro, durante o seminário Participação da
comunidade financeira no setor de educação, em que o Credit Suisse
First Boston (CSFB) Garantia, por meio de seu Fundo Pluris, divulgou que investirá
em uma parceria com a escola de idiomas Yázigi-Internexus.
"As empresas nas quais
o Fundo Pluris tiver participação servirão de referência
para futuros investidores", salienta Oliver Mizne, diretor do CSFB Garantia.
Após a confirmação da aplicação, o banco passará
a ser acionista minoritário da Yázigi-Internexus, que detém
160 mil alunos distribuídos em mais de 200 unidades em todo o País.
Caberá também ao CSFB Garantia oferecer a consultoria de seus analistas
de educação situados em Chicago, Nova York e Londres.
Mizne justifica a escolha
da Yázigi-Internexus por se tratar de "um grupo que tem 50 anos de
experiência e que, por estar muito bem posicionado, pode estar iniciando
um processo de consolidação do segmento". Os valores da transação
ainda foram revelados.
Na avaliação
do executivo, o ingresso de recursos provenientes de agentes financeiros na área
de educação representará o fortalecimento de alguns grupos
dentro do mercado e proporcionará, no futuro, retornos econômicos
acima dos verificados em média no setor. "Hoje, para crescer, um grupo
de educação procura duas vias: a do uso de recursos próprios
e a busca de financiamentos de instituições bancárias",
explica. Segundo Mizne, a primeira opção tem um prazo muito extenso
para ser colocada em prática, enquanto que a segunda, por causa dos juros
elevados, praticamente inviabiliza o crescimento dos grupos.
"É atual, necessário
e importante o ingresso de recursos dos agentes financeiros no setor", defende
o ministro da Educação, Paulo Renato Souza. "Precisamos estabelecer
uma grande cooperação entre os setores público e privado."
Segundo o ministro, a entrada
de profissionais que exijam profissionalismo e transparência administrativa
"elimina as arapucas que sempre nos queixamos do setor privado, como a de
venda de diplomas".
Ricardo Young Silva, presidente
da Yázigi-Internexus, visualiza os institutos de ensino de idiomas como
um dos principais segmentos a despertar a atenção dos investidores
do mercado financeiro. "As redes de idiomas vão deslanchar mais rápido
no Brasil por causa da estrutura administrativa criada para trabalhar no sistema
de franquias", afirma.
Para o executivo, a entrada
dos bancos no setor e o conseqüente fortalecimento dos maiores grupos atuantes
no País provocarão um movimento de aquisições e fusões
que reduzirá a presença total das atuais 40 grandes empresas de
ensino de idiomas para não mais do que dez.
Assim como as escolas de
idiomas, a rede privada de ensino também deve ser beneficiada com aportes
de verbas de investidores ao adotar sistemas administrativos similares aos das
franquias. "Hoje, o total de organizações que atuam como franquias
no País já chega a 120, enquanto que, em 1996, esse número
era de 60. O crescimento ocorreu muito por causa do ingresso de instituições
de ensino fundamental e médio no sistema, já que, no passado, as
franquias de educação eram concentradas nos segmentos de idiomas,
cursinhos e informática", ressalta Young Silva.
No entanto, a diretora-executiva
da Fundação Victor Civita, Guiomar Namo de Mello, acredita que as
oportunidades de atuação da comunidade financeira dentro do segmento
são relativamente pequenas: "O crescimento de alunos do ensino fundamental
e médio tem se concentrado basicamente nas mãos do ensino público
e, em alguns casos, a participação privada tem até diminuído".
Para ela, o Brasil precisa
de uma rede de provedores de recursos humanos e de materiais que poderia ser atendida
pelos investidores. "Temos dois milhões de professores dos quais 47,5%
não têm curso superior. Hoje, para cursar a universidade e se tornar
professor, paga-se cerca de R$ 400 por mês. No Paraná, existe uma
experiência para formar o profissional com um custo mensal de R$ 100. Portanto,
existe um espaço enorme para investimentos na formação desses
profissionais", defende.
O ensino superior com aulas
presenciais ou à distância também foi apresentado como um
setor passível de recepção de aportes de recursos pelos investidores.
Foi apresentado, por exemplo, o caso do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais
(Ibmec), que optou por atuar no ensino de para quem tem renda financeira de US$
20 mil/ano, promovendo os cursos universitários de alta qualidade e de
extensões aos já graduados, como os MBAs voltados para executivos.
"Vimos que no topo do segmento havia uma competição muito fraca",
critica Cláudio Haddad, diretor-presidente do Ibmec.
No ensino à distância,
Eduardo Wurzmann, diretor da Unext - universidade virtual com cursos de MBA na
área de finanças -, explica que a maior dificuldade do segmento
está relacionada à cultura do brasileiro, que "não tem
o hábito de ligar o computador e assistir às aulas". No entanto,
as vantagens de poder acessar o curso de qualquer lugar, além de ter um
custo atrativo se comparado ao que seria cobrado para ter aulas no exterior, têm
motivado várias pessoas a optar por essa modalidade de ensino, o que cria
a expectativa de um grande mercado potencial para o futuro.