Diretor-presidente
do Ethos, Oded Grajew é categórico: em educação, as
empresas têm de dar o exemplo
O empresariado está
se sensibilizando para seu papel de responsabilidade social. As empresas estão
atentas às necessidades de seus funcionários, procurando assumir
posturas de ética e transparência também com fornecedores.
Cada vez mais exigente, o consumidor quer saber se o produto que compra envolve
mão-de-obra escrava ou infantil. Funcionários são estimulados
por seus patrões a participar de trabalhos voluntários na comunidade.
À frente do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, Oded
Grajew acompanha de perto essas tendências do mercado: há dois anos
dirige a associação, que já conta com a participação
de 340 empresas, entre elas gigantes do porte de IBM, Pão de Açúcar,
Itaú e Mercedes-Benz. Somado, o faturamento das associadas é superior
a R$ 240 bilhões, algo em torno de 22% do Produto Interno Bruto nacional.
A boa nova é que a maioria das empresas prefere investir em ações
e projetos na área de educação. Ao contrário do que
acontece com o setor privado no final do ano, o Instituto está em plena
produtividade - distribuiu há pouco o manual O que as empresas podem fazer
pela criança e pelo adolescente e, no final de novembro, lançou
o Prêmio Ethos de Jornalismo. Para Grajew, no entanto, todas essas mudanças
não são novidade. Afinal, quem vem semeando noções
de empresariado socialmente responsável há mais de dez anos, fundou
a Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e sempre se preocupou
em estabelecer relacionamentos éticos só pode se orgulhar do cenário
atual. É com toda essa trajetória que Grajew não faz projeções
quando diz "é só o começo". Declarada por quem
já esteve do lado de lá do balcão - foi um dos criadores
da Grow, empresa de brinquedos -, essa frase é praticamente uma sentença.
Revista Educação
- Como foi sair do setor empresarial e atuar nos bastidores, num trabalho de educação
do empresariado?
Oded Grajew - Eu era empresário e pouco a pouco fui me envolvendo
mais com essas questões de engajamento empresarial na área social,
procurando descobrir o que eu podia fazer para melhorar a situação
do Brasil. Eu era presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes
de Brinquedos (Abrinq) e me reuni com alguns empresários que começavam
a discutir democracia e justiça social. Foi daí que nasceu o Pensamento
Nacional das Bases Empresariais (PNBE). Um ano depois, em 1990, criei a Fundação
Abrinq pelos Direitos da Criança, uma entidade não-governamental
que hoje já conta com mais de 2,5 mil empresas associadas.
Educação
- Qual a diferença entre o trabalho do Instituto Ethos e o da Fundação
Abrinq?
Grajew - O Instituto Ethos existe há pouco mais de dois anos e tem
como missão mobilizar, sensibilizar e ajudar as empresas a adotar uma gestão
socialmente responsável. Na Fundação Abrinq o trabalho é
muito focalizado na relação das empresas na promoção
dos direitos da criança. No Ethos há uma preocupação
em lidar com todas as esferas de relacionamento, ou seja, de ajudar a empresa
a trabalhar eticamente com funcionários, clientes, comunidade, fornecedores,
meio-ambiente, consumidores. É um outro patamar de engajamento.
Educação
- Existem estratégias específicas para educação?
Grajew - Não adianta uma empresa investir num projeto educacional
na comunidade se antes ela não se preocupar com a escolaridade e educação
de seus funcionários e filhos de funcionários. Aliás, se
todas as empresas fizessem isso, teríamos um grande avanço na educação.
Também não adianta uma empresa investir em projetos educacionais
se antes ela não se envolver em políticas públicas voltadas
a melhorar a educação na comunidade, não se preocupar em
só comprar de fornecedores que não usam a mão-de-obra infantil
- que é o contrário de educação, pois tira a criança
da escola. O investimento em educação começa nas estratégias
dentro da própria empresa. Ela precisa gerar exemplaridade por suas próprias
ações, numa visão de educação mais abrangente,
para a formação de valores. A empresa pode se transformar numa escola
de cidadania. Isso acontece quando ela adota posturas ambientalmente corretas,
não se envolve em esquemas de corrupção, quando ela não
engana - pelo contrário -, respeita seus consumidores e trata bem seus
funcionários. Uma empresa que age dessa forma gera, pela exemplaridade,
educação de valores. Ela dá exemplos e referências
de como as coisas podem ser feitas. E o efeito é inverso se ela não
se preocupar com a educação de seus funcionários, sonegar
impostos, jogar lixo no rio, enganar seus consumidores.
Educação
- Então, como fica a questão de institutos como o Souza Cruz, que
é associado e está investindo agora em projetos sociais?
Grajew - Essa é uma questão bem polêmica. Tudo depende
de como ele vende cigarros. Se o Instituto Souza Cruz fizer campanhas ou forçar
a venda de cigarros para jovens e adolescentes, se esconder os malefícios
do cigarro, é uma forma de divulgar seu produto. Mas se ele de fato adotar
estratégias que evitem que jovens comecem a fumar por indução,
ou se ele realmente desincentivar o consumo entre adolescentes, é outra
forma de trabalhar. Lidar com esse conflito é uma das coisas que estamos
tentando resolver. Estamos agendando um encontro com os associados do Ethos e
a Souza Cruz, cujo tema será o seguinte: "Pode uma empresa fabricante
de cigarros ser socialmente responsável?" Queremos compartilhar esse
dilema ético com os associados. Pode ser que a gente chegue à conclusão
de que isso não é possível, por mais que a empresa faça,
ou pode ser que cheguemos à conclusão de que cigarro não
pode ser produzido por uma empresa privada, tem de ser produzido pelo estado.
Ou ainda pode ser que a empresa consiga lidar bem com esse conflito que, aliás,
também é um problema das empresas que produzem bebidas alcoólicas.
Educação
- Quais outras estratégias o Instituto Ethos estimula?
Grajew - O Instituto faz pesquisas e organiza rankings com a colocação
de cada associado. Com isso, gera informações para que as empresas
possam melhorar, mas não fazemos o trabalho por elas, só mostramos
o caminho, sugerimos estratégias. O mais importante é que as empresas
adotem todas essas estratégias ao mesmo tempo. Não dá para
ela começar a alfabetizar seus funcionários e continuar a poluir
o rio. Nós passamos informações, trocamos idéias com
os associados, trazemos notícias sobre o que as outras empresas estão
fazendo na área social, no mundo todo. Também é importante
ficar atento às peças publicitárias das empresas - o consumidor
é o primeiro a perceber a propaganda enganosa. Uma empresa não pode
simplesmente fazer uma peça publicitária utilizando portadores de
deficiência física ou mental se isso for só para chamar atenção.
Fazer marketing social é diferente de ter responsabilidade social.
Educação
- Mas como separar essas duas intenções?
Grajew - Nós fizemos uma pesquisa com os consumidores para tentar
descobrir como eles consideram a questão da responsabilidade social e como
isso pesa em sua decisão de compra. O resultado mostrou que 31% levam isso
em consideração, propensos a valorizar ou rejeitar uma empresa de
acordo com suas práticas. O primeiro item da rejeição é
propaganda enganosa. Quando uma empresa começa a comunicar o que ela faz
na área social, é importante que ela tenha credibilidade, que isso
seja realmente acompanhado de uma prática semelhante em todas as áreas
de atuação. Se a empresa fizer propaganda de um projeto social e
estiver envolvida em corrupção, é pior para ela, é
o mesmo que dar um tiro no pé. Se a empresa não tiver uma atitude
exemplar, é melhor ficar quieta, porque ela vai chamar muita atenção
para suas práticas. Propaganda enganosa é suicídio.
Educação
- Que tipo de restrições o Instituto Ethos faz às empresas
que querem se associar?
Grajew - As empresas são previamente avaliadas antes de se associarem.
Mesmo assim, ser associada ao Instituto Ethos não é nenhuma credencial.
Não damos medalhas, nem diplomas. Por isso, uma empresa que não
esteja sintonizada com práticas socialmente responsáveis - ou que
ainda não esteja totalmente sintonizada, mas queira melhorar nesse aspecto
- nem se associa. Dois anos atrás, o termo responsabilidade social nem
existia, o que havia era filantropia e boa vontade. Não havia quase nada
ligado à gestão empresarial. Crescemos muito, superamos nossas expectativas.
Hoje, o logotipo do Ethos está sendo usado em peças publicitárias
como se fosse símbolo de status. Será preciso regulamentar isso,
procurando um maior comprometimento dessas empresas. O patrimônio do Ethos
interessa a todos os associados, todos querem que seja um trabalho sério.
Educação
- O que as pequenas e médias empresas podem fazer pela educação?
Grajew - Primeiro, devem primar pela exemplaridade, como já foi
dito. As empresas podem mobilizar recursos - e isso não quer dizer só
dinheiro. Recursos são equipamentos, materiais, serviços, conhecimentos,
funcionários. Mesmo as pequenas empresas podem colocar esses recursos a
serviço da comunidade. Posturas éticas servem para empresas de qualquer
tipo e tamanho. Uma padaria tem um monte de recursos: funcionários, espaço,
equipamentos. Um exemplo dessa flexibilidade é o caso de um açougue
em Brasília que começou a pedir livros usados para os clientes e
funcionários. Com as doações, o açougue montou uma
biblioteca, dentro de suas próprias instalações, que já
tem 3 mil títulos. Hoje, qualquer pessoa pode emprestar um livro, não
precisa ser cliente. O maior problema das empresas pequenas é que elas
não sabem como agir. Vamos encarar as pequenas e médias empresas
como um desafio para 2001, assim como teremos de cuidar da regionalização
do Ethos, distribuindo nacionalmente nossa atuação.
Educação
- O que o sr. acha da postura do governo na educação?
Grajew - O MEC faz o que ele pode dentro dos recursos que ele tem. Certamente
os recursos para a educação são muito poucos perto do que
o país precisa. Mas o que conta mesmo são os atos e não os
recursos. Boa parte do orçamento é consumida pelo pagamento dos
juros, ou seja, educação nunca é prioridade. Basta visitar
qualquer escola pública: sem orçamento e bons professores não
se consegue educação de qualidade. Todo vereador, deputado estadual,
deputado federal, senador, prefeito, presidente, ministro, secretário,
enfim, todo homem público deveria ter seus filhos e netos em escolas públicas.
Nada produziria mais resultados. Isso deveria ser cobrado pela sociedade civil.
Na esfera municipal, o Instituto Ethos ter dialogado com um governo corrupto foi
um enorme problema, que foi o caso da gestão Pitta. Com a próxima
gestão, certamente será mais fácil dialogar.
Revista Educação
- Como a escola particular pode ser uma empresa exemplar?
Grajew - A escola particular tem todos os recursos: salas de aulas, profissionais,
alunos, pais de alunos, materiais escolares, recursos financeiros. Ela pode colocar
suas salas à disposição para cursos abertos à comunidade,
pode estimular seus funcionários para que atuem voluntariamente na escola
pública, pode mobilizar os pais dos alunos a lidarem com as carências
da comunidade na qual a escola está situada.