Estudantes
falam sobre experiências comunitárias e destacam importância
do trabalho voluntário para suas vidas
Mesmo de maneiras
diferentes, dois grupos de jovens conseguem achar prazer e realização
no trabalho voluntário. Estudantes da Escola Suíço-Brasileira
de São Paulo e os participantes do Programa Aprendiz Comgás
reuniram-se em um sábado de outubro para descobrir as diferenças
e os pontos em comum em suas iniciativas sociais.
Criado há três
anos para responder às exigências curriculares para a certificação
internacional de Ensino Médio, o CAS (Criatividade, Ação
e Serviço Social) faz parte das atividades dos estudantes da Escola
Suiço-Brasileira que pretendem receber o diploma de Bacharelado
Internacional, aceito em várias universidades no exterior. Os jovens
precisam cumprir 80 horas de trabalho em entidades assistenciais, creches,
escolas públicas ou ONGs.
Já os participantes
do programa Aprendiz Comgás são, em sua maioria, provenientes
de escolas públicas de três bairros paulistanos (Brás,
Móoca e Pinheiros). Com colegas de turma, eles elaboram projetos
de intervenção em suas comunidades e, durante seis meses,
são apoiados pela iniciativa da Cidade Escola Aprendiz e da Comgás
a realizarem seus planos de intervenção na comunidade.
"Fazer um trabalho voluntário é melhorar a minha própria
vida. A escola ruim é minha e quando eu faço um projeto
estou pensando na minha realidade", afirmou, durante o debate, Júlia
Marina Mayer Casali, 18 anos, ex-participante do Aprendiz Comgás.
Estudante do Ensino Médio de uma escola estadual, desde do início
do ano Júlia trabalha na elaboração do documentário
Diga Não à Apatia, que será divulgado nas escolas
públicas e particulares da cidade. "Há uma imagem estereotipada
do trabalho social. Os adultos passam a idéia de uma atividade
muito careta e pouco divertida. Queria mostrar que isso pode ser diferente",
relatou. Com uma câmera na mão, a estudante registrou imagens
do trabalho realizado no Instituto da Criança (ala infantil do
Hospital das Clínicas) pelo Comitê Juvenil de Voluntariado
de São Paulo. Também colheu depoimentos de pessoas nas ruas
sobre o tema.
Para Júlia, a maior diferença entre ela e os estudantes
da escola privada é que, no caso dos alunos do Suíço,
o projeto social é intervir na realidade do outro. "Quem estuda
na escola privada tem uma vida carregada de conhecimento científico
e condição financeira. Fazer esse tipo de trabalho é
tomar contato com outro mundo. A iniciativa da escola deles é super
legal, porque os estudantes poderiam viver acomodados sem se preocupar
com a desigualdade social", acredita.
Natalia Moraes de 17 anos, da Escola Suíço-Brasileira, confirma
essa diferença. "Conheci gente de baixa renda, filhos de alcoólatra
e crianças abandonadas. Um dia acordei e pensei: ‘Putz! Eles têm
um monte de problemas que eu não tenho!’ Minhas reclamações
viraram coisas pequenas", relembrou. Com três colegas de classe,
a estudante fez um trabalho de valorização do folclore brasileiro
em uma escola de educação infantil, no município
de Cotia.
As diferenças destacadas pelo grupo de debatedores, entretanto,
ficaram restritas ao plano econômico. No que diz respeito à
realização individual, foi consenso que o trabalho social
promove uma reformulação das maneiras de pensar a sociedade,
o compromisso ético com os semelhantes e os caminhos para a construção
de um mundo mais justo.
"Quando um garoto saiu correndo para me abraçar, descobri o quanto
o carinho era importante." A afirmação é da estudante
Stephanie Peters Humpert, 16 anos, estudante da Escola Suíça,
que, apesar de já ter cumprido a carga horária exigida pelo
programa CAS, continua, com suas amigas, freqüentando um lar-abrigo
da região do Campo Belo, Zona Sul.
Seu projeto inicial era desenvolver atividades lúdicas com as crianças
da instituição. No entanto, o envolvimento foi tanto que,
com uma campanha de doação e auxílio de um arquiteto
voluntário, seu grupo conseguiu reformar um dos espaços
da casa, onde funciona, atualmente, uma brinquedoteca e restaurou livros
para o acervo da instituição.
Apesar da vida preenchida pelas atividades de estudo – escola em período
integral, aulas de línguas e proximidade das provas para ingresso
nas universidades – Stephanie afirma que não quer abandonar o trabalho
voluntário. "É um compromisso, quero fazer o que posso.
Não tenho a cara-de-pau de virar as costas para a realidade das
crianças que conheci."
Compromisso também é o termo utilizado pela estudante Patrícia
Aparecida da Silva, 16, do Aprendiz Comgás. Desde que criou o grupo
Teatro contra a violência, que retrata por meio de espetáculos
formas de agressão contra a mulher, a estudante viu sua vida dar
uma reviravolta. "Pensamos, hoje, em assuntos que, apesar de existirem,
dificilmente são abordados no cotidiano."
Seja de escola particular ou pública, os grupos juvenis acreditam
que a entidade pode desempenhar papel fundamental para a mobilização
dos estudantes. Segundo eles, até um determinado momento é
necessário apoio e suporte para as iniciativas. Empurrão
que pode ser dado pelas instituições de ensino.
Victor Parra, 18, da Escola Suíça, acredita que, no caso
das escolas particulares que exigem o trabalho voluntário como
disciplina, é necessário antes um trabalho de conscientização.
Em 2000, ele ensinou percussão a crianças de uma instituição
beneficente. Além de estudar música, precisou aprender a
preparar aulas e lidar com crianças – experiências que diz
serem inesquecíveis. Entretanto, o rapaz alerta que nem todos desfrutam
da mesma sensação, e bons trabalhos se perdem por falta
de continuidade. "Muitos estudantes não compreendem o espírito
do projeto e o começam pensando no diploma internacional; cumprem
suas horas e abandonam o trabalho", reclamou.
Todos os participantes acreditam que seus trabalhos auxiliam a inversão
do imaginário negativo que o jovem possui – o de ser apolítico,
vulnerável aos modismos e irresponsável. Para eles, no final,
o trabalho voluntário mostra que a juventude também é
capaz de planejar, agir, organizar e intervir de maneira positiva na sociedade.