Genocídio,
ensinam os dicionários, é um delito contra a humanidade.
Pois um deles está engendrado e nesse exato instante avança,
em uma velocidade até então desconhecida pelo homem. A revolução
tecnológica em curso, cujo impacto já é possível
mensurar, transformará de maneira profunda o que hoje conhecemos
como civilização. Em pouco tempo – cinco, no máximo
dez anos –, mais um imenso fosso estará definitivamente escavado,
separando, de um lado, uma elite de conectados e, do outro, uma legião
de analfabetos digitais.
Não causará
estranheza constatar que esse novo apartheid apenas reforçará
a canhestra vocação da sociedade moderna em concentrar riqueza,
conhecimento e poder nas mãos de poucos – como se fosse pérfido
o destino humano e nada pudesse ser feito para evitar mais uma derrota
do humanismo. Quem ficar de fora da nova ordem digital está condenado
a ficar à margem, não só do mercado de trabalho,
mas de um mundo novo, admirável, virtual, que talvez venha a se
consagrar como a maior obra do pensamento e da razão. Será
uma das mais perversas formas de exclusão que conhecemos – e que
são muitas.
Inclusão é
uma palavra de ordem cada vez mais ouvida nos corredores das escolas em
que a dignidade insiste em pulsar. Não chegou o dia em que todas
as crianças brasileiras têm a garantia de sentar em um banco
escolar. Nem veremos, nas próximas décadas, todos os adultos
alfabetizados. A esses desafios, agora vem somar-se mais um: impedir que
milhões de pessoas sejam expulsas deste século que se inicia.