Autoras
de livro sobre etiqueta infantil propõem aulas de boas maneiras
nas escolas
Tenha modos", frase
que todos nós ouvimos um dia em nossa vida e que parece que caiu
em desuso é o primeiro tema do livro Não fale de boca cheia
(Mundo Cristão, 47 págs., R$ 19,50), escrito a quatro mãos
por Suzana Doblinski e Albertina Costa Ruiz. Depois de algum tempo ensinando
dicas de etiqueta para executivos, Suzana resolveu aventurar-se pelo mundo
infantil. Não é professora do sistema escolar nem tem filhos.
Mas lembra da educação rígida e polida que recebeu
em sua infância. Descobriu a parceria ideal com Albertina, uma ex-voluntária
de associação de pais e mestres de uma escola pública
de periferia. Juntas, iniciaram cursos para crianças. O livro traz
conselhos práticos de como a criança e o pré-adolescente
devem comportar-se em diversas situações do dia-a-dia em
sua casa, escola, restaurante, em férias. Em uma época em
que a liberdade de expressão é confundida com vale-tudo,
os conselhos da dupla de autoras soam fora de moda. A boa educação
seria um caminho para a cidadania. Suzana ressalta que uma criança
que não aprendeu a ter bons modos irá ser um adulto inseguro,
por não saber se comportar em diferentes situações
sociais.
Revista Educação Etiqueta para crianças não
é frescura?
Suzana Doblinski Não, o assunto é sério.
Algumas escolas de São Paulo já adotaram no currículo.
Hoje existe uma perda desses valores, o que afeta o futuro da criança.
Os pais, em muitas famílias, estão ausentes da educação
dos filhos. A mãe e o pai trabalham fora e até o professor,
com seus problemas particulares, baixos salários, e todo estresse
das grandes cidades, também acaba tendo deficiências na parte
comportamental da educação. A criança que não
aprende regras básicas de boas maneiras poderá sofrer no
futuro. Será um adulto inseguro.
Educação Quando vocês perceberam que esse assunto
merecia um curso específico?
Albertina Ruiz Em minha experiência como mãe, principalmente.
Trabalhei durante 12 anos como voluntária na Associação
dos Pais e Mestres da Escola Municipal Jackson de Figueiredo no Tatuapé,
em São Paulo. Muitas crianças e jovens apresentavam comportamentos
anti-sociais porque não tiveram orientação, alguém
na família ou na escola em quem se espelhar. Conheci a Suzana e
desenvolvemos um curso de etiqueta para crianças. Suzana Nós trabalhamos com crianças carentes,
de maneira voluntária e com grupos de classe média e alta,
filhos de executivos com os quais tenho contato. O conteúdo tem
sido muito bem recebido pelas crianças e pelos pais. Depois, resolvemos
publicar o livro, que é baseado nessa experiência.
Educação Como a escola recebe a proposta de vocês?
Suzana Em geral, recebem com desconfiança. Acham que os
pais não irão gostar de saber que os filhos estão
tendo aula de etiqueta. "Podem ficar ofendidos", dizem. Em alguns casos,
noto que a escola não quer ter mais um custo. Mas esse tema pode
ser passado para os alunos de forma gradual, por professores de várias
disciplinas, não precisa ter uma aula específica. Albertina O Ministério da Educação
e as secretarias da educação deveriam criar a disciplina
de boas maneiras e etiqueta. No meu tempo, as meninas estudavam puericultura,
culinária e costura, assuntos que, de certa forma, induziam a cortesia
no comportamento. Nas creches, isso já acontece. As crianças
aprendem na prática a comportar-se à mesa, escovar os dentes
depois das refeições, arrumar suas coisas, formar fila,
obedecer horários. Se existisse como disciplina, deveria ter o
conteúdo dividido por faixa etária. A criança da
pré-escola não precisa, evidentemente, aprender a usar garfo
e faca à mesa. A de 10 anos, sim.
Educação Essa rigidez em excesso não leva ao
autoritarismo?
Suzana A liberdade e a falta de educação se confundem.
Educação Como os pais reagem após esse treinamento
com os filhos?
Suzana O resultado é fantástico. Tem pai que está
dando o curso de presente de aniversário para os filhos. Nos trabalhos
voluntários em entidades, as crianças adoram.
Educação Ter boas maneiras é uma questão
de classe social?
Albertina Não. As crianças são todas iguais.
Ela até pode ter mais objetos para manipular, ou viver em um ambiente
mais requintado e, mesmo assim, ser mal-educada. Já não
vimos isso em algum lugar? Evidentemente que não vamos ensinar
uma criança carente a comer com talheres para peixe. É um
exagero, ela não usa no seu dia-a-dia. Deve-se respeitar a cultura
de cada classe e região. Agora, noções de higiene,
respeito aos horários, são coisas que todos precisam aprender. Suzana O problema do Brasil é mais cultural. Não
ter escolas que ofereçam base suficiente em todos os aspectos da
vida. Os pais também perderam o controle da educação
dos filhos, trabalham fora, e as crianças sentem-se solitárias,
carentes. Aí, às vezes, procuram imitar o mau comportamento
de um colega ao lado, que também deve ser outra criança
solitária. E ambas, no futuro, irão ter problemas de relacionamento,
seja no trabalho ou no campo pessoal. Não importa a profissão
ou o status social.
Educação Que tipo de problema?
Suzana O principal é a insegurança. Não
saber se comportar em determinadas situações, sentir-se
isolada. Nos cursos de etiqueta que ministro para executivo noto aqueles
que têm esse tipo de problema. E depois do curso eles admitem o
enriquecimento pessoal: no trabalho ou em casa, têm mais flexibilidade
com os outros.
Educação É possível melhorar
o adulto que não teve conhecimento de etiqueta na infância? Suzana Sim, tive o caso de um profissional que iria assumir
um cargo de diretoria e no aspecto comportamental era zero. Não
tinha habilidades interpessoais. Mostrei a ele os benefícios que
iria ter com a melhoria do seu comportamento. Albertina Em um casamento é muito comum ouvirmos a
mulher reclamar do marido dizendo "sua mãe não te ensinou
isso", quando o homem bagunça a casa. Ela está certa. É
falta de bons modos na infância, mas é possível mudar. Suzana Aí entram outras questões, como por exemplo
a educação de valores é diferente em cada família,
e às vezes o conceito de certo e errado é relativo. Albertina Falo de coisas básicas em um relacionamento
a dois, como não mexer nas coisas dos outros, respeitar suas intimidades. Suzana Nisso você tem razão.
Educação Ou seja, etiqueta não é só
uma questão de aprender a usar o garfo e faca. Suzana Ensinamos, entre outras coisas a flexibilidade
cultural. Um de nossos clientes, uma companhia de aviação,
tinha problemas com suas comissárias de bordo. Elas não
sabiam se comportar com passageiros de outras culturas, com outros hábitos
alimentares e religiosos. Uma delas, por exemplo, ria quando um passageiro
muçulmano saía de sua poltrona, ajoelhava e rezava no corredor
em determinado horário. Etiqueta, portanto é saber comportar-se
em qualquer situação e não causar desconforto para
as outras pessoas, respeitar o próximo. Hoje, os profissionais
mais bem-sucedidos são aqueles que se relacionam melhor.
Educação Você falou da criança solitária.
A escola não cumpre esse papel de socialização?
Suzana Em parte. O principal é o papel desempenhado pelos
pais, principalmente pela mãe, que sempre está mais próxima
da educação dos filhos. Eu sou totalmente contra a mãe
que trabalha fora e delega a educação dos filhos para terceiros.
Acredito que mãe deveria estar presente em tempo integral até
os 12 anos, ou pelo menos até os 8 anos de seus filhos. Note que
as crianças criadas por babás, por exemplo, repetem muito
o padrão de comportamento e até a linguagem dessas pessoas
que, apesar de até oferecer carinho, podem ter um nível
educacional muito baixo.
Educação Isso é um pouco difícil
hoje, com a necessidade econômica do casal trabalhar e até
da realização profissional da mulher. Suzana É um desafio a profissão de ser mãe.
Acho mais difícil do que o trabalho de uma executiva. Não
é qualquer pessoa que tem a capacidade de ser mãe.
Educação E o pai?
Suzana O pai é um complemento importante, fundamental.
Apoiando sempre a esposa. Albertina O pai é fundamental porque não é
visto pela criança como uma figura que está sempre presente
exigindo coisas. A visão do filho é que a mãe comanda
a casa. Por isso as mensagens que a mãe passa são importantes.
O pai é encarado pelos pequenos como uma figura mais amena e a
mãe como alguém mais rígida, que está sempre
dando bronca. Suzana O exemplo dos pais é o mais importante.
Educação Voltando ao papel da escola, qual é,
então, o papel do professor?
Albertina Na escola, os professores acabam não se responsabilizando
pela educação de forma integral, principalmente nesse aspecto
do comportamento. Mas as coisas estão mudando, as escolas estão
preocupando-se com isso. Em Santa Catarina, por exemplo, algumas escolas
estabeleceram um código de comportamento com pontuação.
O aluno que infringir uma regra vai perdendo ponto na nota.
Educação O que caracteriza um mau comportamento
nesse caso?
Albertina Usar boné em sala de aula, sair da classe sem
avisar, não fazer a lição. Suzana Na Europa, na Suíça, por exemplo,
o comportamento normal lá é a nossa etiqueta aqui no Brasil. Albertina Os pais se perderam na questão do comportamento,
não sabem mais que padrão seguir. Principalmente o Brasil,
que recebeu influência de culturas diferentes, cada grupo de imigrante
tinha seus próprios padrões.
Educação Mas então a culpa é sempre dos
pais? Suzana As crianças dão continuidade na escola
do que aprenderam em casa. Albertina Por isso que em nossos cursos procuramos enfocar
a participação da criança na vida da casa, ressaltando
que todos são responsáveis pelas tarefas caseiras. É
bom ensinar a criança desde cedo a ajudar em pequenas tarefas domésticas,
a colaborar com os pais. E quando crescem precisam participar do orçamento
da casa, saber que as coisas não caem do céu. Suzana A mídia também contribui para reforçar
estereótipos e consumismo. Os pais devem controlar o acesso à
televisão. Albertina É importante que os pais levem seus filhos
para situações culturais, como exposições,
teatro, cinema, em que possam aprender as coisas boas da vida. Os filmes
da década dos 50 ajudam muito nessa questão de boas maneiras,
de cavalheirismo. Vídeos e livros também ajudam.
Educação Vocês acham que o comportamento
social e a aparência externa são mais importantes que o conhecimento
interior? Suzana Depende da cultura. No Brasil a aparência é
importante, como na maioria dos países latinos.