O correspondente do
jornal em Washington escrevia sobre as aflições econômico-financeiras
da Argentina. Atacou então em momento inspirado: "O Fundo
também não vê com muito ânimo o namoro de Cavallo
com a idéia de dolarizar a economia do país – idéia
que necessitaria uma autorização informal e muita boa vontade
dos EUA. Pelos encontros de Cavallo em Nova York, tudo indica que não
existe muita boa vontade com a Argentina nos setores público e
privado dos EUA."
Isso basta. Primeiro escreve: "Idéia que necessitaria uma
autorização". Seria bom lembrar que convém usar
o verbo "necessitar" com preposição, sua boa e
indiscutível regência. Quer dizer, "necessitar"
necessita da preposição "de" para ligar-se bem
ao seu complemento: necessitar de. A idéia "necessitaria de
uma autorização". O redator, portanto, papou a preposição
indevidamente.
Há exemplos de "necessitar" usado sem preposição,
mas no padrão culto que os jornais tentam seguir não fica
bem. Claro que "necessitar", "precisar" e outros verbos
transitivos indiretos, os que exigem preposição, são
usados sem ela quando seguidos de outros verbos no infinitivo: "O
governo precisou reajustar os preços da energia elétrica
porque a vida é assim." "O Salim e o Barbalho não
precisam comprovar a honestidade, que está na cara de ambos."
Não foi o caso do textículo. Ali, o verbo necessitar não
está no infinitivo.
Convicção – Esse é um dos problemas do textículo.
O outro, engraçado, é o que revela não haver "muita
boa vontade" do pessoal da bufunfa para com a combalida Argentina,
embora ela tenha seguido como ninguém a receita que prescreveram
em Washington. "Muita boa vontade"?
Como o repórter repetiu a expressão "muita boa vontade",
nota-se nele convicção. "Muita boa vontade."
Convém lembrar que "muito" pode ser adjetivo ou advérbio.
Depende da posição e da função. Se "muito"
vem junto de um substantivo a modificá-lo é adjetivo e assume
o gênero e o número do substantivo; varia em gênero
e número, portanto: "Aquele senador tem muita vontade de passar
a mão na grana alheia e muitos recursos para fazê-lo."
Todos sabemos que "vontade" e "recursos" são
substantivos, modificados, no caso, pelo adjetivo "muito", portanto
variável, no exemplo edificante.
Quando "muito" modifica um verbo, um adjetivo ou outro advérbio,
funciona como advérbio e, portanto, permanece invariável
e impassível como aquele ex-prefeito a dizer que não foi
ele que fez aquilo tudo que dizem que fez.
"É preciso muito boa vontade para gostar dos políticos."
"Gosto muito do Maluf; não é por dizerem que tem um
dinheirinho em Jersey que se deve falar mal dele."
"Falta muito pouco para ele ser engaiolado."
Nos três exemplos, o advérbio "muito", por isso
invariável, modifica um adjetivo (boa), uma forma verbal (gosto)
e um advérbio (pouco).
Foi disso que o redator se esqueceu quando escreveu sua obra argentina
na arborizada Washington. "Muita boa vontade" foi distração,
claro. Muita distração.
Josué Machado é jornalista e autor do livro
Manual da Falta de Estilo (Ed. Best Sellers)