Mario
Sergio Cortella Velocidade
das mudanças dificulta o registro de importantes passagens da história
atual
O ano está
terminando. Já? Mais um. Mudou a noção de tempo.
A novidade não é a mudança do mundo, mas a velocidade
das mudanças. Nunca se mudou tão velozmente. Vinte anos
atrás, choque de gerações era choque entre pais e
filhos. Calculava-se, inclusive, que geração era um tempo
de 25 anos. Aos 25 anos, supostamente, você teria outro descendente,
e aí viria outra geração. Hoje, choque de gerações
é imediato. Meu filho de 24 anos é considerado ultrapassado
pela minha filha de 22 anos. Por sua vez, o de 18 anos, o mais novo, considera
os dois mais velhos ultrapassados. Eles não cortam o cabelo do
mesmo jeito, não ouvem o mesmo tipo de música, e não
usam o mesmo tipo de roupa, com uma diferença de apenas dois anos.
Imagine eu perto deles.
Meus filhos referem-se
ao tempo em que eu tinha 20 anos – para mim, foi agora – sempre usando
a palavra "antigamente". Quando eu era criança e falava
antigamente, eu estava me referindo a gregos e romanos. Eles falam antigamente
referindo-se a 1974: "Pai, é verdade que antigamente não
tinha controle remoto?".
Eu falo que é verdade. A gente tinha de levantar, mudar o canal,
sentar, voltar outra vez. Se eu contar para eles que tinha seletor, que
fazia barulho clac, clac, clac.Você já viu um desses? Em
1980 – isso foi agora, vários já davam aulas, vários
já eram pais e mães – as TVs tinham válvula e se
você quisesse assistir a um programa, tinha de ligar a TV bem antes,
para ela ficar quentinha, que nem um forno a lenha.
As coisas têm mudado muito velozmente, a tal ponto que a memória
fica fugaz. O que marcou a vida de nossos avós ou pais? Que fatos
da história eles viveram? A 2ª Guerra Mundial; a chegada do homem
à lua, em 1969; a construção de Brasília,
nos anos 50; o assassinato do Kennedy em 1963; o suicídio do Getúlio
em 1954; as primeiras fábricas de automóveis; o golpe de
Estado em 1964; a renúncia de Jânio Quadros; e por aí
vai.
O que marca a sua
vida hoje? Você se lembra do assassinato do primeiro ministro de
Israel, Yitzhak Rabin, que aprofundou o conflito entre árabes e
palestinos? Infelizmente ele foi assassinado por um fanático judeu,
em uma praça pública, em nome de Deus. Que ano foi? 1995.
A maior parte das pessoas não se lembra. Você se lembra do
terremoto em Kobe, no Japão, que destruiu a cidade e nós
ficamos acompanhando o resgate, pela TV, durante uma semana? Que ano foi?
Você se lembra do escândalo dos anões do orçamento
no Congresso Nacional? Que ano foi? Bom, esse, por enquanto, é
todo ano, mas e aquele?
Em um domingo de março você estava assistindo TV e veio a
notícia de que os Mamonas Assassinas tinham morrido. Quando? Em
agosto, fez quatro anos que Lady Di morreu. Já? Neste ano, dois
senadores brasileiros renunciaram. E, pouco depois, um terceiro também
o fez. Que mês foi: março, abril, maio, junho? Já,
já, não se lembra mais.
Eu não estou falando de coisas do século XIX, estou falando
de coisas de cinco anos para cá, todas elas. A gente acaba perdendo
a memória e isso é muito ruim. O mundo vai além do
ano letivo.
Mario Sergio Cortella é Professor de pós-graduação
em Educação (Currículo) da PUC-SP.