Projeto
Casa da Criança reúne arquitetos, estudantes e empresários
na restauração e reforma de creches e abrigos em todo país
Um ambiente cinza,
frio e vazio. Isso é o oposto do que uma criança precisa
para entrar em sintonia com o mundo, principalmente quando sua realidade
é dura e seu futuro parece pouco promissor. Esse é o caso
das crianças que passam grande parte do tempo em creches e abrigos,
geralmente degradados não pela falta de cuidado dos responsáveis,
mas pela falta de recursos municipais.
"Uma melhor condição
de vida começa no espaço escolar, na creche ou no abrigo
onde mora", defende a arquiteta Patrícia Chalaça. Dessa
certeza, surgiu a idéia de transformar instituições
já existentes em lugares com mais estrutura, o que deu origem,
em 1999, ao projeto Casa da Criança, em Recife (PE), coordenado
por Patrícia e Marcelo de Souza Leão, também arquiteto.
"Apesar de não termos experiência em captação
de recursos, começamos a pedir doações de material
e mão-de-obra para podermos reformar as casas", conta Patrícia.
Desde que começou,
em Recife, o projeto já se multiplicou para outras cidades do país.
Brasília (DF), Natal (RN), Maceió (AL), Fortaleza (CE),
Goiânia (GO) e Jundiaí (SP) tiveram creches e abrigos transformados
por profissionais que abraçaram a causa do Casa da Criança.
Em São Paulo, quatro outras instituições já
estão sendo reformadas e ficarão prontas até o final
deste ano.
Além de arquitetos,
o projeto passou a envolver também decoradores e construtoras voluntárias.
Um estudo feito pelos profissionais levantou as necessidades das crianças,
contribuindo assim para que pudessem ser criados espaços funcionais
e essenciais para o desenvolvimento dos pequenos. Segundo Cláudia
Mendonça, coordenadora do projeto na região Sudeste, a preocupação
com a segurança das crianças norteou o planejamento desde
o começo. "Tivemos que reconsiderar o trabalho de um paisagista
que escolheu uma planta que atraía abelhas para perto do parquinho",
conta Cláudia. "Sabemos também que não devemos
usar móveis pontiagudos e vidros", completa.
O fato de receberem
apenas doações de material e de mão-de-obra tornou-se
uma das principais características do projeto: o de não
aceitar patrocínio em dinheiro. Segundo Patrícia, isso dá
mais credibilidade, já que as empresas que participam sabem onde
seus recursos serão aplicados. O projeto passou a ganhar dimensões
maiores a partir da criação de franquias, apoiadas pelo
Instituto Ayrton Senna. O Instituto não doa dinheiro, apenas apóia
a logística da coordenação nacional do projeto, colaborando,
por exemplo, com passagens aéreas para que os envolvidos possam
visitar as unidades em outras regiões do país.
Segundo Cláudia
Mendonça, para que sejam reformados, existem alguns critérios
básicos que as creches e abrigos devem preencher. É preferível
que o local atenda um número maior de crianças e que esteja
situado em prédio ou casa própria e não alugada (caso
contrário, perde-se todo o investimento). Mas, antes da casa ser
restaurada, é feita uma avaliação. Depois de reformado,
o mais importante é que a instituição tenha condições
de manter o lugar. "Não adianta ter um espaço maravilhoso
e não ter dinheiro para comprar comida para as crianças,
por exemplo", diz Cláudia. Geralmente, as reformas duram de
três a quatro meses. Enquanto isso, as crianças são
encaminhadas para instituições próximas, sob a responsabilidade
da creche que está sendo reformada.
Por essa razão,
a preocupação do Casa da Criança não se restringe
à reforma do espaço.. "A intenção é
fazer com que a creche seja verdadeiramente adequada para a educação
das crianças. Por isso, depois de concluída a reforma, entra
em ação a Cia dos Anjos, um grupo de voluntários
que atua buscando parcerias para melhorar o serviço da instituição",
explica Patrícia.
Todas as etapas do
Casa da Criança foram desenvolvidas com base no trabalho de profissionais
de diversas áreas. Entre outros fatores, a diversidade de atividades
ajudou o projeto a crescer e se expandir. "É muito mais fácil
para a gente fazer um projeto mais barato e investir melhor o dinheiro,
pois estamos no nosso campo de trabalho", afirma José Augusto
Gomes, diretor do Instituto Camargo Corrêa. A construtora é
a responsável pela reforma da Casa Abrigo Santana, na zona norte
da capital paulistana.
Assim como em outras
instituições, a reforma da Casa Abrigo Santana reuniu arquitetos
de peso e estudantes. A arquiteta Bia Barros, por exemplo, está
trabalhando na criação da sala com equipamento de home theatre,
que antes não existia no abrigo: "Há 22 anos trabalho
na montagem de ambientes assim, por isso me sinto feliz em ajudar com
aquilo que sei fazer". Marcos Moreira Campos de Paula, estudante
de Design de Interiores da Faculdade de Belas
Artes, conta que o
interessante do projeto é trabalhar com outro tipo de cliente.
"Estou acostumado a lidar com crianças de classe média
alta, que não são vítimas de violência, abuso
sexual e abandono. Nesse projeto, a realidade é outra e por isso
tive que pesquisar para saber o que elas esperavam do meu trabalho",
afirma ele, que é o responsável pela reforma do refeitório
do Abrigo.
Segundo aqueles que
já tiveram sua casa reformada pelo projeto Casa da Criança,
o respeito foi um dos principais ganhos. "Depois que a escola participou
do projeto, começaram a aparecer mais voluntários, a mídia
passou a nos dar mais atenção e o governo também",
afirma Patrícia Ramalho, diretora da Associação de
Amparo à Infância (Amai), uma das primeiras entidades a participar
do projeto, em Maceió (AL).