Pior
resultado do Enem denuncia má qualidade do ensino brasileiro e
reacende debate sobre utilidade dos sistemas de avaliação
A quinta edição
do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), realizada em agosto deste
ano, apresentou o pior resultado desde sua criação: a nota
média do teste de conhecimentos gerais foi de 34,13, em uma escala
de zero a 100. o desempenho dos estudantes de ensino médio avaliados
pelo exame – implantado em 1998 pelo MEC – já vinha produzindo
números insatisfatórios, balizando o volume de críticas
de educadores e especialistas na área. Os resultados apontam as
deficiências de uma educação ainda voltada para o
acúmulo de conhecimentos e para a "decoreba".
Dos 1,3 milhão
de alunos que fizeram a prova este ano, 74% ficaram na faixa de desempenho
insuficiente a regular na parte de conhecimentos gerais, com questões
de múltipla escolha relacionadas a textos, tabelas e gráficos.
Apenas 12% se saíram bem na prova de redação. A avaliação
conta pontos no processo seletivo de 384 faculdades.
O Enem, que tem um
orçamento de R$ 63,5 milhões – 39% do orçamento anual
do programa Bolsa-Escola (R$ 162,7 milhões) –, sempre esteve na
pauta das críticas do PT. Com a eleição de Luiz Inácio
Lula da Silva, o partido pode escolher entre acabar de vez com o Enem
ou rever a possibilidade de manter um mapeamento da educação
brasileira. A possibilidade de extinção dos sistemas de
avaliação, considerados a menina dos olhos do MEC, causa
arrepios no ministro Paulo Renato Souza. "Nosso país é
citado lá fora como exemplo de avanço na educação,
nas informações e nas avaliações. Seria um
crime desfazer esse sistema", declara (leia mais à pág.
35). Os membros da cúpula do PT ainda não se manifestaram
publicamente a respeito do tema, mas fazem críticas nos bastidores.
O deputado Padre Roque,
ligado ao setor de educação do PT, sempre atacou o caráter
"privatizante" da política do MEC, incluindo sistemas
de avaliação "caros e inócuos" como Enem
e Provão. Também ligado ao PT, o ex-secretário municipal
de educação de São Paulo, Mario Sergio Cortella,
argumenta: "O MEC vem se especializando em fazer avaliações
para identificar o que já se sabe. Temos o Enem para chegar à
conclusão de que há problemas no ensino médio e que
no ensino noturno há mais problemas. Faz 25 anos que se discute
tudo isso." Cortella lembra que o Brasil precisa de um sistema de
avaliação que seja ao mesmo tempo corretivo e processual.
"O Enem foi um grande ponto de partida, mas, como os outros sistemas
de avaliação criados nesses oito anos, se restringiu a ser
tautológico, ou seja, redundante. Avaliação tem de
ser biópsia, não necrópsia."
A principal mudança
na educação explicitada, até agora, pela equipe de
transição de Lula é ampliar a verba do Fundo de Desenvolvimento
do Ensino Fundamental (Fundef) – hoje destinado a fomentar a melhoria
do ensino fundamental – para incluir os ensinos infantil e médio.
A idéia é atacar justamente as deficiências apontadas
pelo Enem. O Fundef tem hoje previsão orçamentária
de R$ 650 milhões. Transformando-se no Fundo de Desenvolvimento
da Educação Básica (Fundeb), como deseja o PT, custaria
R$ 4,5 bilhões por ano, segundo o MEC. "Mudar o Fundef de
nome e usar o dinheiro para os ensinos infantil e médio seria uma
diminuição dos recursos da educação. Uma simples
mudança de nome, como muitos querem, é um crime", repete
Paulo Renato. "O Fundeb precisaria trazer recursos adicionais."
A mudança nos
objetivos do Enem, por pressões políticas, e o acúmulo
de trabalho do MEC com outras avaliações teria desgastado
um sistema considerado bom pelo professor Nilson Machado, titular da faculdade
de educação da Universidade de São Paulo (USP). "O
Enem é uma bela iniciativa de avaliação", elogia,
com duas ressalvas: "Primeiro, foi criado para se avaliar as competências
pessoais dos estudantes do nível médio e não para
ganhar pontos para entrar na faculdade. Essa opção do vestibular
foi um motivo político para justificar uma iniciativa que estava
fraca politicamente."
A segunda ressalva
de Machado diz respeito ao volume de trabalho do MEC. Para ele, existe
no Enem um "pensamento desejoso", uma expectativa de utilizar
os resultados para redefinir prioridades na política educacional,
o que, segundo Machado, não aconteceu novamente por decisão
política: "O pessoal do MEC ficou sobrecarregado com outras
formulações, desviando as atenções do Enem
para outros projetos, como o Exame Nacional de Certificação
de Competência para Jovens e Adultos." Machado aponta que esse
novo projeto, que avalia os supletivos e atinge 18 milhões de estudantes,
apresenta um retrocesso em comparação ao Enem. "A prova
contempla disciplinas objetivas, como português e matemática,
e não competências e habilidades", explica.
Machado fala com conhecimento
de causa, pois participou da equipe do Enem no ano passado. Ele defende
a abordagem do Enem como avançada para se medir o grau de competência
do estudante em aplicar os conhecimentos na prática. "Se os
professores da USP fossem submetidos ao vestibular, a maioria não
passava, o que não quer dizer que não são competentes
e sim que o conteúdo da prova é focado em conhecimentos
específicos e fragmentados. Medir capacidade de compreensão
é o mais importante."
Quando questionado
sobre o conteúdo do exame e o preparo dos alunos, Machado lamenta
a "decoreba" e lembra que, dos 150 mil candidatos aos vestibulares
da USP, apenas 7 mil preenchem as vagas disponíveis. "É
uma peneira. Desses 7 mil, apenas 4.500 são formados anualmente
na universidade. Para onde foram os outros 2.500? São pessoas que
estudaram um monte de matérias no ensino médio, mas não
sabiam o que desejavam na vida. Abandonaram a faculdade ou mudaram de
curso."
Criadora dos sistemas
de avaliação feitos pelo Instituto Nacional de Estudos e
Pesquisas Educacionais (Inep), órgão do MEC, Maria Helena
Guimarães de Castro, atual secretária executiva do ministério,
diz que o Enem tem ajudado a reformar o ensino médio para acabar
com essa "decoreba simplista". Segundo ela, o exame serve para
colocar o ensino médio "na direção da reforma
educacional e não na dos cursinhos". É o caminho das
tendências internacionais, de acordo com Maria Helena.
Maria Helena destaca
a importância da formação geral na educação
básica: "Ao contrário do vestibular, que exige a simples
memorização de conteúdos, o Enem estimula a escola
a desenvolver habilidades e competências com as quais os alunos
possam assimilar informações e utilizá-las em contextos
adequados. Queremos um ensino que promova o desenvolvimento de competências
e habilidades dos alunos, preparando-os para o mundo da vida, não
só para o mundo do trabalho."
O vilão das
notas baixas no Enem deste ano foi, mais uma vez, atribuído por
Paulo Renato Souza ao aumento de estudantes da rede pública – este
ano, eles corresponderam a 73% dos participantes da prova (em 2001, de
um universo de 1,2 milhão de estudantes que fizeram o Enem, 66%
vinham de escolas públicas). Essa posição, repetida
pelo ministro sempre que surgem problemas no ensino médio, é
motivo de crítica de diversos educadores. Nilson Machado, por exemplo,
diz que culpar o ensino público "é uma desculpa inconsistente".
Ele concorda, no entanto, que o problema maior não foi este e sim
o grau de dificuldade das questões: "O exame, este ano, foi
mais difícil."
José Rubens
Jardilino, diretor do departamento de educação da Uninove,
concorda que todo processo de avaliação que se implementou,
de 1996 até hoje, foi para melhorar a qualidade da educação.
E justifica os erros de percurso: "É natural que na execução
esses processos não saiam como planejados." Com a universalização
do ensino fundamental, mais estudantes chegam ao ensino médio e
com menos qualidade, explica Jardilino, defendendo em certo ponto a posição
do ministro. "A universalização passa a ser um ponto
negativo pela péssima qualidade do ensino público. Estamos
numa fase de transição. As reformas no ensino nos últimos
anos, com a LDB, não irão proporcionar resultados em curto
prazo. Por outro lado, vários estudantes da rede pública
têm bom desempenho no Enem. O problema é comparar um aluno
das fronteiras do país com outro de boas escolas das metrópoles
– públicas ou particulares."
Jardilino é
a favor da continuidade do Enem por mostrar "a cara do ensino médio".
Mas afirma que o sistema tem de ser repensado como forma de acesso à
universidade. "Nosso processo de educação ainda é
seletivo, burguês e atende uma classe específica, apesar
do esforço do governo em universalizar os acessos."