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Primeira
Impressão Sérgio Seabra Jornais promovem programas de incentivo à leitura e ajudam a formar cidadãos mais críticos Ler jornal é atividade que deveria preceder-se de curso específico." A afirmação é do jornalista Janio de Freitas – insuspeito sobre qualquer ponto de vista – e foi feita em sua coluna na Folha de S.Paulo, quando comentou o excessivo uso do condicional "pode" pelos colegas de profissão. Mas não é só por isso que tais cursos se justificariam. De acordo com a Associação Nacional dos Jornais (ANJ), circulam no Brasil 1.980 jornais, dos quais 491 são diários. Os programas que trabalham com o uso educativo de jornais, registrados na mesma ANJ, somam 37 – apenas 7,5% entre os diários –, com destaque para o interior do Estado de São Paulo, com 11 programas em atividade. Esses programas de
incentivo à leitura são muitas vezes vinculados aos departamentos
de marketing dos veículos, que, em alguns casos, oferecem assinaturas
durante as atividades ou enviam às escolas exemplares encalhados.
Os resultados obtidos nessas iniciativas atendem às expectativas
e, a depender dos responsáveis pedagógicos, a extrapolam:
além de assinantes comerciais, os jornais ganham leitores críticos. Carmen Lozza, coordenadora
pedagógica do Quem Lê Jornal Sabe Mais – o mais antigo programa
em operação no Brasil, criado em 1982 –, mantido pelo O
Globo, destaca em suas oficinas os efeitos colaterais próprios
do jornalismo, como a contaminação ideológica, a
estrutura fragmentada dos veículos, as generalizações
e a naturalização de fatos que são construídos
historicamente, entre outros. Para Nyeta Magalhães,
uma das coordenadoras pedagógicas do programa O Dia na Sala de
Aula, do também carioca O Dia, os bons programas operam "para
que o leitor saiba ‘ler’ as diferentes linguagens do jornal e ler por
trás das entrelinhas e, sobretudo, para que este leitor aprenda
a participar de todos os espaços a ele destinados nos jornais,
para que ocupe este espaço, perceba que pode formar opinião
e ganhar uma função social". Fernando Bandini, realizador do JJ na Educação e editor do suplemento infantil do Jornal de Jundiaí, do interior de São Paulo, defende o início dos trabalhos desde a tenra idade. Uma atividade freqüente em suas oficinas com professores – cerca de mil em mais de 180 escolas, só em 2002 – pode ser aplicada para turmas de distintas idades, variando apenas o grau de exigência das participações. Propõe-se a observação atenta de uma foto oferecida fora do contexto do jornal, sem a matéria a qual serviu de apoio. O professor pede uma descrição detalhada e as posteriores interpretações subjetivas da imagem. "É um processo de levantamento e análise de dados, seguido da criação de hipóteses e de argumentos e contra-argumentos que sustentem ou refutem essas hipóteses", explica Bandini. Nyeta segue a mesma linha: "O ato de criticar exige, antes, o desenvolvimento de habilidades importantes de interpretação, associação, argumentação, poder de síntese, indução, dedução, análise e classifi! cação." Na mesma atividade,
Bandini propõe que sejam escritas legendas, títulos e chamadas
para a matéria que teria acompanhado a foto selecionada. Com as
crianças, a atividade pode se sair como um jogo de adivinhação,
mas ela quebra expectativas e discute preconceitos – além de servir
como exercício de concisão e clareza. Cita o exemplo da
foto de um senhor dono de sítio, plantador de uvas, tema de reportagem
por conta de seu grande ganho com a produção do ano. "As
pessoas vêem um velho na foto e já pensam que se trata da
crise da aposentadoria no Brasil", graceja ele. Superar visões
unilaterais, buscar um conhecimento mais próximo do real e incentivar
o trabalho coletivo são também as metas do Quem Lê
Jornal Sabe Mais. Carmen aposta na formação continuada dos
professores e no uso sistemático de vários veículos
para que se desperte nos alunos o gosto pelo exercício intelectual
e pela leitura atenta. A coordenadora coleciona bons números –
6 mil professores capacitados – e boas experiências, publicando-as
no anuário Mais Ainda. Nele, a professora Márcia Leandro,
do Centro Integrado de Educação Pública Theóphilo
de Souza Pinto, no Rio, conta como os professores das disciplinas de matemática
e português trabalharam conjuntamente com encartes e classificados
para discutir valores e comportamentos ligados ao exacerbado incentivo
ao consumo. Não por acaso, os professores que tomam contato com
os programas julgam a imprensa como a grande facilitadora da interdisciplinaridade. Por conta da experiência
acumulada, Carmen – que tem sua consultoria Leitores e Leituras contratada
pelo O Globo – oferece oficinas extremamente sistematizadas, com largas
apostilas e rico questionamento. Em uma das atividades, abre espaço
para que os professores, individualmente e em grupo, rememorem com que
idéias concordaram ou discordaram na última semana, o que
compraram ou desejaram comprar, o que foi tema de conversas com os familiares.
Num segundo momento, propõe: de onde cada um recebeu informações
para pensar o que pensou; comprar o que comprou ou quis comprar; concordar
com o que concordou? Não por acaso, findo o diálogo, discutem
sobre a autonomia que possuem em cada uma de suas ações
do dia-a-dia. Os professores são
questionados e incitados a questionar os alunos continuamente. Nyeta conta
que evita "bater de frente" com o professor. "Mostramos,
por meio de atividades desenvolvidas em nossos encontros, sempre dialógicas,
que é possível uma prática diferente. Evitamos dizer
que o que ele faz não é certo, pois corremos o risco de
‘perdê-lo’". O Dia da Sala de Aula tem sete anos e somente
em 2002 abarcou 120 escolas e 2,8 mil professores. Em números superestimados,
a ANJ contabiliza o envolvimento de 8,5 mil escolas em programas do gênero
em todo o país. Para colocá-los em contato, Aparecida Borelli,
da ANJ, articula, desde 1998, encontros semestrais para a troca de experiências. |
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