Coordenadora
do Cenpec explica porque a entidade investe, exclusivamente, na formação
de professores da rede pública
O Centro de Estudos
e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária
(Cenpec) é uma das muitas ONGs surgidas no contexto de carência
social e abertura política, após o fim da ditadura militar,
nos anos 80. Há 15 anos, o Cenpec vem se consolidando na área
educacional, num exemplo de longevidade invejado por muitas ONGs do setor.
Fortes parcerias com o capital privado e um diálogo direto com
teóricos humanistas atuais são a marca da entidade, que
atua exclusivamente na formação de professores da rede pública,
em todo o Brasil. Coordenadora-geral do Cenpec há três anos,
Maria do Carmo Brant de Carvalho faz questão de ressaltar o número
de educadores formados só em 2001: 40 mil docentes participaram
diretamente de palestras, cursos, seminários e oficinas de trabalho.
O prêmio Escrevendo o Futuro, desenvolvido em conjunto com a Fundação
Itaú Social, é um entre vários exemplos de projetos
bem-sucedidos. Criado para estimular as habilidades de leitura e escrita,
o prêmio en! volveu, este ano, 8 mil professores, vindos de 4.567
escolas brasileiras. Maria do Carmo não hesita em reiterar sua
fé no ensino público: "Não admitimos retirar
do governo o protagonismo na elaboração de metodologias."
Educação Como e quando o Cenpec foi criado?
Maria do Carmo Brant de Carvalho Maria Alice Setúbal foi
uma das criadoras da ONG, que surgiu em 1987. Os pedagogos e especialistas
que compunham a equipe tinham o objetivo de desenvolver ações
que reforçassem o ensino público, baseadas em formação,
treinamento e avaliação. O Cenpec lutou muito pela universalização
do acesso ao ensino, se envolveu no desenho da LDB [Lei de Diretrizes
e Bases da Educação], nas conquistas educacionais. O país
avançou na universalização, com 97% de alunos no
ensino fundamental. Mas só botar a criança na escola não
resolve. Agora, vivemos um novo ciclo, de se pensar em qualidade. Só
não podemos esquecer que a rede de ensino básico no Brasil
é imensa. São 2,5 milhões de professores, em 280
mil escolas, e isso sem contar assistentes e coordenadores. Ensino infantil,
fundamental, médio e superior somam 55 milhões de estudantes,
mais de um terço da população do Brasil. É
praticamente toda a população da França. Portugal
tem 10 milhões de habitante! s, o Uruguai, 3 milhões. Faço
questão de lembrar esses números para termos uma noção
da complexidade que é investir na qualidade da educação.
Às vezes, olhamos só para o umbigo da gente.
Educação Quais são os projetos mais recentes?
Maria do Carmo Temos dois novos projetos. Um, o Educação
e Cidadania, foi desenvolvido para a Fundação do Bem-Estar
do Menor (Febem-SP), com conteúdos para serem trabalhados em um
dia. Levamos isso em conta porque é muito variado o tempo que os
adolescentes privados de liberdade permanecem na Febem: podem ser 40 dias
ou apenas um. Em Itanhaém (SP), o Cenpec desenvolveu o projeto
Estudar pra Valer!, em cinco escolas públicas. A intenção
era motivar e formar professores para lidar com aqueles alunos fracos
que não conseguiam evoluir dentro da progressão continuada.
Educação Por que Itanhaém?
Maria do Carmo Porque já tínhamos uma ação
anterior, ampla, em termos de gestão, o Construindo o Sucesso Escolar,
um primeiro diagnóstico do aprendizado de primeira a quarta séries.
Descobrimos que 39,5% dos alunos, nas cinco escolas selecionadas, eram
analfabetos. A progressão continuada não pode ser aprovação
automática, a lei não diz isso. Começamos esse trabalho
com seis encontros de 24 horas ao longo do ano e visitas de oito horas
em salas de aula, para ver o quanto o professor se apropriou do conhecimento
e soube transmitir o que aprendeu. Nossos alunos precisam aprender a ler
e escrever com significado, devem apropriar-se da leitura e da escrita.
Após seis meses de implantação do Estudar pra Valer!,
baixamos esse índice para 19,3%. As ações reduziram
muito o insucesso escolar e refletiram diretamente na performance do aluno.
Educação O que é o Escrevendo o Futuro?
Maria do Carmo É um prêmio lançado, em abril
deste ano, pela Fundação Itaú Social, com apoio do
MEC, do Canal Futura e da Undime [União Nacional dos Dirigentes
Municipais de Educação]. O Cenpec coordenou a iniciativa,
que estimulou habilidades de leitura e escrita em alunos do ensino fundamental.
Eles puderam trabalhar com vários estilos de texto, redações,
poesias e reportagens. O tema O lugar onde vivo foi escolhido justamente
por proporcionar um sentido de pertencimento, para as crianças
se sentirem sujeitos do local onde moram. Enviamos um manual, o Kit Itaú
de Criação de Textos, orientando os professores sobre como
fazer leitura e escrita com os alunos, mostrando como escrever e ler com
significado. Nesta primeira edição do prêmio, participaram
8 mil professores, de 4.567 escolas públicas.
Educação De onde vem o dinheiro para desenvolver os projetos?
Maria do Carmo Aproximadamente 65% da receita do Cenpec vem de
parcerias, como as que temos com a Schering do Brasil, o Instituto Camargo
Corrêa, o Unicef, o Itaú. O restante da renda é muito
pulverizado, vem de parceiros pequenos, como hotéis e restaurantes,
por exemplo, que contribuem em eventos mais pontuais. Educação Que tipo de profissional compõe
a equipe do Cenpec?
Maria do Carmo Temos pedagogos, assistentes sociais, psicólogos,
35 pesquisadores associados fixos e 50 colaboradores. Todos são
ótimos profissionais, já foram professores e têm larga
experiência na rede pública. Educação Vocês realizam parcerias com
escolas particulares?
Maria do Carmo Não, não é nosso foco. Poderíamos
estar vendendo os projetos que desenvolvemos, mas não queremos
mudar nossa missão. Levamos em consideração o perfil
do aluno da escola pública. É possível reduzir a
desigualdade e a pobreza se dermos possibilidade de as pessoas lidarem
com o código fundamental que é a educação.
Educação Quantos educadores já foram formados?
Maria do Carmo Não temos esses dados desde 1987, mas,
se fizermos uma projeção, chegamos perto de uns 500 mil
agentes educacionais, formados diretamente. São professores, educadores,
técnicos, secretários municipais, representantes de ONGs.
Essas pessoas, depois, realizam um trabalho capilar, de ajudar na formação
de outros agentes educacionais. Por exemplo: procuramos municípios
pequenos, com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), para
formar gestores municipais. Depois de ter a primeira turma formada, esses
locais podem se tornar núcleos irradiadores, como aconteceu em
João Pessoa (PB), que serve de referência para outros municípios. Educação O Cenpec faz parceria com outras ONGs
do setor?
Maria do Carmo Há ONGs fazendo o trabalho que seria das
escolas, como oferecer esportes, artes, reforço escolar. Pela LDB,
deveríamos ter educação em tempo integral. Mas será
calamitoso se isso acontecer só pela via da escola. O país
não tem dinheiro para dobrar o período de permanência
dos alunos na rede pública. Então, aproveitamos os programas
complementares oferecidos pelas ONGs. Isso já acontece com o estudante
da classe média: ele vai para a escola, num período, e no
outro faz futebol, natação, informática. Vamos proporcionar
o mesmo aos alunos da rede pública, usando a estrutura das ONGs.
Educação Não há o perigo de o governo deixar
esse papel nas mãos da sociedade?
Maria do Carmo Não haverá porque estamos vivendo
um clima diferente nos países em desenvolvimento. O neoliberalismo
foi uma receita que ficou limitada ao contexto econômico, aquela
coisa do Consenso de Washington, FMI. Temos uma população
sedenta por cidadania. O governo tem de ser forte no social. Antes, o
que fazia diferença para um país era o clima, a terra, a
água. Hoje, é o conhecimento. Não acho que o governo
vá voltar atrás. Vamos expandir, mas sob norma e diretriz
do governo, não à revelia ou paralelamente. O Estado tem
de pôr dinheiro.
Educação Como o Estado poderia ajudar a sistematizar as
metodologias desenvolvidas pelo Cenpec?
Maria do Carmo Veja bem, não é o terceiro setor
que produz metodologias sozinho. Nós somos co-responsáveis,
compartilhamos e pressionamos o governo. Dizer que os projetos de educação
estão na mão da iniciativa privada e do terceiro setor é
mentira. O Instituto Ayrton Senna, por exemplo, faz o Acelera Brasil com
dinheiro do MEC. Educação O Cenpec possui projetos para alunos
portadores de necessidades especiais?
Maria do Carmo Não temos nenhum projeto para minorias.
Somos compromissados com a maioria. O menino de rua, a criança
negra e o portador de deficiência estão incluídos
na maioria, que está sem escolaridade. Nosso recorte é educação
para todos.
Educação O que a senhora acha da progressão continuada?
Maria do Carmo A progressão continuada ganhou uma visibilidade
enorme por conta das eleições, o que é ótimo.
É uma dívida com a população escolar brasileira.
Todos têm direito de passar de ano. Se seguro 30, 40 alunos, reproduzo
a discriminação e a desigualdade. À medida que as
crianças vão tendo consciência da reprovação,
abandonam a escola. Posso ser bom em matemática e péssimo
em português. Então, não vou privar o aluno, vou trabalhar
com ele em ciclos. O problema é que falta infra-estrutura e capacitação
dos professores. Mães analfabetas têm mais dificuldade de
acompanhar os filhos na escola. As crianças que habitam locais
onde a comunidade é iletrada tendem a desvalorizar a escola. Isso
sem falar nos problemas da própria escola: salário, instalações,
falta de material. A cultura da oralidade é tão forte que
há comunidades que dispensam o letramento. Quando os pais não
valorizam a escola, não há melhora. Se meu filho não
está indo bem, tenho de pressionar para abrir ho! rários
extras. É preciso permitir que a criança fique mais tempo
na escola, para criar condições para que ela acompanhe o
ensino.
Educação A má-formação docente é
sempre a primeira deficiência apontada no ensino. O professor não
está sendo responsabilizado demais?
Maria do Carmo Na minha época, havia grandes utopias coletivas
de formação do país, professor era elite e só
trabalhava com elite. O professor de hoje é massa, não é
elite. A maioria é analfabeta. Eles reclamam dos salários,
mas vá ver quantos pedem demissão. Principalmente nas pequenas
comunidades, ser professor é ser autoridade e exemplo de sucesso.
Mas eles não vão ao cinema, não freqüentam teatros,
não têm computador em casa, não lêem jornal.
Muitos professores não têm noção de sucesso
e não têm projetos coletivos de futuro, pensam apenas em
seus projetos individuais: profissão, filhos, comprar uma casa.
Não se pensa no grande projeto nacional que é a educação.
Hoje, a tendência do professor é virar tarefeiro. É
uma pena, porque o exercício dessa atividade está revestido
de humanidade. Não basta ensinar metodologia. É preciso
energizar a ação do professor com valores, com intercâmbio
cultural, com atividades lúdicas. Educação é
uma missão coletiva.