O ex-ministro das
Comunicações, Luís Carlos Mendonça de Barros,
disse que trabalhou durante 30 anos e que teve uma carreira "exitosa".
O doutor Malan, que já vai tarde, usa tal palavra às vezes
para dizer como a coisa vai bem. O termo "exitoso" foi introduzido
no vocabulário brasiliano na década de 70 com o sentido
de auspicioso, favorável, feliz, próspero, venturoso, animador.
Não figura no Vocabulário Ortográfico da Língua
Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, que tem força de
lei, nem no Aurélio, por enquanto, de modo que convém evitar
seu uso. Pelo menos em provas e documentos oficiais. Mas já integra
o Dicionário Houaiss. Vem de êxito (do latim exitu), que
significa saída, fim, acabamento.
Uma coisa tem êxito
quando acaba bem, quando o resultado dela é bom. A privatização
de estatais brasileiras, por exemplo, que o ex-ministro ajudou a concretizar
com tanto brilho, foi "exitosa", como diria ele naqueles telefonemas
grampeados, que revelavam e intenção de acertar antecipadamente
quem ficaria com o quê. O que aconteceu com os que maquinavam tal
peraltice no governo Fernandenrique? Ora, ora. Mas valeu a pena. Vendeu-se
quase tudo, pagou-se grande parte das dívidas, o país cresceu,
o preço dos serviços administrados pelo governo caiu, criaram-se
muitos empregos e todos ficamos mais ricos e felizes para sempre.
Melhor dizer, no entanto,
que a carreira do Mendonção tem sido afortunada, ditosa,
bem-ditosa, bem-aventurada, fortunosa, próspera, venturosa, auspiciosa,
favorável, animadora. Feliz, enfim.
Micro ou micros?
Todos os dias lemos nos jornais coisas como "as micro e pequenas
empresas" foram beneficiadas ou prejudicadas, dão mais empregos
etc. O que importa é o uso da palavra "micro". Micro,
sabemos todos, é prefixo e significa pequeno, curto. É muito
usado como redução de microcomputador e microempresa. Ninguém
jamais estranha quando se fala que vamos mandar consertar os micros, referindo-se
às maquinetas com que escrevemos. Muita gente, no entanto, estranha
quando falamos ou escrevemos "micros", no plural, referindo-nos
às empresas. Mesmo junto do pluralíssimo "pequenas".
Sem razão.
Os prefixos ou elementos de compostos – micro, mega, míni, extra,
ultra, vice, pró, contra, múlti, hórti –, quando
solitários a funcionar como formas abreviadas, devem variar em
gênero, sem dúvida. Avaliamos os prós e contras de
votar no Lula; os vices brasileiros são tão úteis
quanto as baratas; os ultras ganharam as eleições na Itália;
as mínis bem recheadas são atraentes; as múltis governam
o Brasil; os hórtis são bons quando frescos; as micros e
pequenas empresas penam, enquanto as grandes dão um jeito; investidores
megas como o Soros são piedosos como Átila, o rei dos hunos.
É por isso
que não se conhece alguém que faça "horas extra".
Pelo menos na linguagem formal.
Claro que, invertendo-se
a ordem, o prefixo liga-se à palavra com que se compõe e
não varia: "As pequenas e microempresas vão para o
beleléu."
Pode ser, no entanto,
que pelo uso continuado a expressão "micro e pequenas empresas"
acabe a se impor. Mas é uma tolice lingüística porque
"micro" aí funciona como adjetivo, que há de concordar
em número com empresas, assim como "pequeno" concorda.
"Micro" só não varia em gênero, como nenhum
prefixo. Ambas as palavrotas – pequeno e micro – modificam o substantivo
"empresa".