Grande e generoso
projeto para o futuro próximo: cada pessoa poder ter, ao menos,
três pratos de comida por dia em nosso país. É um
sonho para fazer virar realidade, colocando a educação como
ferramenta de defesa imperativa da idéia e promotora convicta da
prática. Para alguns, parece pouco, para muitos será vital,
para todos será honroso.
Sempre que posso,
reconto uma história real, registrada também na conclusão
de meu livro A Escola e o Conhecimento (Cortez, 2002, 166 págs.),
e que, agora, mais do que nunca, reproduzo parcialmente para vislumbrar
um final diferente. Em meados dos anos 70, dois caciques da nação
xavante vieram visitar São Paulo e foram levados para passear.
Andaram no metrô, caminharam pela avenida Paulista, visitaram um
shopping. Por fim, foram conhecer um dos prédios históricos
paulistanos da região central que abriga um imenso mercado municipal
(entreposto de frutas, legumes e cereais) com a finalidade de serem surpreendidos
com um cenário paradisíaco: alimentos acumulados em grande
quantidade. Naquela época, os xavantes quase não usavam
dinheiro como mediação para qualidade de vida. O alimento
farto representava, para eles, uma riqueza incomensurável. Entraram,
deram dois passos no interior do prédio e, subitamente, estancaram,
boquiabertos com o cenário: pilhas e pilhas de alfaces, ceno! uras,
tomates, laranjas.
Começaram a
andar por entre as caixas de alimentos e, de repente, um deles viu algo
que não veríamos, pois não chamaria nossa atenção.
Ele apontou e disse: "O que ele está fazendo?". "Ele"
era um menino de uns 10 anos de idade, que catava no chão verduras
e frutas amassadas, estragadas e sujas, e as colocava em um saquinho plástico.
A resposta foi a "óbvia": "Ele está pegando
comida."
O cacique continuou
passeando, calado, provavelmente tentando compreender a resposta dada.
Depois de uns 10 minutos, voltou à carga:
Não entendi.
Por que o menino está pegando aquela comida podre se tem tanta
coisa boa nas pilhas e caixas?
– Porque para pegar nas pilhas precisa ter dinheiro.
Insiste o xavante, já irritado, pois está escavando onde
a injustiça sangra:
– E por que ele não tem dinheiro?
Réplica enfadonha do civilizado:
– Porque ele é criança.
– E o pai dele tem?
– Não, não tem.
– Então, não entendi de novo. Por que você, que
é grande, tem dinheiro e o pai do menino, que também é,
não tem?
– Porque aqui é assim.
Os índios pediram
para ir embora, pensativos. Não conseguiram compreender essa situação
tão "normal". Para que pudessem aceitar mais tranqüilamente
o "porque aqui é assim" teriam de ter sido "civilizados"
de um modo especial.
Por isso, só
quem já teve a vida danificada pela fome entende bem o lugar dessa
fantástica e justa urgência: segurança alimentar.
É passo essencial para estilhaçar um modelo homicida e conveniente
de ser civilizado.