No Ano
Internacional do Voluntariado, jovens aproveitam as férias escolares para trabalharem
em fundações e entidades não-governamentais
Quando pisou a primeira
vez no Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, Ricardo Melo Skaf não
imaginava como poderia ajudar as dezenas de crianças ali internadas, muitas
delas portadoras de doenças graves. "Entrei no quarto de um menino
em estado terminal, portador do vírus da Aids. Precisava usar máscara,
luva, tudo. Fiquei uma semana com uma enorme dor no peito", lembra ele. Hoje,
Skaf trabalha como voluntário na Associação Viva e Deixe
Viver e é membro do projeto Aprender para Atuar (Apat) que, entre outras
coisas, presta consultoria a entidades do terceiro setor. "Quando você
faz um trabalho voluntário, acaba levando essa experiência para a
própria vida, para as outras relações", garante.
Assim como ele, a estudante
Bruna Diniz Caloi, 15 anos, decidiu aproveitar suas férias de verão
para conhecer de perto o trabalho voluntário e adquirir experiência
profissional. No Comitê Brasileiro de Voluntariado, em São Paulo,
ela faz pesquisas na Internet e ajuda na manutenção do site da entidade.
Bruna está percebendo que, mesmo sem ter algum tipo de especialização
profissional, ela pode realizar trabalhos que são importantes. "Eu
não achei que fosse ser útil", diz.
Histórias como a
de Skaf e Bruna já não são exceção no Brasil.
Jovens e adultos estão se engajando em trabalhos voluntários e descobrindo
o quanto isso pode ser prazeroso. Declarações do tipo "recebi
mais do que dei", ou "pensei que fosse um dever e descobri um prazer"
são comuns em pessoas que se envolvem nesse tipo de atividade.
Um estudo feito em 1996
pelo Centro de Pesquisa Motivacional revelou que 7% dos jovens brasileiros estavam
envolvidos em algum trabalho voluntário. E 54% dos que não estavam,
manifestaram interesse em participar de algum projeto desta natureza.
Comparado com os Estados
Unidos, onde o trabalho voluntário envolve 62% dos jovens, o índice
do Brasil é baixo. No entanto, Márcia Tedesco Dalcecco, gerente
nacional do Comitê Brasileiro de Voluntariado, comenta que a quantidade
de pessoas que fazem trabalhos sociais tem aumentado: "O número é
grande, mas a necessidade do país é maior ainda".
A Organização
das Nações Unidas (ONU) escolheu o ano de 2001 para ser o Ano Internacional
do Voluntariado. Dentre os 123 países que aderiram a esta iniciativa de
incentivo ao trabalho voluntário está o Brasil, representado pelo
Comitê Brasileiro de Voluntariado. "Queremos mostrar que todos podem
ser voluntários, independente da idade", afirma Márcia. Para
divulgar o voluntariado, os organizadores da campanha decidiram trabalhar um tema
por mês, por meio de campanhas publicitárias, palestras, shows e
quiosques em shoppings. Em janeiro, o assunto é arte e cultura. Em julho,
será a vez do protagonismo juvenil. Para Márcia, a conscientização
e engajamento dos jovens são fundamentais. "O jovem tem a energia
e a crença no futuro."
O que os jovens estão
descobrindo é que o voluntariado, além de ser um poderoso instrumento
de mudança social, é também um grande aprendizado. Júnior
confirma: "O bom de ensinar para gente da minha idade, é que sempre
se aprende alguma coisa". Respeito às diferenças, responsabilidade
e auto-estima são alguns dos ganhos apontados. O trabalho voluntário
é uma troca, não uma via de mão única.
Vilma de Sousa, pedagoga
especializada em capacitar jovens voluntários, aponta que os adolescentes
vivem em grupos muito homogêneos. Seu círculo social se restringe
aos amigos da escola, do clube, do bairro. "Os jovens precisam conviver mais
com pessoas de outros ambientes e classes sociais", afirma. Fazer trabalhos
voluntários é uma boa oportunidade para vencer fronteiras e preconceitos.
Ela relata a experiência de jovens de colégios de classe média
de Belo Horizonte que trabalharam em favelas da cidade. "Eles descobriram
que aquele não era um mundo hostil, desordenado e ameaçador, como
a mídia mostra."
Além de conhecer
outras faces da realidade social, os jovens voluntários descobrem novos
valores. Vilma acredita que os estudantes que têm entre 14 e 17 anos ainda
vivem muito focados em seu desempenho escolar, na escolha e na realização
profissional. "Quem se envolve em trabalhos com a comunidade percebe que
não está no mundo só para se formar, trabalhar e ganhar dinheiro",
diz. Ideais de solidariedade e responsabilidade social passam a fazer parte do
cotidiano dos jovens, que se tornarão adultos mais conscientes.
O tema da consciência
social foi deixado de lado pelas escolas durante as décadas de 70 e 80,
mas está sendo retomado. Para Vilma, a escola tem um grande poder de estimular
os estudantes a se engajar em trabalhos de natureza social. Afinal, é ali
que eles passam a maior parte de seu tempo.
O pedagogo e consultor do
Unicef Antônio Carlos Gomes da Costa, um dos mentores do Estatuto da Criança
e do Adolescente (ECA), define o voluntariado como um laboratório prático
de cidadania. Ele lembra que todo mundo é cidadão, mas quem faz
trabalho voluntário passa a ser um cidadão prestante, que contribui
para mudar os rumos da sociedade. "O voluntariado é uma possibilidade
de resposta aos problemas que afligem o país", diz. Tanto Gomes da
Costa quanto Vilma concordam que o voluntariado permite que o jovem incorpore
certos conceitos que serão úteis em sua vida profissional.
Autonomia, planejamento
de decisões, cooperação e trabalho em grupo são algumas
das habilidades que se desenvolvem durante a realização de trabalhos
comunitários. "Antes de começar um trabalho voluntário,
é preciso escolher a área de atuação, planejar a ação,
organizar os horários para ter sempre um tempo disponível para o
trabalho escolhido. Esses hábitos valem para qualquer atividade profissional",
define a pedagoga.
Pouco a pouco, os jovens
vão derrubando o estigma de que são isolados, conformados com a
realidade e não podem mudá-la. "Eles passam de problema a solução",
conclui Gomes da Costa. Mais um aprendizado proporcionado pelo trabalho voluntário.