Maior bibliófilo brasileiro
relembra seus tempos de bancos escolares
Da memória de José Mindlin, um lépido e afabilíssimo
senhor de 86 anos, as lembranças vão surgindo como se um livro estivesse
sendo folheado. Nas páginas de sua infância, destaca-se principalmente
o professor de matemática Giacomo Stabale, do Colégio Rio Branco,
na fase do ginásio. O homem de letras agradece: "Aritmética
era um problema para mim. Meninote, ainda, eu chegava à solução
das questões via álgebra, ou seja, sempre pelo caminho mais difícil.
Não fosse a sensibilidade de Stabale, talvez eu nunca tivesse o estalo
que me fez acordar um dia e somar 2 mais 2 como faz todo mundo". Hoje, a
adição permite a Mindlin contar mais de 25 mil preciosidades organizadas
na biblioteca mais admirada no país.
Mindlin recorda com carinho
também de Sampaio Dória, um dos diretores da escola, que criou a
Associação Escolar Rio Branco, espécie de miniatura da República
brasileira para os estudantes: tinha presidente, secretários de Estado
(os ministros da época) e até uma réplica do Congresso Nacional.
"Os alunos votavam e escolhiam seus representantes entre todas as turmas.
Eu fui secretário de Cultura, com 14 ou 15 anos. Quer dizer, já
estava na área", diverte-se. José Mindlin, convém lembrar,
foi secretário da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São
Paulo, no governo Paulo Egydio Martins e hoje integra os conselhos de várias
instituições culturais e museus, entre eles a Fundação
Vitae e o Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia. "Vendo a coisa
retrospectivamente, fui precoce, não é?", brinca.
Filho de pais russos, imigrados
para o Brasil no começo do século, o paulistano José Mindlin
fez o antigo primário na Escola Americana. Espírito dócil,
mas muito independente, chegou a mudar sua caligrafia quando a professora do primeiro
ano, dona Nicota, duvidou que aquele exercício bem-feito não tinha
sido feito por ele: "Mudei minha letra de inclinada (ao estilo americano)
para vertical, no que fiz muito bem. Fui amigo pessoal de Drummond (o poeta Carlos
Drummond de Andrade) e várias vezes ele disse que minha letra era bonita.
A dele também era".
Francês foi a segunda
língua de José Mindlin. "Dos meus 6 para 7 anos, tivemos uma
governanta russa, que falava muito bem francês. Dos 7 para os 8, chegaram
em nossa casa uns primos da Rússia, filhos de um irmão de papai.
Eles nos ensinaram russo e nós lhes ensinamos português. Sempre tive
facilidade para línguas. Inglês, por exemplo, aprendi sozinho, lendo".
Importante, da mesma forma,
foi o apoio recebido em casa. O pai de Mindlin era um apaixonado por artes plásticas
e tinha uma razoável biblioteca. "Certamente, herdei o gosto dele
por raridades plásticas e o dirigi aos livros. A vida de meu pai foi muito
interessante. Ele e mamãe saíram da Rússia em 1905, por caminhos
diferentes. Foi uma época de grande anti-semitismo, a situação
dos judeus era muito difícil. E somente se reencontraram em Nova York,
anos depois. Então se casaram e vieram para o Brasil, em outubro de 1910."
Os Mindlin acolhiam famosos
artistas russos que vinham se apresentar em São Paulo, nos anos 20 e 30.
A bailarina Ana Pavlova, por exemplo, foi grande amiga da casa. "Dinheiro
nunca foi um objetivo, mas cultura sim. Papai trabalhava muito. Levávamos
uma vida modesta. Tanto que quando meu pai ficava tentado a comprar um quadro,
às vezes tinha de sacrificar uma parte da despesa do mês. Mamãe
apoiava e Guita, com quem estou casado há 54 anos, também. Nunca
precisei entrar com livro escondido em casa".
José Mindlin viveu,
em matéria de formação escolar, uma experiência muito
especial. "Aproveitei um decreto surgido em 1927, que permitia fazer exames
parcelados das matérias do ginásio e do colégio. A gente
podia estudar onde quisesse e depois fazer os exames no Ginásio do Estado,
eliminando matérias sem que fosse aprovado. Então eu passei para
o Rio Branco. Em três anos, fiz 11 matérias e no quarto ano, História.
Aos 15 anos e meio era admitido no Estadão. Acho que fui o redator mais
jovem do jornal. Foi uma excelente escola e me ajudou muito no vestibular para
Direito, no largo São Francisco (USP)".
Mindlin se lembra que começou
a correr sebos, atrás de raridades, com apenas 13 ou 14 anos. "O que
facilitou esse meu gosto para colecioná-las é que o Mackenzie tinha
uma ótima biblioteca". O patrimônio literário de Mindlin
cobre, basicamente, assuntos brasileiros (literatura, história, estudos
sociais, viagens), literatura geral nos idiomas que ele domina e em traduções,
livros de arte, e o livro em si, como objeto gráfico. Seus autores preferidos,
se tivesse de mencionar apenas três, são Machado de Assis, Marcel
Proust e Guimarães Rosa.
Mas sua lista do coração
chega a muito mais de cem. "Importante é não ligar a leitura
à necessidade de ter o livro. Biblioteca pública, de escola, fábrica,
hospital é que é importante. Eu sempre tive a preocupação
de inocular nos meus filhos o amor aos livros. Acho que o que falta hoje nas escolas
é um ambiente para ler, uma boa biblioteca, uma sala de leitura. Eu tive
isso, na escola".