Educadora
cubana afirma que a construção de uma nova sociedade latino-americana passa pela
pedagogia de Paulo Freire
O Brasil está exportando para a América Latina um modelo bem-sucedido
de educação. Nada a ver com as atuais mudanças propostas
pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB), com os sistemas de avaliação
ou os processos de modernização através do uso de computadores
em sala de aula. Aliás, tudo o que é feito nas classes tradicionais
vai na contramão desse modelo, que na verdade não é tão
novo assim.
Estamos falando da educação
popular proposta por Paulo Freire, cuja metodologia está servindo de base
para a criação de diversas organizações não-governamentais
e incentivando uma nova maneira de enxergar os espaços educativos. Em países
que ainda não usufruem um regime democrático no sentido lato do
termo e buscam um novo modelo de sociedade, mais justa, igualitária e participativa,
a obra de Paulo Freire pode ajudar no processo de transição.
O que não deixa de
gerar conflitos com o poder local, seja em relação ao estado ou
à instituição escola, por promover a reflexão profunda
dos sistemas políticos e sociais. É exatamente esse o estágio
da educação popular em Cuba, que chegou por ali tardiamente em relação
a outros países da América Central e do Sul, e que hoje se orgulha
de possuir um dos principais pólos internacionais de formação
de educadores - o Centro Memorial Dr. Martin Luther King Jr, cujas oficinas atenderam
diretamente 1.500 pessoas desde 1993. Esther Pérez, licenciada em letras
e ex-representante de Cuba nas Nações Unidas, coordena a área
de educação popular do centro. Ela conversou com a Revista Educação
sobre a influência de Paulo Freire em seu trabalho e como um sistema de
ensino não-convencional pode ajudar no desenvolvimento de habilidades e
competências pessoais tão almejadas pelos métodos "modernos".
Revista Educação
- O que são os educadores populares?
Esther Pérez -Educadores populares são pessoas que trabalham
com grupos humanos na sociedade. No caso cubano, com organizações
populares, governos, programas sociais, como o médico de família,
e instituições de diversos tipos, inclusive escolas.
Educação
- O "inclusive escolas", significa que esse não é o foco
principal do programa?
Esther -Professores participam de nossos programas atualmente, mas no
começo o trabalho não estava aberto a eles. A educação
popular trabalha com um espaço diferente da escola tradicional e em certo
ponto até critica o modelo tradicional do professor todo onipotente de
um lado e os alunos passivos, recebendo informações, de outro.
Educação
- Qual o objetivo almejado?
Esther -Buscamos o pensamento crítico da sociedade. Trabalhamos
com psicologia de grupo, análises de contexto, entre outras técnicas
e também ênfase na questão de gênero.
Educação
- É possível avaliar os resultados da educação popular?
Esther -Isso é uma questão complexa porque nosso trabalho
atinge a subjetividade das pessoas. Não dá para medir em número
e sim na qualidade. Percebemos mudanças na prática social mais democrática,
a utilização de colegiados para a tomada de decisões e ações
efetivas mais perto das reais preocupações da população,
com maior capacidade criativa.
Educação
- É quase um tipo de terapia...
Esther -Terapia em muitos lugares visa à adaptação
das pessoas ao existente. Nosso trabalho, ao contrário, objetiva que as
pessoas sejam capazes de transformar o ambiente. É até certo ponto
um trabalho político.
Educação
- Há um certo choque entre os educadores tradicionais e os adeptos da educação
popular?
Esther - Existem preconceitos por parte dos educadores ditos tradicionais
e até por nós, pois, como disse antes, no início nossos programas
não estavam aberto para professores. Depois mudamos de idéia, pois
os professores também são agentes sociais fora do ambiente da escola,
eles interagem com outros grupos e é esse tipo de relação
que visamos transformar. Mas no caso dos professores formados por instituições
tradicionais - com diplomas, passagem pela academia e tudo mais -, eles também
costumam enxergar nosso trabalho de maneira preconceituosa e desinformada.
Educação
- Qual o motivo?
Esther -Principalmente por uma questão de poder. O que acontece
em sala de aula é um jogo de poder onde o professor exercer o domínio
absoluto, que é aceito ou não pelos outros participantes. Às
vezes com certa passividade ou aceitação total. Tentamos fazer um
processo de aprendizagem cuja intenção é desmontar esse poder
concentrado, não apenas para que a relação seja mais democrática,
mas também para mostrar às pessoas que tudo não passa de
um jogo de poder, uma metáfora do que acontece em outros grupos sociais.
É cômodo saber que temos poder e pensar que ninguém vai desafiá-lo.
Por isso que é mais fácil trabalhar com mulheres em nossos programas.
Os homens têm mais medo de repensar esse modelo. Quando trabalhamos com
grupos de homens vamos mais devagar na abordagem. A mulher está mais acostumada
a compartilhar o poder ou a nem exercê-lo.
Educação
- O que acontece exatamente? Os professores têm medo de perder esse poder?
Esther -O preconceito às vezes se expressa em declarações
como "se não é um modelo tradicional, com professor de pé
na frente da sala e os alunos sentados em fila, não é um modelo
sério, é apenas uma brincadeira". Aí convidamos esse
professor a experimentar. Perguntamos: "Quer brincar conosco?" A maioria
aceita e percebe que não se trata de uma brincadeira.
Educação
- Que tipo de informação o profissional de diferentes áreas
procura na educação popular?
Esther -Basicamente aprender a trabalhar com pessoas. E de forma democrática,
participativa. Logo de início avisamos: uma coisa é tratar o tema
da medicina e psicologia no ambiente acadêmico. Outra coisa é atuar
com a população. Esse tipo de profissional deve ter conhecimentos
em psicologia grupal, social. Eles estudaram formalmente na escola, em nossas
oficinas convivem com colegas que não são profissionais e descobrem
muitas coisas novas. A troca de experiências entre acadêmicos e instrutores
tem sido muito rica. Por isso o preconceito tem diminuído. Um exemplo é
o programa Médico de Família, que existe em Cuba. O conceito é
de um médico por quadra, ou trecho de um bairro. No convívio com
as pessoas em seu dia-a-dia esses médicos descobriram que não exerciam
somente a medicina. Atuavam também como agentes sociais, ouvindo os problemas
das pessoas, suas queixas em relação ao convívio familiar,
a vizinhança, a política. Um profissional atuando nessas condições
deve estar preparado. E nós oferecemos formação específica
para esse grupo.
Educação
- Como vocês trabalham com educação popular em Cuba? Há
um modelo próprio?
Esther -A educação popular, a pedagogia Paulo Freire chegou
atrasada em Cuba. Foi na década de 80, através do Brasil. E chegou
num momento político de profunda autocrítica da sociedade cubana,
quando as organizações foram questionadas internamente. Temas como
a burocratização, relações das organizações
e os movimentos, capacidade de auto-organização e de participação
das pessoas estavam sendo discutidos. E nos deparamos com a experiência
do trabalho de Paulo Freire no Brasil e na América Central. Encontramos
uma pista para começar a responder as perguntas que a sociedade estava
pleiteando. Dizíamos: este é um caminho não para produzir
as respostas, mas um caminho que poderíamos seguir para encontrar as respostas.
Trabalhamos modestamente no início, realizamos intercâmbios e finalmente
em 1990 foi decidido que iríamos começar o programa baseado na nossa
realidade.
Educação
- Que tipo de conteúdo é abordado?
Esther -Temos programas diversos que tratam de desenvolver a educação
popular no contexto cubano, que é diferente de outros contextos latino-americanos.
Não tratamos de complementar falências do estado, não fazemos
educação complementar, porque a totalidade da população
cubana é escolarizada. O ensino é obrigatório até
o nível secundário. Trabalhamos com pessoas que tenham, no mínimo,
essa escolaridade. Não atuamos, por exemplo, com alfabetização
de adultos como no Brasil. Trabalhamos mais com a questão da subjetividade,
da passividade das pessoas em ler a realidade social em que estão envolvidas
e a capacidade de participar de forma mais politizada, protagonista, ativa. Assim,
o Centro Memorial Martin Luther King criou o Programa de Formação
de Educadores Populares, com a participação de educadores, centros
de pesquisas e universidades.
Educação
- O governo subsidia esse trabalho?
Esther Péres - Não, nós recebemos cooperação
internacional para nossas oficinas e projetos e também nos financiamos
com esforço próprio, através da venda de publicações
e vídeos. Nossas oficinas são gratuitas. O ensino é totalmente
gratuito em Cuba, do fundamental à faculdade.
Educação
- Atualmente o trabalho tem se expandido para outros países...
Esther -A princípio, pensamos esse trabalho só para Cuba.
Pelo momento que Cuba estava passando com o embargo econômico. A crise econômica
nunca vem sozinha, vem junto com a crise de identidade. Fica mais fácil
discutir coisas íntimas, dolorosas, quando estamos junto de nossos pares.
Entretanto, nos últimos quatro anos recebemos muitas solicitações
de pessoas de outros países latino-americanos. Convocamos um seminário
de Educação Popular, em 1998, em Havana, com 40 educadores populares
da América Latina, inclusive do Brasil. Em 1999, fizemos um encontro em
Olinda (PE) e outro na América Central. Nesse momento, pensamos outras
possibilidades de formação conjunta, entre as diversas partes da
América Latina, para debater a educação popular, as especificidade
de cada país e as coisas comuns no processo de formação.
Educação
- Até que ponto a educação popular influencia o currículo
da escola tradicional?
Esther - A sociedade cubana, como a maioria dos países do mundo,
está discutindo uma nova forma de educação que leve o estudante
a pensar e não apenas a decorar conteúdos. Essa é uma revolução
em curso em nosso país e não está sendo patrocinada pelo
Ministério da Educação. Não irá acontecer por
decreto. As coisas estão mudando a partir da base, por exigência
das comunidades, dos professores e alunos.
Educação
- Estamos descobrindo que o ensino pode ser mais que uma mera transmissão
de informações...
Esther -A questão é complexa. A educação deve
ser muito sofisticada e mais participativa, criativa, deve ser uma manifestação
de arte. Minha vida mudou com a educação popular. Paulo Freire foi
um iluminado e sua mensagem é muito importante em sociedades em transformação.
E tem tudo a ver com a América Latina. Ele propõe uma nova sociabilidade,
que deve ser construída a partir de novas formas de relações
sociais. Formas mais democráticas, mais participativas, comunitárias,
solidárias, menos mediadas pelo mercado, e mais mediada pelo lado humano.
Mais inclusivas, respeitando o meio-ambiente, e menos preconceituosa. E que facilitem
o desenvolvimento de cada pessoa, que é a condição de desenvolvimento
do todo. Quando chegarmos a isso, buscaremos novos objetivos. Não há
fim na história nem na cultura. Enquanto houver pessoas no mundo devemos
estar permanentemente discutindo e reaprendendo.