Dívidas
emergenciais prendem a educação brasileira ao milênio passado
O Brasil inicia o novo milênio
com um terrível saldo negativo na educação. No século
passado esse assunto foi discutido muito superficialmente. Em 1932, foi criado
o famoso Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, documento que
começou a discutir a universalização do ensino - mas suas
idéias pouco saíram do papel. Resultado: temos de resolver rapidamente
nossas pendências, qualitativas e quantitativas, na educação.
O século que se inicia exige isso. Em 2001, não se pode esquecer:
·
O absurdo que é o nível de analfabetismo brasileiro! Somando os
18 milhões de analfabetos totais aos 25 milhões de iletrados funcionais
temos o estarrecedor número de 43 milhões de homens e mulheres,
jovens e adultos, acima dos 15 anos de idade, que no início do século
XXI são vitimados pelo descaso governamental e pela indiferença
social. É preciso rever também a postura de inserção
do analfabetismo dentro do campo da assistência social e de projetos como
o Comunidade Solidária. Educar não é prestar assistência.
Alfabetização de adultos precisa estar ligada às políticas
do MEC.
·
Atenção aos pequeninos! Crianças até 6 anos parecem
ter sido riscadas da cartilha do governo. A prioridade oficial - voluntária
ou constrangida - vem sendo dada somente ao ensino fundamental, por intermédio
quase exclusivo do financiamento do Fundef. Um problemão. Os municípios,
responsáveis pela educação infantil e nas creches, ficam
sem recursos para dar atendimento a essa área, sendo obrigados a reinvestir
no ensino fundamental, ou não recebem as verbas federais. Como quem paga
o preço é sempre quem menos tem, o Fundef acaba atrapalhando não
só o aprendizado das crianças de até 6 anos - que têm
esse direito garantido pela LDB -, como ainda os pais, que precisam trabalhar
e não têm com quem deixar os filhos. É preciso rever o Fundef
de maneira que haja possibilidade de os recursos irem para os municípios
sem que seja em detrimento da educação infantil.
· Também é preciso criar políticas
de formação do professor, com obtenção de recursos
para a consolidação das competências docentes! Por que não
se fazer com a formação docente o que se fez com as telecomunicações
e hidrelétricas nacionais, buscando investimento internacional, de maneira
que se possa ter um plano integrado municipal e estadual, com repasse de recursos?
Essa preocupação tem de ser um projeto nacional, uma vez que os
docentes, individualmente, não têm responsabilidade alguma. O Brasil
nunca teve uma política nesse sentido.
· Para
que todas essas ações não se percam no discurso, urge repensar
a cruel equação qualidade versus quantidade. Numa democracia política,
quantidade é sinal de qualidade: se não houver quantidade total,
não há qualidade social. Qualidade sem quantidade não é
qualidade, é privilégio.
É preciso transformar
essas urgências em um dever cívico, cobrando das prefeituras a participação
na solução desses problemas e fortalecendo-as nas demandas que precisam
fazer aos níveis superiores de governo. Dever cívico? Sim; o século
XXI não pode, entre nós, ser tão socialmente vergonhoso.