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Madeira de lei Trabalho cooperativo com arte desperta em adolescentes da periferia valores que a escola não ensinou Genival José de Souza, 16 anos, tem como desafio pintar 180 pecinhas que farão parte de um quebra-cabeça. "É fácil fazer", gaba-se o menino. Morador de Brasilândia, extremo da Zona Norte de São Paulo, ele voltou este mês a integrar o Projeto ArtCom, composto por jovens entre 15 e 23 anos. Eles criam e produzem, de maneira cooperada, brinquedos pedagógicos de madeira. Há dois anos no grupo, Souza havia dado uma pausa na produção para experimentar uma atividade mais tradicional. Por não ter a formação exigida pelo mercado formal de trabalho, restou-lhe ocupar uma vaga como descarregador de caminhões de refrigerante. Em menos de um mês arrependeu-se da escolha e voltou a produzir seus quebra-cabeças e jogos-da-velha. "Era um trabalho 'de braço' e repetitivo. Prefiro o ArtCom. Aqui, todo mundo é amigo e tem liberdade para fazer o que gosta: inventar cores misturando tintas, fazer quadros, criar novos brinquedos", alegra-se. A opinião é dividida pelos outros 12 adolescentes que juntos produzem e aprendem novos ofícios. Em cada encomenda, eles se reúnem para decidir quem será responsável pelas tarefas. Nos momentos em que não há produção, bolam novos brinquedos. "Tudo aqui é novidade", afirma. O projeto começou como iniciativa de pais e de um grupo de freiras da paróquia da região, como forma de retirar adolescentes das ruas. E ainda não traz grandes rendimentos para os participantes. A média salarial oscila entre R$ 90 e R$ 140, dependendo do tempo dedicado ao trabalho. Nem por isso alguém se arrisca a sair do grupo e, se depender do número de clientes já conquistados, cerca de 35 em todo o Brasil, o investimento ainda vai longe. Maria de Fátima Gouveia Martins, uma das idealizadoras do ArtCom, fica satisfeita ao ver os meninos produzindo e trabalhando. "Ainda temos dificuldades, porque é uma responsabilidade assumir os interesses de todo o grupo. Eles estão aprendendo que, se um falta, todo o trabalho é prejudicado", relata. Não faltam discussões, é claro. Mas elas são encaradas como o caminho necessário para se chegar ao consenso, acrescenta. Para melhorar o relacionamento interno dos jovens, Maria de Fátima conta que, além dos cursos de oficina e marcenaria, os participantes recebem orientações sobre os princípios do trabalho cooperativo e da cidadania. Graças às parcerias com ONGs. A dificuldade de associar-se de maneira cooperada e autônoma não é exclusiva dos jovens de Brasilândia. Talvez esta seja a realidade de toda população que foi educada para receber comandos e competir entre si. Segundo o professor Paul Singer, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), a dificuldade dos jovens é uma mostra dos grandes desafios para a implantação do que ele acredita ser uma alternativa ao sistema de produção capitalista - a economia solidária. Neste modelo, a organização da produção não é baseada na competição, mas na solidariedade entre as pessoas. Nas empresas solidárias, não há distinção entre capital e trabalho. São cooperativas, ou algum tipo de associação semelhante, em que todos os que trabalham são donos da empresa e todos os donos da empresa trabalham nela. A relação é igualitária. Singer afirma que a maior dificuldade encontrada para a expansão da economia solidária é justamente fazer com que os trabalhadores pensem na formação de cooperativas como uma saída diante da crise social e econômica. "É preciso uma revolução mental. Por isso, a escola tem um papel fundamental e difícil", afirma Singer. O professor explica que, ainda hoje, a população vê o trabalho assalariado como um caminho natural para a vida adulta. "Quanto mais velha é a pessoa, menor é sua autonomia e maior é sua cultura de submissão." Para ele, é preciso inverter essa concepção. Daí a importância da escola - que lida com grupos (crianças e adolescentes) que ainda não estão totalmente imersos no conceito assalariado de trabalho. "A escola tradicional não dá liberdade às crianças, pelo contrário, as domestica ao trabalho subalterno, impondo-lhes horários e tarefas determinados pela autoridade. É uma verdadeira instituição disciplinadora", critica. O professor Vitor Henrique Paro, da Faculdade de Educação da USP, vai mais longe e afirma que, sem uma revolução educacional, perpetuaremos a sociedade individualista e competidora. "A escola que existe hoje, com felizes exceções, é autoritária e chata. Se ela não é capaz de produzir sujeitos autônomos e solidários, é porque tem sido pouco educativa, já que tais elementos são fundamentais para a cidadania", afirma. Segundo ele, ao desconsiderar características essenciais do ser humano, a escola está negando sua função social. Com isso, acaba produzindo pessoas despreparadas para conviver de maneira participativa em uma sociedade democrática. "Nossas escolas zelam pelo silêncio. O aluno é proibido de conversar, o que é imprescindível para o processo verdadeiramente educativo", frisa. Em sua crítica, Paro inclui também as práticas repressoras, como a repetência e os castigos. "A intenção do educador deve ser a de produzir um sujeito. Portanto, a educação deve lidar com pessoas que têm vontades e desejos, que são autônomas, e não submissas", diz. O professor acredita que as escolas podem se tornar verdadeiras instituições democráticas, desde que criem estratégias para a participação dos estudantes em todos os processos internos de decisão. "Se a escola for pedagógica e se ocupar em formar sujeitos, necessariamente será um laboratório e uma incubadora de cooperadores", conclui. Esta coluna é produzida por estudantes e coordenada por jornalistas do Núcleo de Comunicação da ONG Cidade Escola Aprendiz. A missão da entidade é pesquisar e disseminar novas formas de educação que respondam às demandas da chamada "sociedade do conhecimento". Para saber mais ou ler a versão on-line da revista Educação, acesse www.aprendiz.org.br. |
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