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Entre quatro paredes Carolina Costa Com poucos espaços para brincar e tempo livre cada vez mais controlado, crianças são seduzidas por brinquedos tecnológicos Leia
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Trancafiados em casa ou na escola, esses garotos e garotas movimentaram R$ 853 milhões do mercado de brinquedos e outros R$ 206 milhões em livros infantis e juvenis. Mas o grande companheiro tem sido os jogos eletrônicos, que faturam entre R$ 120 e R$ 200 milhões, anualmente, segundo estimativas do Instituto DataMonitor no ano 2000. A indústria de games, que sofre com a pirataria - até 75% dos jogos são cópias não-autorizadas -, tem produzido aventuras cada vez mais sofisticadas. E violentas, o que levou o Ministério da Justiça a proibir oito desses "brinquedinhos" por excesso de violência. Desde dezembro do ano passado, os fabricantes de jogos eletrônicos são obrigados a informar nas embalagens a classificação etária do produto. Como se vê, a indústria cultural invade o universo infantil com números e atitudes de gente grande. Não bastasse o forte apelo ao consumo e a redução dos espaços de lazer, crianças ainda têm de agüentar adultos lhes regulamentando o tempo livre. Os filhos das classes mais abastadas dividem a agenda escolar com várias atividades extras: curso de idiomas, computação, esportes, natação, piano. "Crianças de classe média são muito solicitadas: têm aula de balé, inglês, judô; não têm tempo nem para se coçarem sozinhas", desdenha Tatiana Belinky, autora de livros infantis já consagrados pelos pequenos. Livres dessa carga excessiva de compromissos, as crianças mais pobres não saem ganhando nem nisso. Quando não estão nas ruas em busca de uns trocados, são acolhidas por um sem-número de projetos sociais, em que também não administram seu tempo por conta própria. "Acabaram as brincadeiras de rua, que seguiam leis e regulamentos criados pelas próprias crianças. Agora, o tempo todo, elas têm algum adulto dizendo o que fazer e como agir. A infância está institucionalizada e assim não há criatividade que resista", critica Perrotti, autor do livro Confinamento Cultural, Infância e Leitura (Summus, 112 págs., R$ 16,50). "Das 7 da manhã ao meio-dia as crianças ficam na escola. Depois do almoço, vão para um projeto social ou para atividades extracurriculares. Essas instituições ainda seguem o modelão transmissivo de educação. Não há mais espaço para sonhos e fantasias", lamenta o educador. "A criança tem de estar produzindo o tempo todo, para entrar no mercado de trabalho o quanto antes e consumir mais. É uma tristeza, encurtaram a infância." As casas ficaram pequenas, os quintais desapareceram, as calçadas e ruas estão cada vez mais perigosas, a vida nos bairros se alterou completamente. Desprovida de seus espaços, a infância ficou confinada ao convívio doméstico: na frente do computador, em boa quantidade de lares, ou na frente da televisão, em quase todos eles. TV, heroína e vilã - Tanto a televisão e o cinema quanto os jogos eletrônicos pautam a linguagem visual que mais controle exerce sobre a criança. Mais atenta ao lúdico, a televisão brasileira vai aos poucos diluindo noções de cidadania em sua programação até então estritamente comercial. O número de programas de auditório para crianças caiu. "A Globo recebeu muitas críticas e vem mudando o padrão da programação nos últimos dois anos, na tentativa de transmitir valores como cidadania e educação. É um avanço inquestionável", pondera Laurindo Lalo Leal Filho, colunista de Educação e presidente da ONG Tver, especializada em análise da programação infantil. Segundo ele, ainda há uma lacuna na televisão brasileira: os telejornais para crianças. "A Inglaterra e a França têm alguns programas assim, que apresentam informações do mundo adulto em uma linguagem simplificada e didática, sem ser chata nem imbecil." Os canais de TV investem em desenhos e programas educativos, a exemplo do que faz a TV Cultura há mais de 30 anos. O SBT renovou seu contrato com a Disney, a Record quer colocar psicólogos e pedagogos nos programas infantis, a Globo se esforça para manter no ar o novo Sítio do Picapau Amarelo, os canais fechados renovam a programação periodicamente, lançando desenhos e fórmulas. Tatiana Belinky, responsável pela primeira adaptação do Sítio para a TV, condena a atualização exagerada da nova versão. "É modernizada, mas não sinto muito Monteiro Lobato nisso. Na época, ele já conhecia rádio e telefone e esses aparelhos não apareciam no Sítio, justamente porque ele queria poupar aquele ambiente, queria que fosse um mundo à parte, de sonhos. Como é que pode uma Tia Anastácia magricela e espevitada, que cozinha em microondas?" Tatiana Rodríguez, diretora- sênior de programação e aquisições do canal a cabo Nickelodeon, é categórica: "A ficção e os temas contemporâneos substituíram um pouco da fantasia. As histórias que falam de fadas madrinhas e princesas têm perdido espaço para os extraterrestres, robôs ou temas que podem ser facilmente incorporados à vida diária das crianças". Ela se embasa em pesquisas de público, realizadas pela própria Nickelodeon, para afirmar ainda que "a animação japonesa seguirá marcando a pauta da animação favorita nos próximos dois ou três anos". "O problema desse tipo de desenho é a velocidade e a violência", contra-argumenta Perrotti. Os anime, como é chamada a animação japonesa, ganham espaço na vida de milhares de crianças também na forma de subprodutos: jogos para videogame e computador, desenhos para o cinema e uma grande quantidade de mochilas, material escolar, bichos de pelúcia e brinquedos em geral. "O Pokémon, por exemplo, lida com o mesmo tipo de linguagem rápida da publicidade, que vence pela repetição", explica Perrotti. Páginas abertas - Seguindo a mesma tendência de linguagem veloz e dinâmica da televisão, a produção literária é obrigada a se adaptar às exigências do público mirim. Nunca se publicaram tantos livros infantis quanto nos últimos dez anos. Segundo a Câmara Brasileira do Livro, em 2000, o mercado editorial lançou 3.776 novos títulos infantis e outros 4.065 juvenis, o equivalente a 17% de toda a produção editorial do ano. E isso só em literatura, o que exclui os livros didáticos e paradidáticos - que somam outros 9.434 novos títulos, ou seja, mais de 22% do total de livros publicados em 2000, em todas as áreas. Perrotti explica que, na ausência de mediadores (pais, avós, professores), quem define as escolhas, para a criança, é apenas o mercado. "Que pai ou mãe, hoje, tem condição de acompanhar mensalmente os 50, 70 títulos de livros infantis que são lançados mensalmente? Nem o professor, que é especialista, consegue." Selecionar obras infantis e juvenis de qualidade tem sido, há 33 anos, o principal objetivo da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Desde 1974, a entidade organiza o Prêmio FNLIJ para selecionar os melhores livros do ano para crianças e adolescentes, dividindo-os em 15 categorias (leia mais no quadro à pág. 50). Maraney Freire, bibliotecária da Fundação há 15 anos e uma das organizadoras e juradas do Prêmio, acredita em um aumento da qualidade das edições infantis e juvenis brasileiras: "Temos bons livros e autores, muitos deles vindos de editoras pequenas." E lembra que, depois dos EUA, Brasil, Suécia e Alemanha são os únicos países que têm dois escritores premiados com o título Hans Christian Andersen, o Nobel da literatura infantil e juvenil. "Lygia Bojunga Nunes (1982) e Ana Maria Machado (2000) foram premiadas pelo conjunto da obra", explica Maraney. A qualidade fica escondida pela quantidade, mas o que mais preocupa é que, para atender ao apelo da rapidez, os livros estão empobrecendo. As ilustrações são enormes e coloridas, mas o texto fica espremido em um punhado de frases, em poucas páginas e a um preço alto. "A linguagem de muitos livros infantis está imitando a da TV: depauperada, extremamente simplificada, com pouco vocabulário, reduzida aos signos mínimos, supondo que a criança é incapaz de absorver coisas mais elaboradas", condena Perrotti. "Como fica o olhar contemplativo, com o qual a gente rumina, examina e absorve novos conteúdos?" Nesse sentido, alguns escritores e críticos de literatura infantil são obrigados a baixar a guarda e não condenar à vala comum um best seller como Harry Potter. "A molecada gosta que é uma loucura, e não é qualquer moleque, porque demanda muito tempo para ler. As pessoas não deveriam olhar com tanta desconfiança", sugere Perrotti. Já Tatiana Belinky pondera que o mérito de Harry Potter é fazer as crianças lerem textos corridos, longos, sem ilustrações. "Não acho que esse livro seja a melhor coisa do mundo, tem muito marketing por trás, mas ao menos obriga à leitura fluente", reforça ela. No que se refere ao
marketing, os números de vendas de Harry Potter parecem confirmar
o que pensa Tatiana. A aventura do menino-bruxo, criado pela britânica
J. K. Rowling, fechou 2001 na liderança dos livros mais vendidos
na categoria ficção, segundo o ranking que a revista Veja
publica semanalmente. Na lista, atrás de Harry Potter e a Pedra
Filosofal, primeiro livro da série, vem Harry Potter e o Cálice
de Fogo, o quarto volume da coleção, seguidos por Harry
Potter e a Câmara Secreta e Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban,
o segundo e o terceiro volumes, respectivamente. Tanto barulho, é claro, acabou atiçando o mercado de jogos eletrônicos, que aproveitou a publicidade instantânea e garantida do bruxo para também fazer mágica: lançado um mês antes do Natal, o CD-ROM Harry Potter e a Pedra Filosofal (R$ 70, em média) encabeçou boa parte dos pedidos ao Papai-Noel e segurou ainda mais crianças na frente do computador, em plenas férias escolares. A Electronic Arts, distribuidora do CD-ROM, é cautelosa ao falar nos números encantados, mas faturou, só no ano passado, mais de R$ 50 milhões sobre a venda de jogos eletrônicos e revistas com games encartados, segundo Geraldo Prado Guimarães, gerente de marketing. Brincadeiras mortas, brinquedos vivos - "Tive apenas três brinquedos que não foram livros: a Lídia, uma boneca que trocava de cabeça sempre, porque meu irmão a quebrava para saber como funcionava; e dois bichinhos de pelúcia, um cachorrinho e uma raposa", lembra Tatiana. "Minhas brincadeiras eram todas baseadas em livros, vivia no meio de meninos, era sempre a princesa", lamenta ela, que preferia as bruxas, com mais personalidade que as mocinhas, "tão certinhas e bonitinhas". "Também me criei entre meninos", afirma Zilka Salaberry, a Dona Benta das primeiras versões do Sítio do Picapau Amarelo. "Botava tampinha de cerveja no trilho do bonde para amassar e virar dinheirinho." Quebra-cabeças, bolinha de gude e jogos da memória, os brinquedos preferidos por quem hoje são pais e avós, pouca resistência oferecem aos videogames e jogos eletrônicos (leia mais à pág. 53). "O que mais me deixa espantada é que esses novos brinquedos brincam sozinhos, a criança mais assiste do que participa", aponta Tatiana. Eugênio Bucci, jornalista e professor de ética na Faculdade Cásper Líbero, é mais cauteloso ao analisar os games e jogos de computador. "A cultura surge em lugares em que não estávamos acostumados a procurar. Então, é preciso ter muito cuidado ao afirmar que videogame não é produção cultural. Eles têm narrativa, não são brinquedos periféricos. E as crianças se reúnem para jogar, não dá para afirmar que a vivência acabou só porque não acontece mais nas ruas", pontua Bucci. "Em matéria
de brinquedo que encanta, que maravilha, que desperta o sensível,
o inesperado, o que não se repete jamais, eu ainda fico com o fascínio
de um caleidoscópio e com a poesia das bolinhas de sabão.
Brinquedos imbatíveis, porque lidam com o que há de mais
eterno na pessoa", afirma a escritora de livros infantis Fanny Abramovich,
definitiva, em O Estranho Mundo que se Mostra às Crianças
(Summus, 168 págs., R$ 19,10).
Hábito da leitura mantém-se como principal chave para despertar lúdico Mandar ler não funciona, condenam, em uníssono, escritores, educadores, críticos de literatura infantil e leitores vorazes. "O verbo ler não suporta o imperativo. Aversão que ele partilha com alguns outros verbos: amar, sonhar", ensina o professor francês de literatura Daniel Pennac no primeiro parágrafo de Como um Romance (Rocco, 168 págs., R$ 15,30). Parece que só pais e professores ainda acreditam nas fichas de leitura e nos resumos de capítulos de grandes obras. Subordinadas ao imperativo das "coisas mandatórias", ler se transforma em um dever horrível e não em um agradável hábito, capaz de resgatar o lúdico adormecido nas crianças sem rua, sem praças, sem quintais. Reconhecido internacionalmente como um dos maiores psicólogos infantis, Bruno Bettelheim (1903-1998) explica, em A Psicanálise dos Contos de Fadas (Paz e Terra, 368 págs., R$ 28,20), a importância que a mágica e o fantástico têm na formação emocional dos pequenos. "Eles falam de suas pressões internas graves, de um modo que as crianças inconscientemente compreendem e - sem menosprezar as lutas interiores mais sérias que o crescimento pressupõe - oferecem exemplos tanto de soluções temporárias quanto permanentes para dificuldades prementes." Como resolver, então, o problema das crianças que sequer se aventuram pelo universo tão ricamente lúdico da leitura? A escritora Tatiana Belinky dá a dica: "Você lê? Seu filho vê você lendo? Vê livros espalhados pela sala, na mesa da cozinha, no banheiro? Então, se nem você gosta, como pode ensinar a gostar?" É de Ziraldo
a frase-síntese dos amantes da leitura: "Tudo o que se precisa
aprender já está escrito." Autor dos dois livros brasileiros
mais vendidos no país - O Menino Maluquinho e Uma Professora Muito
Maluquinha -, Ziraldo dá um puxão de orelhas nas professoras
que dão notas para leituras e abre fogo: "A escola não
precisa ensinar à criança como a vida é dura. A própria
vida já ensina. Ler é mais importante que estudar, então,
a gente vai para a escola apenas para aprender a gostar de ler."
(CC)
- O Melhor para a
Criança "Hors Concours": Indo não sei aonde buscar
não sei o quê, Ângela Lago (RHJ, 32 págs., R$
13,80) e Chica e João, Nelson Cruz (Formato, 40 págs., - O Melhor livro de Poesia: Um Gato Chamado Gatinho, Ferreira Gullar (Salamandra, 48 págs., R$ 19) - O Melhor Livro Brinquedo: Feliz Natal Ninoca!, Lucy Cousins (Ática, 14 págs., R$ 31,90) Fonte: Extraídos
da lista com os 15 ganhadores do Prêmio FNLIJ 2000, aqui estão
publicados apenas os livros de literatura infantil. A lista completa pode
ser lida no site www.fnlij.org.br.
Direitos imprescritíveis do leitor 1. O direito de não
ler. (Extraído
de Como um Romance, de Daniel Pennac, editora Rocco)
Cinema infantil ganha temática de gente grande e cinema adulto se infantiliza Com a infância de pernas cada vez mais curtas e a juventude sendo esticada por anos a fio, os produtores de cinema suam a camisa para separar assuntos pertinentes a cada faixa etária. Não têm sido incomuns, portanto, as confusões de temáticas e de estruturas tanto em filmes adultos quanto infantis. "Por alguma razão desconhecida, nos últimos anos, a produção norte-americana adulta tornou-se cada vez mais infantil, e a produção infantil vem se tornando progressivamente o lugar de uma meditação sobre o mundo e suas coisas", sintetiza Inácio Araujo, crítico de cinema de a Folha de S.Paulo, em resenha para o mesmo jornal. A crítica se fundamenta em produções recentes, como Dr. Dolittle 2 e Tainá - Uma Aventura na Amazônia. No primeiro, Eddie Murphy é um veterinário que fala com os animais. Com ajuda das crianças, consegue arranjar uma fêmea para um urso ameaçado de extinção. No brasileiro Tainá, a indiazinha que dá nome ao filme defende os animais de cientistas que querem capturar espécies raras (leia mais na coluna de Cinema, na pág. 63). Ecologia é apenas um dos conceitos que o filme aborda. "Em suma, sem ser um filme inesquecível, Dr. Dolittle 2 tem a seu favor esse tanto de liberdade que os filmes adultos parecem ter perdido. E confirma o cinema infantil como talvez o único espaço de liberdade ainda disponível no cinema industrial: é pelo menos aquele em que o roteirista parece se divertir enquanto trabalha", finaliza Araújo, na crítica sobre o filme com Murphy. Em Shrek, desenho animado dos estúdios DreamWorks, um ogro verde e debochado é o personagem principal. Politicamente incorreto, o filme fez sucesso entre as crianças, cansadas dos heróis certinhos e heroínas perfeitas de Walt Disney. "Achei Shrek o máximo. Ele mostra que os heróis não precisam ser lindos, nem bobocas, que podem ser feios e nojentos", comemora Bia Rosenberg, responsável pelos projetos especiais da TV Cultura. Segundo ela, o maior sucesso de Shrek é ensinar o respeito às diferenças, característica que muitos adultos, aliás, nações inteiras, ainda precisam aprender. Tentando recuperar os prejuízos das duas últimas produções - Atlantis e Hora do Recreio foram tiros n'água -, os estúdios Disney armaram uma ofensiva, com a reativação de vilões boa-pinta (como a Maga Patalógica e os Irmãos Metralha) e o lançamento do longa Monstros S/A, feito em parceria com os estúdios Pixar. Numa época em que racionamentos - de energia, água, comida - fazem parte do cotidiano de crianças no mundo todo, o longa foi um sucesso. Sem abandonar a fórmula Disney de heróis de boa índole, Monstros S/A conseguiu a sexta maior bilheteria em fim-de-semana de estréia da história: US$ 62,6 milhões. Um forte concorrente para o transgressor Shrek na corrida pelo inédito Oscar de animação, que será entregue em março deste ano. Em contrapartida, o cinema adulto dá sinais de desbragada infantilização. E nesse caso, toma-se o cuidado de não falar em imbecilização, já que não se pretende usar o termo infantilização de maneira pejorativa. "Produção infantil não é boba, quando bem feita, é divertida e tem enredo", alerta Bia Rosenberg. AI - Artificial Intellegence (Inteligência Artificial), de Steven Spielberg, é um exemplo de cinema adulto infantilizado. As bases da história são fábulas e contos de fadas, especialmente Pinocchio, de Carlos Collodi. Há uma roupagem moderna, apresentada no dilema entre o real e o virtual, mas ainda assim o fantástico e o imaginário são preservados. É um ET com nova roupagem. "ET, como AI, captura o que é mais emocionante na vida de uma criança: o temor do abandono. É uma estrutura ingênua, mas de forte apelo", explica Mario Sergio Cortella, educador, apresentador do programa Diálogos Impertinentes, da TV PUC e colunista de Educação. Mesmo que a psicóloga
infantil Ana Olmos reforce a idéia de que "filme com criança
não é necessariamente infantil", tem sido fácil
encontrar grandes protagonistas mirins em filmes absolutamente adultos,
como é o caso do garoto Haley Joel Osment, de O Sexto Sentido,
A Corrente do Bem e AI, além do inglês Anthony Borrows, que
interpreta o personagem-título em Liam, e Jonathan Chang, do chinês
As Coisas Simples da Vida. Grandes atores, que seguram muitas dessas produções
nas costas. O mundo adulto é, mesmo, dos pequenos. (CC)
Mercado fonográfico investe em qualidade para crianças Três novos projetos musicais prometem embalar as crianças em outros ritmos, bem diferentes dos CDs encontrados habitualmente nas prateleiras das lojas (leia sobre outras três novidades na coluna de Música, na pág. 61). Encabeçando a lista de novidades, Branco Mello, dos Titãs, e Hugo Possolo, ator do grupo Parlapatões, Patifes e Paspalhões, lançam Eu e Meu Guarda-Chuva, um CD-livro com muito rock e letras com referências a lugares de São Paulo, como a Estação da Luz, a estátua do Borba-Gato e a sede da extinta TV Tupi. O titã, que já havia dado aulas de música para crianças de um colégio paulistano, explica que a idéia do CD-livro nasceu há dois anos, por diversão. "Eu e o Ciro Pessoa [ex-Titãs] brincávamos de fazer música para crianças, achava bacana o universo delas. Mais tarde veio a vontade de reunir as músicas que a gente tinha feito em uma peça meio ópera-rock, algo que tivesse música, cenário e história, bem animado." Com as músicas prontas, foi a vez de Possolo contribuir para o projeto. "Expliquei o argumento, os personagens que eu queria e o Hugo escreveu a peça, que depois virou livro", completa Branco Mello. A esperança de a ópera-rock ficar pronta ainda este ano é grande e já conta com a produção de Ângela Figueiredo, mulher do titã, e da atriz Andréa Beltrão. "Estamos na fase mais difícil, que é a captação de recursos", completa ele. Produção independente foi a saída que o músico Zezinho Mutarelli achou para lançar Músicas Daqui - Ritmos do Mundo. O CD, que traz Luiz Melodia, Ira!, Pena Branca e Xavantinho, Sandra de Sá e outros, mostra antigas cantigas de roda com roupagem pop. Outra opção
festejada pela crítica é o relançamento de 25 historinhas
musicadas pelo compositor popular Braguinha, hoje com 94 anos. Os CDs,
que integram a coleção Disquinho, foram inicialmente produzidos
nos anos 60 e 70, quando Braguinha era dirigente da Continental. Embora
alguns educadores alertem para várias passagens politicamente incorretas
nos CDs, há que se levar em conta a época em que as letras
foram compostas. Se não por condescendência pedagógica,
ao menos para que as crianças de hoje possam ter acesso àquelas
músicas inesquecíveis. (CC)
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