Para
manipulador de bonecos, brincadeiras tradicionais são sinônimo
de boa educação
João Gudão
de Burrunfão de Maracutão de Xiringabutão. Essa frase
não quer dizer nada. É apenas uma brincadeira de criança,
um malabarismo verbal, a partir do nome João. Só que os
meninos e meninas de hoje não estão acostumados a se divertir
com jogos de palavras. E o motivo não é só a preferência
pelos heróis eletrônicos de videogames e computadores. Na
verdade, a maioria deles nunca ouviu esse tipo de brincadeira.
Como professor, artesão
de brinquedos, contador de histórias e manipulador de marionetes,
o trabalho de Francisco Marques - mais conhecido como Chico dos Bonecos
- é o de ensinar as crianças a se divertir sem os utensílios
modernos.
"Quando a gente
se pergunta como a criança aprende, tropeçamos na linguagem
infantil fundamental que é o brincar", explica. "Para
os adultos, isso pode ser sinônimo de lazer, passatempo, mas para
a criança é uma questão de sobrevivência. É
essa linguagem que os autores chamam de pensamento poético."
Nascido em Belo Horizonte,
Chico começou a escrever poemas e contos com 11 anos. Expansivo,
queria mostrar sua produção para as pessoas. E a melhor
maneira que arranjou para isso foi fazendo teatro de bonecos, os quais
ele mesmo fazia. Seus textos e o jeito como os interpretava com as marionetes
acabou fazendo sucesso e rendendo-lhe o apelido. Ele conta que o fascínio
pela palavra é herança da avó, que vivia lhe ensinando
brincadeiras como a do "João Gudão de Burrunfão..."
e a da língua do pê. "Apesar de ela não ter completado
nem o primário, foi a minha grande professora de literatura",
diz.
Com o tempo, foi se
envolvendo com o universo da educação, primeiramente de
maneira informal (ensinando grupos de jovens, atuando no movimento sindical)
e depois, já diplomado em Letras, nas escolas tradicionais. Por
causa de seu envolvimento com histórias e brincadeiras, em 1993,
reuniu algumas delas em livro e lançou Carretel de Invenções
(Ameppe, esgotado), que anos depois daria origem a um programa educativo
de rádio homônimo, atualmente retransmitido por centenas
de emissoras brasileiras.
Seguiram-se outros
livros e, em 1999, Chico lançou o CD Histórias Gudórias
(Palavra Cantada, R$ 20), em que ele próprio narra as histórias
e faz a sonoplastia com sons de brinquedos tradicionais - diabolô,
escada-de-jacó, corrupio e diablete. No ano seguinte, o artista
publicou Galeio (Independente, R$ 20), livro de contos e poemas.
Seu mais recente projeto
é um programa para rádio, o Catiripapo, que, assim como
o Carretel de Invenções, traz informações
por meio de músicas, poemas e histórias.
Vinculado ao Ministério
da Justiça e sua Secretaria de Direitos Humanos, o programa será
distribuído em forma de CD para os estabelecimentos de ensino que
integram o projeto Paz nas Escolas, em 2002.