Ainda não se
descobriu a maneira de impedir que com o crescimento das metrópoles
aumentem a criminalidade e a violência. A rua é cenário
de roubos, seqüestros, tráfico de drogas. É razoável
que pais temam por seus filhos - e os queiram distantes das calçadas
em que, outrora, se brincavam os jogos infantis que hoje despertam nostalgia.
Bolinha de gude, queimada,
pega-pega, ciranda e amarelinha são ignorados pelo imaginário
de crianças confinadas em condomínios fechados.
Mesmo sufocadas pela
realidade, elas teimam em brincar. Trocar bolas e bicicletas por computadores
e videogames talvez seja o caminho natural da evolução dos
brinquedos. Mas não parece natural que a infância viva trancafiada,
sem saber o gosto da liberdade das brincadeiras de rua.
Praças e parques
estão vazios, enquanto crianças crescem em confinamento,
ou submetidas a uma agenda lotada de compromissos - em escolas, clubes,
ONGs, cursos e trabalhos. Muitas já não sabem o que é
inventar brincadeiras sem adultos por perto para dizer como as coisas
devem ser feitas.
Não faltam
pais aliviados por verem seus filhos debruçados em um computador
ou hipnotizados pela TV - longe dos perigos da rua, portanto. E para alimentar
essa espiral que isola, há uma indústria de entretenimento
e sua publicidade imediatista, que descarrega toneladas de lixo cultural.
Em meio a esse entulho, é possível, com paciência
e determinação, encontrar produtos de qualidade. Há,
sim, bons livros, filmes, programas de TV, CDs e até mesmo brinquedos
tecnológicos.
Mas, sobretudo, enquanto
a rua não for retomada, pelo menos dentro de casa, e nas escolas,
é preciso deixar que as crianças inventem suas próprias
histórias, na esperança de acender nos olhos delas um brilho
antigo - que julgávamos eterno, mas, na verdade precisa ser preservado.