Pedreiro
cria biblioteca comunitária com recursos próprios e estimula
comunidade a ler
Evando dos Santos
tinha 18 anos quando deixou sua cidade natal no interior de Sergipe e
veio tentar a sorte no Rio de Janeiro. Como muitos migrantes, começou
a trabalhar como pedreiro. Enquanto construía casas, tijolo a tijolo,
subverteu a lógica e transformou um sonho em realidade, livro a
livro. Batizou esse sonho de Biblioteca Comunitária Tobias Barreto
e o incrustou na dura realidade dos moradores da Vila da Penha. Os primeiros
50 tijolos em forma de livros foram levantados em 1998. Hoje, esse muro
de arrimo já conta com um acervo de 19 mil exemplares e ampara,
além da vizinhança, qualquer pessoa que só não
entra em bibliotecas públicas porque se intimida com "as regras"
que o pedreiro se diverte em demolir: "Se alguém não
devolver o livro, não tem problema, é bom sinal. Quantas
vezes quis um livro, mas não pude comprá-lo?". A paixão
do iletrado pela literatura transformou um semi-analfabeto ou "intelecto
não-lapidado" em um agitador cultural, daqueles de levantar
barricadas pela Educação. Evando organiza um mutirão:
com a ajuda dos vizinhos, pretende escrever um livro contando a história
do bairro onde mora. Inspirados na alvenaria de Evando, outros mestres-de-obras
fundaram bibliotecas iguais em distantes bairros do Rio. Ele agora quer
um terreno para construir a sede de uma "biblioteca viva" e
acomodar melhor os livros. Já conseguiu de um colega de profissão,
o arquiteto Oscar Niemeyer, a promessa do projeto para seu novo sonho.
Educação O sr. já tinha o hábito de ler
antes de se mudar para o Rio?
Santos Na minha terra eu só tive contato com literatura
de cordel. No Rio, me converti à Igreja Batista e fui incentivado
a ler por um pastor. Lendo a Bíblia, comecei a me interessar pelos
impérios e lugares nela citados e passei a comprar livros.
Educação Como surgiu a idéia da biblioteca?
Santos Surgiu em 1998, quando fui fazer um serviço na
Penha. Desci do ônibus em frente a uma loja de peças de automóveis
e em cima do balcão havia 50 livros. Eu entrei na loja e perguntei
ao dono se ele estava abrindo um sebo. Ele disse que não, que os
livros eram para doação. Fiquei espantado porque tinha Os
Sertões, de Euclides da Cunha; História do Brasil, do Pedro
Calmon e outros tantos. Perguntei três vezes se os livros eram mesmo
para dar e então ele me disse que podia levá-los, se quisesse.
Coloquei os livros em um saco, fiz o meu serviço e voltei para
casa com os 50 livros. E comecei a pensar. No Rio de Janeiro, há
quatro bibliotecas estaduais e cerca de 22 municipais. Mas nelas você
encontra uma série de burocracias para retirar um livro. São
as regras. A mim não interessam tais regras. Não existe
uma política que incentive o cidadão a ler. Aí, surgiu
a idéia da Biblioteca Comunitária Tobias Barreto. Tudo começou
com 50 livros. Hoje são mais de 19 mil.
Educação A partir desses 50 livros, como foi o processo
de montagem da biblioteca?
Santos Foi tudo com doações. Eu sabia que precisava
divulgar a biblioteca, que precisava da imprensa. O primeiro programa
do qual participei foi na rádio Bandeirantes, o primeiro veículo
a me dar espaço. Eles me entrevistaram e deram o meu telefone.
Isso foi três meses depois de eu ter começado com os 50 livros.
Depois do programa, conseguimos 1.012 livros doados por duas senhoras.
Então liguei para o jornal O Dia e fizeram uma matéria comigo
e, a partir daí, aumentaram as doações.
Educação O que significa para o sr. essa biblioteca?
Santos Essa biblioteca é um motivo de orgulho para mim.
Não é mais um sonho, é realidade. "Ler é
lutar", dizia Tobias Barreto. Se você não lê,
não aprende a lutar, não progride e nem avança em
campo algum. Todos os direitos você consegue por meio da leitura.
Esse é um dos motivos por que os governantes brasileiros não
incentivam a abertura de milhares de bibliotecas. A idéia maior
da nossa biblioteca é a não-burocracia. Qualquer livro você
pode levar e essa é uma maneira de incentivar as pessoas. Se alguém
não devolver, não tem problema, é um bom sinal, ele
gostou tanto do livro que ficou para ele. Quantas vezes eu olhei um livro,
mas não podia comprá-lo?
Educação Como é o funcionamento da sua biblioteca?
Santos Quem quer retirar um livro acaba sendo seu próprio
bibliotecário. Aqui é um labirinto para você adentrar
e se sentir à vontade, mexer, conhecer os livros. Depois que achar
o que precisa é só marcar seu nome e o título do
livro no caderno e devolver quando acabar de usar.
Educação Quem são as pessoas que visitam sua
biblioteca?
Santos Pessoas de todas as idades. Vêm mais para fazer
pesquisa para trabalhos escolares. Tem de alunos do primeiro grau até
a faculdade. Recentemente, veio um estudante de Psicologia que está
para se formar e levou alguns livros para um trabalho. Vou mandar uma
cópia do discurso do Vargas sobre o Amazonas para um rapaz do Pará.
Ele está fazendo uma monografia sobre o Getúlio e não
conseguiu achar esse discurso em lugar algum. Um outro, estudante de Direito,
ligou e vem buscar um livro. É um público bem diversificado.
Educação O sr. tem freqüentadores assíduos?
Santos Tenho sim. Tem uma garotinha de seis anos que não
sabe ler e vem sempre aqui com o primo que lê para ela. Outro dia,
ela chegou e disse que queria um livro "esperto e maneiro".
Então, eu perguntei o que seria um livro "esperto e maneiro"
na concepção dela? Para ela, era um livro cheio de fotos.
Tem também uma senhora de São João do Meriti, que
vem visitar parentes aqui perto uma vez por mês. A cada dois meses
ela passa aqui e leva de três a quatro livros. Depois devolve e
pega outros. Falta de burocracia é bom por causa disso. A pessoa
leva quantos livros quiser, pelo prazo que quiser e ajuda a divulgar a
biblioteca fazendo o boca-a-boca. A freqüência é de
acordo com a necessidade das pessoas. Já aconteceu de um dia haver
23 crianças pesquisando aqui, às vezes mais, às vezes
menos.
Educação Qual foi a maior dificuldade que o sr. encontrou
para montar a biblioteca?
Santos O maior problema é não ter um carro para
buscar os livros. Normalmente, vou buscá-los de ônibus. Quando
sobra um dinheirinho ainda pago um táxi, mas na maioria das vezes
é de ônibus mesmo. Imagine o que é pegar dois ônibus
com um saco de livros nas costas. Já tive de andar de bondinho
e caminhar de 40 a 50 minutos com os livros. Essa é a maior dificuldade,
a falta de dinheiro e de um carro.
Educação O que o sr. acha que pode ser feito para incentivar
as crianças e os jovens a ler?
Santos Antes de tudo, gostaria de ver o livro na cesta básica.
As empresas que dão cesta básica poderiam fazer um acordo
com as editoras e incluir um livro na cesta. Desse modo, estarão
incentivando não só o trabalhador, mas os filhos dele a
ler. Isso sim é Pró-ler [Pró-Leitura na Formação
do Professor, programa de estímulo à leitura do governo
federal]. Porque o Pró-ler, com está, é uma piada
de mau gosto com o trabalhador brasileiro esse projeto incentiva quem
já sabe ler. Se o governo deseja incentivar o Pró-ler de
verdade, deveria colocar o livro na cesta básica. Outra forma é
apresentar as crianças aos nossos grandes autores, começando
por Monteiro Lobato. Existe autor mais maravilhoso para incentivar uma
criança a ler? Depois é só apresentar os grandes
escritores brasileiros aos jovens, gradativamente, de acordo com o grau
de amadurecimento deles.
Educação O sr. já leu todos os 19 mil livros
que estão aqui?
Santos Não, mas eu olho cada livro que chega, autor e
assunto. Porque há assuntos-chave que eu separo e coloco em um
lugar de fácil acesso. Atualmente, estou lendo Menores e Loucos,
do Tobias Barreto.
Educação Qual é seu escritor preferido?
Santos Tobias Barreto foi o maior e melhor escritor brasileiro.
Ele escreveu sobre Direito, Filosofia, poesia, introduziu o condorismo
[escola literária de estilo empolado cujo representante maior foi
Castro Alves] na literatura brasileira. Tobias Barreto fundou a primeira
sociedade contra a escravidão no Brasil, comentou obras de Kant,
escreveu a primeira lei de direitos autorais, foi um gênio. Mas
gosto muito do Lima Barreto, que escreveu para o povão, e do Mário
Palmério, autor de Chapadão do Bugre. Para mim, esse é
o livro mais gostoso de ler, porque você tem ali a vida mineira
em sua essência.
Educação
Quais são as obras que o sr. destacaria em sua biblioteca?
Santos O próprio Menores e Loucos, do Tobias, de 1884.
Nunca imaginei ter essa obra em minhas mãos, é uma preciosidade.
Do mesmo autor temos Questões Vigentes. Há ainda uma cópia
da Primeira Gramática da Língua Portuguesa, de 1539; Nova
Política do Brasil, com os discursos de Getúlio Vargas;
História do Mundo em Japonês; e o discurso de Rui Barbosa
em francês, de 1907; entre outros.
Educação O sr. desenvolve outros projetos na comunidade?
Santos Nós já ajudamos a fundar nove filiais da
nossa biblioteca. A de Duque de Caxias (RJ), por exemplo, já possui
12 mil livros e tem curso de inglês. As pessoas ficaram sabendo
da nossa biblioteca, gostaram da idéia, vieram aqui, levaram alguns
livros e fundaram outras bibliotecas comunitárias. Além
de Caxias, há ainda uma em Nova Iguaçu, Irajá, que
possui curso pré-vestibular e em Belford Roxo e São Gonçalo
[todos municípios do Grande Rio]. Aqui também fazemos a
feijoada literária. Quando eu posso, compro todos os ingredientes.
As pessoas vêm, almoçam, mas o melhor é o final da
refeição quando ficamos discutindo literatura e poesia.
Depois, cada um declama uma poesia, de sua autoria ou não. Passamos
um dia muito agradável. Também gravamos um CD com os vencedores
do concurso de poesia que realizamos.
Educação O sr. tem idéia de em quanto está
avaliada a sua biblioteca?
Santos Não tenho idéia, mas com certeza devo ter
livro aqui no valor de 200 reais.
Educação O sr. também escreve cordel?
Santos Não, não escrevo. Mas sou membro benemérito
da Academia Brasileira de Cordel. Eles me deram o título e escreveram
um cordel em minha homenagem, chama-se O Pedreiro Arretado, do professor
Gonçalo Ferreira da Silva. Estão terminando a tradução
desse cordel para o alemão e já começaram a tradução
para o chinês. Também estamos desenvolvendo um livro com
o pessoal da Vila da Penha, contando a história do bairro pela
memória dos moradores mais velhos.
Educação O sr. gostaria de levar a biblioteca para
uma outra sede?
Santos Eu gostaria de ter um terreno aqui no nosso bairro para
poder construir um local para abrigar melhor os livros. Mesmo cumprindo
o papel deles maravilhosamente bem e estando preservados, as condições
dos livros, aqui, não são as ideais. Eles deveriam estar
mais bem acomodados. Se eu conseguir o terreno, o projeto arquitetônico
será do gênio Oscar Niemeyer.
Educação Como o sr. conseguiu um projeto de Oscar Niemeyer?
Santos Há um ano, ele estava participando de um programa
de TV. Eu liguei e pedi para a telefonista contar a minha história
para ele, mas ela achou melhor me colocar no ar para eu mesmo falar da
biblioteca. Então, pedi uma ajuda a ele. Não pedi dinheiro,
pedi um projeto para a biblioteca. Ele falou que quando eu conseguir o
terreno ele me dará o projeto arquitetônico de presente.
Educação Qual é o seu maior sonho atualmente,
depois de ter conseguido construir essa biblioteca?
Santos Meu sonho é fazer uma biblioteca viva, onde as
crianças possam ter contato com bichos e plantas vivos, ao mesmo
tempo que estiverem fazendo uma pesquisa sobre algum deles. Teria cabrito,
coelho, galinha e muitos outros bichos e plantas. Esse é o meu
sonho. Vamos ver se consigo realizá-lo.