Um de nossos simpáticos
jornais publicou texto sobre o odioso conflito no Oriente Médio
e suas repercussões. Nele, este trecho: "Mesmo assim, um clima
perigoso está surgindo em Washington, que os últimos eventos
tendem apenas a alimentar mais."
É óbvia
a má colocação das palavras, e desagradável
o resultado. O bloco "que os últimos eventos tendem apenas
a alimentar mais" está ligado a "clima perigoso",
mas muito distante dele. O "que" parece referir-se a "Washington".
Do jeito que o texto saiu da pena do artista, parece que "os últimos
eventos tendem apenas a alimentar Washington". Coisa feia e sem sentido.
O escrevente poderia ter utilizado um dos dois recursos seguintes para
dizer o que pretendia.
Primeira possibilidade:
"Mesmo assim, um clima perigoso, que os últimos eventos tendem
apenas a alimentar mais, está surgindo em Washington." Assim,
a oração explicativa ("que os últimos eventos
tendem apenas a alimentar mais") ficaria perto do termo que modifica
e a que está ligada. Mas a solução não é
boa, porque resulta em uma intercalação muito longa, que
arromba a oração e distancia demais o sujeito ("clima
perigoso") do predicado verbal ("está surgindo").
Coisa que se deve evitar porque as grandes orações intercaladas
atrapalham a leitura, encaroçam o texto e dificultam o entendimento.
Nesse caso, uma espécie de pedra no caminho do leitor, sem a graça
da pedra do Drummond.
Segunda possibilidade:
"Mesmo assim, está surgindo em Washington um clima perigoso,
que os últimos eventos tendem apenas a alimentar mais." Aqui,
inverte-se a ordem da oração original, deslocando-se o sujeito
para o fim da oração principal, isto é, para depois
do predicado ("está surgindo") e do adjunto adverbial
("em Washington"). A oração adjetiva referente
ao sujeito agrega-se mais naturalmente a ele.
Terminologia cabeluda
à parte, o trabalho é simples e depende de atenção
e de alguma sensibilidade relacionada com o texto: faz-se a inversão
necessária para que os elementos afins se juntem numa boa. Para
isso, basta ter bom ouvido, cultivado em boas leituras, e não no
estudo de gramáticas ou de tratados de lingüística.
Nota-se também
que o "mais" final contribui para derrubar a frase. Isso quase
sempre ocorre quando a solitária palavra final tem menos sílabas
do que a anterior. Na verdade, o redator se refere a um processo em desenvolvimento.
Pode-se apenas eliminar o frágil e inútil "mais".
Frágil e inútil no caso. Ou, melhor, trocar o "alimentar
mais" por um verbo mais forte: estimular. "Mesmo assim, está
surgindo em Washington um clima perigoso, que os últimos eventos
tendem apenas a estimular."
Seja qual for a solução,
convém lembrar que qualquer texto, desde que não de um gênio
da literatura, pode ser modificado sempre, melhorado sempre.
Uma avenida das
arábias - Em um dos muitos escândalos de nossa época,
um denunciante apontou obras superfaturadas da prefeitura de São
Paulo nos tempos de Maluf e Pitta. Foi um longo período farto de
escândalos. A coisa continua rendendo e dizem que se estende até
a ilha de Jersey. O denunciante falou então em "preço
caro" e "preço barato".
Só que preço
não é caro nem barato. Preço é alto ou baixo.
Geralmente alto. A obra, a mercadoria, o remédio, é que
pode ser caro ou barato. "Uma avenida e um túnel custaram
muito caro, caro demais. O preço deles foi muito alto, espantosamente
alto."
Já se mostrou
que o metro quadrado da avenida Água Espraiada e do túnel
Ayrton Senna, abertos pela prefeitura em São Paulo naqueles tempos,
custou mais caro do que o metro quadrado do túnel sob o Canal da
Mancha. Uma grandeza e um recorde. Um recorde, com acento tônico
no "có", não um "récorde", como
diz o pessoal da TV Globo.
O que se há
de fazer com esses preços? Votar melhor para não pagar muito
caro de novo pelo voto errado. Ou, de outra forma: votar sempre melhor
para não pagar preço muito alto por eleger picaretas.
Josué Machado
é jornalista e autor do livro Manual da Falta de Estilo (Ed. Best
Sellers)