Desânimo
é sinal de envelhecimento do espírito inquieto que deve
marcar a prática pedagógica
Começa mais
um ano letivo. Ano novo? Para muitas pessoas que trabalham com educação,
não. A tentação delas é entrar na escola cantarolando
cinicamente: "Já conheço os passos dessa estrada, sei
que não vai dar em nada, seus segredos sei de cor; já conheço
as pedras do caminho e sei também que ali sozinho vou ficar, tanto
pior."
Esses versos melancólicos
iniciam uma genial canção de sofrimento afetivo, Retrato
em Branco e Preto, criada por Tom Jobim e Chico Buarque em 1968. Aquele
foi um ano especial, no qual, pelo mundo afora, milhares de jovens em
revolta romântica expressaram inconformidade e desejaram vida coletiva
melhor, apoiada em uma idéia - ridicularizada até hoje pelos
idiotas do realismo - de paz e amor. Foram além aqueles jovens,
ao empunharem dois lemas essenciais para romper os laços da reclusão
voluntária em um presente que aparenta ser insuperável:
"A imaginação no poder" e "Sejamos realistas:
queiramos o impossível."
Ora, não são
poucos os que, agora mais idosos e atuando na docência ou gestão
das escolas, sonharam intensamente naquele período, mas acabaram
perdendo a imaginação, tornando-se reféns do possível.
Assim, esses são capazes de recomeçar o ano letivo como
um fardo a ser carregado tal como sempre o foi, tomando como guia uma
outra estrofe da mesma canção: "Lá vou eu de
novo como um tolo, procurar o desconsolo que cansei de conhecer; novos
dias tristes, noites claras."
Essa postura desanimada
é sinal de envelhecimento do espírito inquieto e desafiador
que deve marcar a prática pedagógica; essa submissão
ao "estado das coisas como elas estão" é indício
de adoecimento da amorosidade compartilhada que insufla o encanto docente.
Desanimar é tirar a animação, isto é a anima,
a alma, o espírito vital que fortalece e dá sentido à
nossa profissão e compromisso.
É sempre necessário
lembrar as palavras de Paulo Freire - incansável construtor do
impossível. "Quando a gente diz: 'a luta continua', significa
que não dá para parar. O problema que a provoca está
aí presente. É possível e normal um desalento. O
que não é possível é que o desalento vire
desencanto e passe a imobilizar."
De fato, não
pode ser possível que o desalento vire desencanto e imobilize nossa
ação. Há muito para ser feito, reinventado, recriado,
renovado; os problemas aí continuam e precisam ser conjuntamente
enfrentados. A desistência ou a indiferença indicam o falecimento
da esperança e, nessa condição, é melhor ser
íntegro e honesto e procurar outros caminhos fora da educação.
O bom nestes nossos
tempos de recomeço é render-se à paixão educativa
que nos envolve e murmurar, sem ingenuidade, mas com convicção,
um outro pedaço de nós na mesma canção: "O
que é que eu posso contra o encanto desse amor que eu nego tanto,
evito tanto, e que, no entanto, volta sempre a enfeitiçar?".
*Professor de pós-graduação
em Educação (Currículo) da PUC-SP.