Projeto
melhora auto-estima de jovens de baixa renda ensinando jardinagem e paisagismo
Meu relacionamento
com as pessoas melhorou quando eu aprendi a ter paciência."
Esse é apenas um dos ensinamentos que Michel Ferreira de Jesus,
17 anos, aprendeu ao trabalhar com jardinagem. Morador do Jardim Macedônia,
no Município de Embu (SP), ele foi selecionado para participar
de um curso de capacitação profissional por meio do programa
Renda Mínima, da Prefeitura de São Paulo.
O que o estudante
não sabia era que havia entrado em algo maior do que um trabalho
com plantas e flores. Criado em 1996, o projeto Crê-Ser é
uma iniciativa anual que trabalha com cursos de capacitação
profissional e geração de renda nas áreas de jardinagem
e paisagismo. "Foi uma revelação", lembra Michel,
um dos 23 jovens formados no final do ano passado pelo projeto. Desde
sua criação, o Crê-Ser já garantiu inserção
no mercado de trabalho a 80 adolescentes de baixa renda.
A idéia começou
a ser desenvolvida com a união das secretarias municipais de Saúde
e do Meio Ambiente, com base no trabalho de profissionais do Centro de
Convivência e Cooperativa do Parque Ibirapuera. Partiu da constatação
de que as crianças e adolescentes de baixa renda ou em situação
de risco que vão ao parque para brincar, trabalhar, dormir, pedir
esmola ou mesmo praticar pequenos furtos não tinham vontade de
participar das ações promovidas pelo centro.
Para integrar crianças,
adolescentes, terceira idade, portadores de deficiências e freqüentadores
do Parque Ibirapuera, o Centro de Convivência oferece diversas atividades,
como ioga, ginástica, relaxamento, caminhada, tai-chi-chuan, jogos,
além de aulas de artesanato, tapeçaria e cerâmica.
"Nosso trabalho é incluir qualquer pessoa que possa ficar
segregada. No entanto, percebemos a necessidade de criar um programa específico
para jovens sem perspectiva", explica Selma Reyes, autora do projeto.
Baseada em suas observações
e em sua formação de educadora ambiental, Selma constatou
que, dentre a faixa ampla de atendidos, os jovens de 15 a 20 anos eram
os casos mais difíceis. "Eles não estudam ou trabalham.
A probabilidade de eles entrarem para o tráfico ou mesmo serem
consumidores de drogas era muito grande. Esse trabalho deveria ser diferenciado",
defende. Com ajuda de outros profissionais do centro, Selma pensou em
uma forma de propiciar um trabalho com maior valor social e profissional
a essa faixa etária. "Acreditamos que é possível
recuperar nossa qualidade de vida, principalmente a de crianças
nessa situação. E para isso acontecer é preciso muita
dedicação para ver seu trabalho germinar, tal como um jardim."
Desse ideal nasceu o Crê-Ser.
Segundo Cecília
Ishihama Suzuki, terapeuta ocupacional e co-autora da iniciativa, a proposta
gira em torno de duas preocupações: a identidade dos jovens
e o preparo para o trabalho. Criou-se, portanto, uma metodologia que faça
o jovem refletir sobre suas ações e, ao mesmo tempo, aprender
uma profissão. "Não é um trabalho técnico.
É uma relação de cidadania e troca de experiência,
de buscar um olhar humano sobre a relação com o trabalho",
explica Cecília.
Ela acrescenta que
a deficiência educacional desses estudantes levou o programa a buscar
práticas pedagógicas diferenciadas. Por isso, as aulas teóricas
em sala de aula são acompanhadas de técnicas de reforço
para aprofundar as matérias. "Usamos jogos e dinâmicas
para uma memorização mais rápida do conteúdo,
ao mesmo tempo em que fazemos uma educação mais prazerosa",
aponta.
Um dado curioso e
bastante positivo na visão de Selma é a vontade de aprender
despertada nos jovens. Como o projeto não está vinculado
à educação formal, não exige dos participantes
que estejam matriculados na rede de ensino tradicional. Alguns dos jovens
não sabiam ler as instruções nos sacos de terra e
pediram para ser encaminhados para escolas públicas. "O que
nos surpreendeu foi a vontade de aprender e voltar para a escola. Eles
encontraram sentido na educação", recorda Selma.
Outro desafio enfrentado
foi manter 35 adolescentes freqüentando as aulas durante todo o programa,
que dura quase um ano e tem um índice de desistência de aproximadamente
35%. De acordo com Selma, diversas parcerias, conseguidas a partir do
esforço individual das responsáveis pelo projeto, garantem
vale transporte e cesta básica para os alunos participantes. Até
mesmo o espaço usado para ministrar as aulas foi conseguido por
acordo com o Departamento de Parques e Áreas Verdes (Depave). "Mesmo
assim, muitos acabam desistindo, pois seus pais preferem trabalhos com
resultados mais rápidos", lamenta.
Emprego - Uma das maiores marcas do projeto Crê-Ser é a inserção
de seus participantes do mercado de trabalho: cerca de 80% dos alunos
foram encaminhados para empregos na área, depois de formados. Entre
as iniciativas empresariais que adotaram a causa está o Grupo Pão
de Açúcar, que recrutou dez jovens do projeto para a recuperação
das praças e áreas verdes localizadas ao redor das lojas
da Grande São Paulo.
O objetivo do Grupo
ao formar uma equipe de jardineiros é transformar áreas
abandonadas e lixões em espaços de convivência e lazer
para a população carente. Os "Jardineiros do Barateiro",
como são chamados, recebem um salário mensal de R$ 283,
vale-transporte e todos os benefícios estendidos a qualquer funcionário
da empresa. De acordo com a gerente de marketing institucional do Grupo
Pão de Açúcar, Sonia Manastan, o programa pretende
unir o combate à exclusão social e uma ação
ambiental que se revertesse em serviços para a comunidade.