Diferenças
regionais de salário e formação ajudam a traçar
perfil do professor no Brasil
O meu sonho era ser
policial.
- E por que você decidiu que queria ser professora?
- Era a única coisa a fazer em um lugar sem opções."
O lugar sem opções
é Açailândia, no Maranhão. A professora, Regilene
Araújo Silva, 25 anos de idade, há 12 anos leciona para
crianças da primeira à quarta séries do ensino fundamental.
A cidade não é pequena, tem quase 90 mil habitantes. As
opções também não parecem poucas: Açailândia
é o mais importante pólo industrial produtor de ferro gusa
no Norte e Nordeste brasileiros, além de ter uma razoável
agroindústria. O problema para os educadores da cidade é
a falta de estrutura para a formação de docentes. Oito horas
distante de São Luiz e a uma hora de Imperatriz, até pouco
tempo atrás não havia uma faculdade sequer nas proximidades.
Dessa forma, Regilene teve de recorrer ao Programa de Capacitação
de Docentes (Prodac), implementado pela Universidade Estadual do Maranhão
(Uema), que oferece licenciatura plena aos professores da rede pública
por meio de um curso que mescla atividades a distância com aulas
pres! enciais - quando, então, os professores da Uema se deslocam
até os municípios.
Essa dificuldade na
formação de professores é um problema antigo na educação
brasileira, assim como são comuns, nas reclamações
de educadores, os baixos salários, o excesso de aulas em várias
instituições para poder compor uma renda decente e os investimentos
governamentais insuficientes. Por mais freqüentes que sejam essas
características do ambiente educacional no Brasil, elas são
demasiadamente generalistas para se definir um perfil do professor brasileiro.
Os mais de 2,4 milhões de docentes na educação básica
são tão diferentes quanto suas realidades em cada região
do país.
A média salarial
é um bom medidor dessas diferenças. De acordo com o único
censo do professor brasileiro realizado até hoje, em 1997 - concretizado
pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) -,
os salários médios dos docentes da educação
básica variam de R$ 221,22, na Paraíba, a R$ 1.364,30, no
Distrito Federal. Isso inclui escolas federais, estaduais, municipais
e particulares. Em um agrupamento mais abrangente, a região com
salários mais baixos é o Nordeste, com R$ 297,18 em média.
Em contrapartida, os professores da região Sudeste recebem, na
média, R$ 686,31 mensais - a média nacional de 1997 foi
de R$ 529,92.
Esses números
servem como referência de uma categoria profissional ainda mal-remunerada.
Mostram também que há discrepâncias entre regiões
do Brasil. Contudo, o retrato é mais dramático quando os
índices são comparados aos de outros países. A Unesco
publicou, em 2002, um relatório com o salário médio
em dólares de professores de 38 países, levando em conta
o PPP (sigla em inglês para "poder de paridade de compra",
que não considera apenas o salário em valores absolutos,
mas também o custo de vida no país): o Brasil apresentou
o terceiro índice mais baixo; cerca de metade, por exemplo, dos
apresentados por Uruguai e Argentina, e quase sete vezes menor do que
o da Suíça, a primeira do ranking.
Uma das grandes bandeiras
do recém-encerrado governo foi a formação de professores.
Segundo levantamento realizado pelo Ministério da Educação,
a situação melhorou nos últimos anos. O estudo revela
que, hoje, 91% das funções docentes de pré-escola
têm formação adequada (magistério) pelo que
é exigido na Lei de Diretrizes e Bases da Educação
(LDB). Em 1996, eram 79%. Por sua vez, entre as funções
docentes de primeira a quarta séries do ensino fundamental, 94%
têm formação adequada, assim como 68% das funções
docentes entre quinta a oitava séries possuem curso superior, o
nível determinado na LDB. Finalmente, no ensino médio existem
79% de funções docentes com formação adequada
(curso superior com licenciatura). Um crescimento de 5% em relação
a 1996.
Se vistos por cima,
os números são alentadores, o mesmo não acontece
quando o foco recai sobre antigas mazelas brasileiras. Em Pintadas, cidade
típica do semi-árido baiano, com chuvas escassas, pouca
infra-estrutura e altos índices migratórios para São
Paulo, as "estatísticas" são bem diferentes. "Apenas
dois professores têm formação superior e licenciatura
na cidade", revela Carlos Alberto Silva, coordenador pedagógico
da Escola Municipal Zilda Dias. Considerando que Pintadas conta com 140
professores divididos em 34 escolas públicas, a maioria na zona
rural, onde vive 65% da população do município, esse
cenário está muito distante do ideal.
O principal responsável
por esse índice é o isolamento da cidade, que fica a cerca
de 250 quilômetros de Salvador (BA). "A universidade mais próxima
fica a 140 quilômetros daqui", lamenta Silva. A única
opção, explica, é tirar uma licença - sem
direito a vencimentos - para poder estudar. Algo que poucos fazem, pois
em uma cidade pobre como Pintadas, o salário médio de R$
250 de um professor não pode ser desprezado.
Mais do que a distância
de um curso superior, às vezes a dificuldade está em simplesmente
ir para a escola. As professoras Ilca Simplício e Humberlice Karen
de Brito têm de se deslocar 40 quilômetros entre suas casas
em Paragominas, no Pará, e o povoado ribeirinho de Canaã
(a 380 quilômetros de Belém), no município de Ipixuna
do Pará. Se essa distância não parece grande, a descrição
que as professoras fazem do percurso parece: "A viagem demora uma
hora e meia. Nós pegamos carona em caminhões que transportam
madeira; a estrada é péssima. Quando assistir àquelas
corridas de ralis, na televisão, lembre da gente", ilustram.
No município
mineiro de Catas Altas (a 130 quilômetros de Belo Horizonte), professores
que querem investir em formação têm de dedicar um
bom número de horas do dia para as viagens até a universidade
mais próxima. Otaviano Lúcio de Magalhães, professor
de uma escola rural no povoado de Morro da Água Quente, finalizou
recentemente o curso de pedagogia. Sua rotina começava na sala
de aula, às 7h, lecionando para crianças. Ele ia para casa
às 11h30, onde preparava a aula do dia seguinte e estudava para
sua graduação. Deixava Catas Altas por volta de 17h30 e
só chegava em João Monlevade, local da faculdade, uma hora
e meia mais tarde. Suas aulas acabavam às 22h30, mas somente à
meia-noite ele colocava os pés em casa. Tanto esforço, na
visão de Magalhães, foi "para que meus alunos não
tivessem os mesmos problemas que eu tive quando estudava". Ele se
refere ao despreparo de muitos professores que não investiram na
! própria formação por dificuldade ou comodismo.
Contudo, Magalhães
reclama da falta de relação entre as teorias que aprendeu
no curso de pedagogia e as práticas de seu dia-a-dia na escola
rural. Ele conta também que muito do material adotado pelas escolas
não serve para a realidade de seus alunos. "Os livros didáticos
são feitos por uma classe dominante. Eles falam, por exemplo, de
computador, mas na minha classe nenhum aluno tem isso em casa." Na
escola de Morro da Água Quente há apenas um micro.
Esse é um outro
grande obstáculo para os professores brasileiros: a infra-estrutura
que eles encontram nas escolas. Em uma avaliação feita pela
Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação
(CNTE), as disparidades entre as regiões são enormes. Para
se ter uma idéia, no item "Condições básicas
de funcionamento das instalações da escola" - telhado,
parede, piso, portas, janelas, banheiros e instalações hidráulicas
e elétricas -, estados como Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Santa
Catarina apresentam cerca de 90% de escolas de primeiro grau em condições
boas ou muito boas de uso, enquanto Paraíba, Maranhão e
Pará têm cerca de 60% das escolas nessa categoria.
Os números
são trágicos quando são avaliadas as "Condições
de equipamento de apoio didático ao ensino", ou seja, xerox,
projetor de slides, retroprojetor e computador. Nesses casos, existem
vários estados com cerca de 90% de suas escolas com condições
ruins nesse aspecto e poucas regiões em situação
razoável ou boa em mais de 70% das escolas. Esses dados tendem
a melhorar, na maioria dos casos, quando as escolas avaliadas são
de segundo grau, o que demonstra uma precariedade mais acentuada na educação
básica.
O abismo na infra-estrutura
é mais latente na comparação entre as condições
que os professores encontram nas escolas públicas e nas particulares.
No Brasil, 94,2% das escolas particulares têm boas "Condições
básicas de funcionamento das instalações." Na
rede municipal, apenas 32,7%. Os professores das particulares trabalham
com boas "Condições de equipamento de apoio didático
ao ensino" em 68% delas. São felizardos nesses casos professores
de apenas 2,5% das escolas municipais. Ainda há a diferenciação
entre escolas em áreas urbanas e rurais. Nas cidades, esse equipamento
é bom em 25,9% das escolas, mais de dez vezes a quantidade encontrada
em escolas rurais.
Práticas pedagógicas
- Nas condições precárias em que se encontram muitas
escolas no Brasil, alguns professores mais atuantes criaram novos mecanismos
para fazer com que o aluno aprenda e ainda contemple a sua realidade.
Regilene, de Açailândia (MA), entrou em contato com uma escola
em Joinville (SC) para que seus alunos trocassem cartas com os colegas
gaúchos, descrevendo a região onde viviam. "Eles estudaram
a região Sul e os alunos de Joinville, a região Nordeste",
lembra a professora.
Otaviano Lúcio
Magalhães, por sua vez, aproveitou o período de festividades
dos 500 anos da descoberta do Brasil para estimular seus alunos na pesquisa
da história de Catas Altas (MG), uma cidade histórica que
surgiu em 1702, durante o Ciclo do Ouro.
Na Bahia, Carlos Alberto Silva conta que de dois em dois me-
ses a cidade de Pintadas recebe pro-
fessores, vindos de Salvador, que au-
xiliam na forma-
ção de professores locais. Alguns des-
ses se tornaram também formadores e replicam as práticas
pedagógicas nas escolas dos povoados.
Enquanto em regiões
mais isoladas do Brasil os professores se deparam com barreiras em questões
básicas como locomoção, formação e
infra-estrutura em sala de aula, nas grandes cidades as discussões
dos docentes passam por temas bastante diferentes. Em São Paulo,
por exemplo, professores de escolas particulares têm rendimentos
médios que variam de R$ 930, no ensino infantil, a R$ 3.820, no
superior, segundo dados do Sindicato dos Professores (Sinpro) de São
Paulo - entidade que defende os interesses de 19 mil professores do ensino
particular do município. O salário, bastante superior à
media nacional, dá a impressão de que os docentes nos centros
mais ricos vivem em um oásis no meio da pobreza da educação
brasileira. Entretanto, no ensino particular, os professores passam por
uma crise. "A nossa leitura é de que nos últimos quatro
ou cinco anos a classe média perdeu o poder aquisitivo e tirou
seus filhos da e! scola particular", avalia Luiz Antônio Barbagli,
presidente do Sinpro-SP.
Esse fato gera um
declínio no número de aulas nessas instituições.
Assim, são poucos os professores que conseguem um regime de dedicação
integral em uma única escola e acabam sendo obrigados a lecionar
em várias, tornam-se "aulistas". Acrescenta-se a isso
um ponto citado em um relatório da Unesco, de setembro de 2002,
que observa a diminuição da demanda por professores em sociedades
mais desenvolvidas por conta de baixos índices de natalidade. Ou
seja, quanto menos crianças nascem, menos assentos há nas
escolas e, conseqüentemente, menos professores. Ainda que o Brasil
não tenha taxas de natalidade equivalentes às de primeiro
mundo, as principais cidades do país vivenciaram reduções
significativas nas últimas décadas, principalmente nas classes
mais abastadas, o que significa menos crianças e jovens nas escolas
particulares.
Sob pressão
- Como se não bastasse, se o professor de escola particular não
gasta horas de seu dia viajando em caminhões para chegar nas escolas,
ele precisa dedicá-las às novas funções fora
do horário de aula. "O dono da escola tem hoje a idéia
do aluno como cliente e isso aumenta a carga de serviços extra-sala
dos professores", critica Barbagli. De acordo com o presidente do
sindicato, as novas questões pedagógicas implementadas nas
escolas para atender à clientela e tentar atrair mais alunos forçam
o professor a trabalhar em casa, sem remuneração adequada.
No ensino público,
apesar de não haver escassez de alunos, os docentes se vêem
obrigados a encarar cargas de trabalho cada vez maiores. "Os professores
têm de fazer jornada dupla, às vezes tripla", reclama
Carlos Ramiro de Castro, presidente do Sindicato dos Professores do Ensino
Oficial do Estado de São Paulo. Quem faz coro é a presidente
do CNTE, Juçara Vieira: "Existem vários casos de burnout
entre professores." Ela se refere à Síndrome de Burnout,
uma das conseqüências mais marcantes do estresse profissional,
que se caracteriza por exaustão emocional, avaliação
negativa de si mesmo, depressão e insensibilidade com relação
a quase tudo e todos. De acordo com relatórios psiquiátricos,
essa síndrome é mais comum em profissionais que mantêm
uma relação constante com outras pessoas, principalmente
quando esta atividade é considerada de ajuda (médicos, enfermeiros
e professores).
As reclamações
mais freqüentes dos sindicatos são da falta de investimentos
em educação, seja para melhorar os rendimentos dos professores,
seja para oferecer condições dignas nas escolas. Ademais,
quem leciona está sujeito a ser a vítima nos crescentes
casos de violência dentro da sala de aula e isso entrou na pauta
de quem defende categorias de professores. "A população
valoriza o professor, quem não valoriza é o Estado",
conclui Ramiro de Castro.
Diante desses quadros tão diferentes, mas igualmente problemáticos,
nos indagamos o que faz alguém virar professor em um país
no qual os docentes são mal-remunerados e recebem pouco suporte.
Lecionando para crianças carentes, filhas de analfabetos que vêem
pouca utilidade na vida escolar, Ilca Simplício se mantém
firme:
"- Você
pretende continuar trabalhando como professora?
- Não sei se eu sei fazer outra coisa.
- O que mais você pensa em fazer no futuro?
- Eu tenho vontade de aprender. Para voltar e ensinar."