O teólogo e
professor Francisco Catão tomou um susto - quando relia com especial
enlevo o livro Mysterium Salutis (O Mistério da Salvação),
título latino do original alemão mantido na tradução
brasileira da Editora Vozes. A releitura da obra em seis volumes organizada
por Johannes Feiner e Magnus Löhrer transcorria serena até
o momento em que Catão trombou com a surpreendente expressão
"teologia federal" no Tomo V do Volume IV. Como o havia lido
antes em alemão, estranhou.
"Teologia federal"?,
pensou com seus discretos botões. Seria uma teologia imposta por
um poder federal neoliberal ou neo-social? Seria a "teologia federal"
diferente de uma teologia estadual severa proposta por um governador acima
de qualquer suspeita como o Joaquim Roriz, de Brasília? Ou diferente
e mais ampla do que uma teologia municipal sugerida por um prefeito empreendedor
do mesmo naipe como foi o Maluf?
Não seria possível,
concluiu Catão com dominicana tranqüilidade. Por todos os
bons anjos, não. Foi então conferir com o original. Lá
estava "Bundestheologie", que se traduziria bem por "teologia
da aliança", porque "Bundes", uma das formas de
Bund, significa federação, acordo, mas também aliança.
O pio tradutor talvez tenha sido influenciado pelo nome "Bundesrepublik
Deutschland", República Federal da Alemanha.
Ainda bem que, ao
traduzir, o santo homem não se influenciou pela onomatopéia,
em que o som da palavra prevalece, às vezes com algum risco, pensou
Catão piedosamente, permitindo-se perdoável dose de malícia.
"Bundes". Sorte também, o que daria no mesmo, não
ter sido traído pelo falso cognato, aquilo que parece, mas não
é. Por exemplo, "lunch", em inglês, que significa
"almoço", às vezes é traduzido por lanche.
Não ficaria bem traduzir a sonora "Bundes" por palavra
semelhante em português, dada a transcendentalidade do assunto.
Seria quase pecado. Mas teologia federal?
Pelas barbas do ceceante
Lula.
Ele é masculino?
Ao fazer graça
com o instrumento a que deram o nome de Bráulio, o pessoal cheio
de graça de Casseta e Planeta O chamou duas vezes, em dias diferentes,
de "pênis masculino". Conhecem eles Outro que não
o masculino?
Por que O chamaram
assim? Pelo que se sabe, não há hermafroditismo humano completo,
isto é, seres com os dois órgãos sexuais razoavelmente
desenvolvidos e aptos para o que der e vier. Nos casos esdrúxulos
de hermafroditismo humano sempre há predominância de um ou
outro desses utilíssimos e festejados apêndices. Ou um funciona
ou outro. Para certas atividades, às vezes nenhum.
Ele é Ele e
sempre será Ele, sem a distraída classificação
de masculino, feminino ou neutro. Pode eventualmente estar prejudicado,
se O maltrataram, se O fizeram sofrer, se exigiram muito d'Ele, se O utilizaram
indignamente, se o tempo inexorável ou as tristezas desta vida
O tornaram irremediavelmente cabisbaixo.
Em condições normais de pressão e temperatura, Ele
não precisa de classificações, a não ser eventuais,
dependentes de Sua postura aqui e acolá. Respeitem-no que Ele merece
pelo muito que fez pela humanidade.
Josué Machado
é jornalista e autor do livro Manual da Falta de Estilo (Ed. Best
Sellers)