Capacidade de se
manter em constante aprendizado dá apoio à amorosidade da
docência
Não é
à toa que nós exercemos, talvez, a única profissão
capaz de fazer alguém que não conhecemos tanto atravessar
a rua para nos cumprimentar. Você está andando em algum lugar
e, de repente, ouve: "Professora! Professor!". Atravessam a
rua para lhe cumprimentar, aí, param na sua frente e fazem aquela
pergunta difícil, como "lembra de mim?". Você já
imaginou? Às vezes a gente lembra e às vezes não.
"Professora,
uma vez você falou uma coisa que mudou a minha vida e eu nunca mais
esqueci." Pense nesse risco amoroso. Já imaginou o número
de pessoas que nós, professores, engravidamos com nossos sonhos,
desejos e equívocos? Se você, privilegiado, consegue dar
aula para apenas 200 alunos por ano em média, ainda assim ao final
de dez anos serão dois mil alunos.
Tem gente que faz
uma coisa ainda mais complicada: uma de suas ex-alunas pára na
sua frente e diz que hoje é professora por sua causa. Nessa hora
você fica olhando e pensa: "Mais uma louca. Pegou essa virose
que é a incapacidade de achar que as coisas são como são
e não há alternativa. Mais um que eu inoculei com a idéia
de que é possível mudar o modo como as coisas são.
Mais um que eu consegui impregnar com o sonho da dignidade coletiva".
Gosto muito de ouvir
a frase "professor, sabia que eu hoje sou professor por sua causa?".
Posso ouvi-la de dois modos: um deles é quando a pessoa diz isso
e eu penso que a decisão foi tomada por minha causa, isto é,
fui eu mesmo que causei. Mas há outro modo: "Professor, agora
nós temos a mesma causa".
Qual é a nossa
causa? Promover mais dignidade e fraternidade? Repartir amorosidade? Qual
é, realmente, a nossa causa? Pensar nisso continuamente é
sempre uma proteção ética.
Se a amorosidade é nossa força, existe também uma
fraqueza entre nós: essa amorosidade tem de ser mais competente,
não pode ser apenas baseada no desejo. Nem sempre refinamos a nossa
competência.
Projetos pedagógicos
coletivos, por exemplo, são uma forma de apoio à amorosidade;
outra maneira de apoio é o fortalecimento da gestão democrática
e a ação política consistente. Fico animado especialmente
com a possibilidade do uso da informática em todas as escolas,
não porque o computador resolva os nossos problemas, mas porque
é uma ferramenta poderosa para deixar nossa amorosidade mais competente.
Se há uma coisa
perigosa no setor educacional é a arrogância pedagógica.
Infelizmente, há muito professor ou professora que acha que já
sabe, que não precisa mais aprender ou - pior ainda - que acha
que não vai conseguir aprender.
Somos todos amadores,
em dupla acepção: gente que ama e que acha que não
está pronta ainda. Por isso aprendemos, todos os dias, porque somos
profissionais amadores. Essa a chama que precisamos manter viva.
Mario Sergio Cortella
é Professor de pós-graduação em educação
(Currículo) da PUC-SP.