PCNs prevêm discussão
da pluralidade cultural brasileira - mas professores não sabem tratar do
tema
Fazer com que os estudantes
tenham respeito e valorizem as diferentes características étnicas
e culturais brasileiras é uma das propostas dos Parâmetros Curriculares
Nacional (PCN). Segundo o documento, redigido em 1996, a escola deve contribuir
para a formação de indivíduos éticos e que entendam
a diversidade como fator fundamental de nossa sociedade. Mas essa diretriz ainda
não saiu do papel.
Segundo Regina Pahim Pinto,
pesquisadora da Fundação Carlos Chagas, o assunto ainda não
é desenvolvido de maneira sistemática, não fazendo parte
do cotidiano escolar. "Os PCN são um avanço, mas ainda não
chegaram à escola", afirma.
Trabalhando há mais
de quinze anos com os temas pluralidade cultural e étnica, a pesquisadora
conta que o documento é um passo importante porque faz a discussão
vir à tona. Mas até onde conseguiu apurar, os professores não
conhecem o capítulo do PCN que discorre sobre a questão ou apresentam
dificuldades para entendê-lo.
Na visão de Regina,
é necessário fazer um trabalho com os professores: "Precisamos
explicar aos profissionais por que esse documento foi elaborado e que por trás
dele há toda uma proposta. Não há outro caminho que não
seja conscientizar e dar ao professor condições para se atualizar",
diz, ao criticar o modelo que trata o professor como "uma máquina
de dar aulas", não lhe possibilitando tempo para refletir suas práticas.
A experiência da professora
Wania Pertrini confirma as considerações da pesquisadora. Formada
há 19 anos, a professora só se sensibilizou sobre o tema após
um curso oferecido, há dois anos, pela Geledés, organização
não-governamental que discute a participação da mulher negra
na sociedade. "Os livros que utilizamos para nossa formação
não abordam como o professor pode lidar com heterogeneidade de seus alunos",
lamenta.
O curso possibilitou que
a professora e seus colegas de trabalho passassem a implantar na Escola Municipal
de Ensino Fundamental Celso Leite Ribeiro Filho (região central de São
Paulo) um programa de discussão sobre pluralidade étnica e racial.
Mais do que elaborar projetos pontuais - como semana cultural e dias festivos
- a professora estimula a discussão desses temas a partir de polêmicas
levantadas pelos alunos durante as aulas.
"Pegamos como gancho,
por exemplo, atitudes de um aluno que utiliza fatores étnicos para ridicularizar
ou ofender seu colega, e assim desenvolvemos discussões sobre preconceito
e diferenças raciais", explica Wania. Com isso, os profissionais sensibilizam
as crianças a tomar atitudes positivas em relação às
diferenças raciais e, no caso de alunos vítimas do preconceito,
promover sua auto-estima e valorizar sua identidade.
Apesar de considerar seu
trabalho importante, a professora acredita que ainda há muito a ser feito.
"Os professores precisam de mais instrumentos para lidar com a questão.
Eles não se sentem à vontade para abordar esse tipo de situação
porque não têm tato, não têm experiência".
De acordo com Wania, os cursos são uma boa opção para que
seus colegas se sintam mais preparados para discutir o assunto com seus alunos.
Para Eliane Cavalleiro,
pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdiciplinares sobre o Negro Brasileiro
da Universidade de São Paulo, a formação do professor é
muito frágil. "Um estudante de pedagogia, durante quatro anos de curso,
não tem uma disciplina que analise consistentemente essa questão",
lembra. Em seu livro Do silêncio do lar ao silêncio escolar (Contexto,
110 pág. R$ 13,80), fruto de uma pesquisa de quase um ano em uma escola
pública, Elaine analisa a relação entre professor e aluno,
e constata a presença do racismo no cotidiano escolar, na forma de discriminação
e preconceito. "Pouco se trabalha com a questão de pluralidade, até
mesmo as que estão inseridas no interior da escola. Há um silêncio,
um não falar sobre a condição da criança negra, mesmo
que ela passe por dificuldades em seu cotidiano", denuncia.
Um diálogo coletado
pela pesquisadora e apresentado em seu livro mostra a que nível pode chegar
a discussão sobre diferenças raciais: "As crianças negras
têm essa cor porque são originárias da África, local
cujo sol é muito quente", afirmou uma professora aos seus alunos,
durante a aula. Segundo Eliane, essa é uma clara situação
de completo despreparo do professor para tratar do tema. A pesquisadora ainda
salienta que isso também é responsabilidade da escola ao se omitir
ante o problema étnico e permitir que se transmita esse tipo de conceito.
Outro ponto levantado pela
autora é a diferenciação do tratamento entre crianças
brancas e negras."Há professores que chegam a debochar e ironizar
as situações vividas pelo negro. O problema é que as crianças
passam a reproduzir as atitudes preconceituosas e discriminadoras", lembra.
Diante dessa situação,
Elaine acredita que é possível, dentro do ambiente escolar, propiciar
espaços de disseminação do respeito e valorização
da diversidade étnica e cultural. O primeiro passo é, segundo ela,
fazer com que professores reflitam sobre sua participação na legitimação
do racismo na sociedade. Paralelamente, realizar um trabalho em sala de aula para
que não pareça apenas um "discurso da boca pra fora",
evitando assim uma visão reducionista do tema.
"Não dá
para fazer um trabalho com cartazes no dia da consciência negra, por exemplo,
mas, no dia-a-dia, continuar não valorizando a participação
do negro na sala de aula, continuar evitando o contato físico com o aluno
negro. Não adianta somente um projeto que tente apresentar a diversidade
para o aluno. Nós precisamos de algo mais", ressalta Eliane.