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Anjos
caídos O lado sombrio, tirânico e agressivo do comportamento infantil só nos confirma que as crianças são, sim, normais Leia
Mais Quando pequena, eu e minhas amiguinhas aprendemos uma brincadeira interessante. Enterrávamos pequenos bichos ainda vivos. Eram tatus-bolinhas, desses de jardim. Enfeitávamos com flores a caixa de fósforos que fazia as vezes de caixão, espetávamos uma cruz sobre a cova e até pranteávamos o pequeno defunto. Coisa de crianças. Hoje sinto pena dos inocentes tatuzinhos, sacrificados para que eu e minhas coleguinhas pudéssemos aprender alguma coisa sobre a morte e o sentimento de perda. Mas lembro que alguns garotos da vizinhança iam mais longe: faziam experiências com sapos e, ocasionalmente, até gatos. Não costumava sobrar nenhum animalzinho inteiro. Isso foi há três décadas. Cenas como essas continuem acontecendo, mas ao lado dessas pequenas traquinagens, eventualmente ficamos perplexos diante de notícias que migram para os jornais. No dia 10 de fevereiro de 2000, por exemplo, a imprensa noticiou que teria alta no dia seguinte a garota M.D.N., de 7 anos, que tinha sido esfaqueada dias antes por seu vizinho, D.J.G., um menino de 9 anos, na cidade-satélite de Santa Maria, no Distrito Federal. Foram 40 facadas e nenhuma explicação convincente. Uma questão se coloca: tornamo-nos violentos ou a violência é inata? Em outras palavras: é possível chamar uma criança de má? Só formular essa questão já é algo difícil, que suscita protestos. Mas, aqui e ali, despontam as iniciativas para tentar respondê-la. Como a que aconteceu em fevereiro passado, num dos debates da série Diálogos Impertinentes, promovida pela PUC-SP, Sesc e jornal Folha de S. Paulo. Para discutir "A Maldade" foram convidados o médico Drauzio Varella e o rabino Nilton Bonder. Boa parte da discussão girou em torno da hipótese de a maldade ser ou não um componente genético do homem. "Essa palavra, genética, é um guarda-chuva para uma grande quantidade de mal-entendidos e não a aprecio tanto. O que eu acho é que existe uma base natural para a maldade, e ela precisa ser entendida em termos darwinianos. Para a evolução, interessa aqueles capazes de sobreviver e de deixar descendentes; nesse caminho que a evolução seguiu, a violência tem um papel preponderante", ressaltou Varella. Nilton Bonder, embora sem dizer se isso é genético, acredita que seja um componente da existência humana: "Parte da estrutura da sobrevivência contém o que chamamos de violência. No entanto, é preciso distinguir violência de maldade. A violência inevitável, quando necessária para sobreviver, não é maldade. A maldade é a violência evitável, exercida desnecessariamente". Um cuidado que se deve ter ao penetrar nesse assunto é com o preconceito do rótulo. Na opinião da psicanalista Suely Gevertz, ao se chamar uma criança de malvada acaba-se dando conotação moral aos seus atos, mas não importância a eles em termos de significado. E aí se perde a complexidade da situação humana. Ou seja, "o rótulo mascara o que de fato está acontecendo com a criança". E pode estigmatizá-la. Parece fácil chamar de má uma criança que bate nos amiguinhos, que maltrata animais, que destrói brinquedos e outros objetos propositalmente. Mas Suely aconselha a tentar descobrir se ela está usando tais atitudes com o objetivo de chamar a atenção para si (e por qual motivo agiria assim) ou se esse comportamento é uma forma de contrariar o adulto. Além da observação atenta, descobrir essas possíveis motivações requer uma conversa direta com o pequeno. O psicólogo Achim Hermann Fuerstenthal, um dos pioneiros da profissão no Brasil, argumenta que o sadomasoquismo é uma tendência natural do ser humano, que pode se mostrar desde a infância, dependendo da influência do ambiente. Para ele, uma prova disso é a própria civilização: "A civilização é a modificação do ambiente natural, que passa por uma destruição para que se construa algo. Como no trabalho do carpinteiro, que devasta uma floresta para fazer mesas e outros utensílios". Ele também acredita que o homem não sobreviveria se não fosse naturalmente destrutivo e agressivo. E que isso pode ser usado de forma positiva. Na criança o problema surgiria quando ela deixa de aplicar essa agressividade em algo construtivo, de forma livre, lúdica e fantasiosa. O psicanalista Sigmund Freud (1856/1939) postulou numa de suas obras mais importantes, A Interpretação dos Sonhos (Imago, 780 págs., R$ 60), que "as crianças são completamente egoístas; sentem suas necessidades intensamente e lutam de maneira impiedosa para satisfazê-las - especialmente contra os rivais, outras crianças e, acima de tudo, contra seus irmãos e irmãs. Mas nem por isso chamamos uma criança de 'má': dizemos que ela é 'levada'; ela não é mais responsável por suas maldades em nosso julgamento do que ante os olhos da lei. E é certo que seja assim, pois podemos esperar que, antes do fim do período que consideramos como infância, os impulsos altruístas e a moralidade despertem no pequenino egoísta e um ego secundário se superponha ao primário e o iniba". Freud descobriu que a instalação da moral não segue um padrão rígido de tempo, variando de indivíduo para indivíduo. Quando essa moral deixa de se desenvolver, costuma-se falar em "degeneração", embora de fato se esteja diante de uma inibição do desenvolvimento. Só nesse caso a inocência cruel das criancinhas, como cantou Cazuza, deixa de ser natural e passa a merecer mais atenção. Em seus estudos o psicanalista austríaco pôde observar que o desejo de ter só para si o amor da própria mãe e gozar os prazeres de ser o centro de suas atenções é o que desperta o sentimento, absolutamente natural, de hostilidade do filho mais velho com relação aos irmãos mais novos. Até o ponto de realmente desejar a morte do rival ou mesmo do coleguinha mais forte. Parece chocante, mas o que poucas vezes se leva em conta é a grande distância que a morte tem de significado para um adulto e para uma criança. Para os pequenos, a morte tem quase o mesmo significado de "ir embora", e não importa o modo como essa ausência é provocada, se por uma viagem, demissão, separação ou morte. Portanto, o "eu vou te matar" dito por uma boca infantil nem de longe corresponde a uma ameaça fatal. Por várias razões, fica claro que o primeiro passo a ser dado diante do que alguns poderiam chamar de maldade infantil é "limpar" os preconceitos e interpretações errôneas dos adultos. E perceber que todo ato infantil pertence a um contexto, que deve ser entendido. É o que aconselha o médico e psicanalista Raul Gorayeb, coordenador do grupo de psiquiatria infantil da Universidade Federal de São Paulo. "A criança é fruto de uma relação com os pais, os professores, a sociedade", afirma. Ele alerta que algumas correntes que atribuem à genética o comportamento maldoso não encontram base científica nenhuma para se apoiar. Gorayeb não deixa também de estar atento à possibilidade de algumas perturbações no comportamento infantil serem causados por várias formas de distúrbio mental. O que se torna ainda mais provável quando ocorrem mudanças bruscas na forma de agir da criança. Só os extremos são sempre preocupantes. Uma criança extremamente boa, acanhada, que não reage à provocação, pode ser tão grave quanto o oposto. No saudável meio termo está quase todo mundo que é ou já foi criança um dia. Fanny Abramovich é a organizadora de O Sadismo da Nossa Infância (Summus, 158 págs., esgotado), um livro em que psicólogos, médicos, teatrólogos, educadores e escritores recriam fatos de sua infância. Nos textos em tom de confissão, uma variada mostra do quanto a verde inocência pode conviver com o sadismo. Os relatos estão repletos de pura "marvadeza", como diz Fanny. O teatrólogo Naum Alves de Souza conta no livro algumas de suas travessuras de criança. Gostava de fazer uma ilha de terra no quintal cercada de água ou de álcool (para poder atear fogo depois) e encher a ilha de formigas e minhocas. A delícia era observar a correria dos bichinhos depois. Sylvia Orthof, que se auto-apresenta no texto como uma senhora grande, de óculos e jeito respeitável, vingou-se da filha de uma amiga da família com quem não simpatizava. Certo dia, sendo obrigada a passear de bicicleta levando a outra no selim, não pensou duas vezes antes de planejar o tombo kamikaze. Não sem antes fazer a menina escolher entre cair numa pedra ou num buraco. "Ela ficou toda ralada, chorando alto. Eu, pingando sangue do nariz, sorria, no auge da felicidade." Lucy Casolari e Fernanda Maria Garrafa Rocha Campos são orientadoras educacionais de uma empresa de consultoria pedagógica chamada Vercrescer. Por força da profissão, acabam tendo de lidar com as situações mais problemáticas que surgem na escola. "A criança, de modo geral, tem um lado cruel. E é ensinada a mudar esse comportamento", diz Lucy. "Elas são muito perspicazes, pegam exatamente o ponto fraco do outro, para fazer piadinhas, por exemplo. São implacáveis nas brincadeiras e nas punições quando acham que o outro está errado. Quando o erro é alheio, pensam em banir o culpado, expulsar da escola. Mas são extremamente dramáticos ao se colocarem no papel de vítimas", completa Fernanda. Inverter a situação e se colocar no lugar do outro é uma forma de exercitar a flexibilidade de julgamento e o senso ético. O que acontece mais facilmente a partir dos 7 anos, quando a criança começa a sair do seu foco egocêntrico. Muitas vezes, é a própria família que prejudica ou impede esse exercício, quando insiste em fixar o filho no lugar do coitadinho. É nessa situação que fica mais claro: o problema não tem origem na criança, mas na dinâmica familiar. Se o núcleo original ostenta um comportamento caótico, em que imperam brigas, gritos, agressões, esse tipo de atitude acaba sendo interpretado pela criança como o normal. Da mesma forma como o padrão de uma outra família onde todo mundo é apático. Quando se torna possível para a escola perceber que a inadequação da criança deriva de tais distorções, também acaba competindo a ela a tarefa de chamar a atenção para o quadro. Num diálogo que deve se iniciar com os pais. O que se percebe é que, a partir do momento em que se olha para a criança com respeito, por mais problemático que seja seu comportamento, até os pequenos gestos ajudam a conquistá-la. Solicitar sua cooperação, pedindo-lhe que apague a lousa, por exemplo, pode ser uma maneira de estabelecer um vínculo e de dizer que ela é importante. "Até a quarta série esse trabalho de observação é mais fácil, porque o professor é polivalente e fica mais tempo com cada turma. Senão, o problema explode na adolescência e fica bem mais difícil resolver", analisa Norma Leite Brandão, orientadora pedagógica que também integra a equipe do Vercrescer. A psicopedagoga Clélia Pastorelo lembra que não é só no banco da escola que se tem a oportunidade de educar. E se a criança tem problemas, o trabalho inclui os pais. "Não se faz trabalho clínico sozinho. O adulto está implicado nas necessidades da criança", argumenta. Até porque, em geral, a angústia parte dos pais. A percepção de que uma criança pode estar atuando num campo perverso pode ser vislumbrada a partir da forma como ela se relaciona com seu meio físico e social. O adulto pode então intervir estimulando ou estabelecendo um vínculo que a ampare. Fritz Redl, um dos principais especialistas modernos em reeducação nos EUA, e David Wineman escreveram dois livros que foram recentemente traduzidos no Brasil pela Martins Fontes: A Criança Agressiva (238 págs., R$ 22) e O Tratamento da Criança Agressiva (282 págs., R$ 27). Falam sobre as crianças que ninguém quer, extremamente agressivas e que manifestam ódio pelos colegas e adultos. E a dificuldade de família e instituições em lidar com a situação. O Colégio Graphein é uma instituição que se especializou em receber os "casos-problema". Muitos alunos chegam ali depois de experiências traumáticas em outros lugares, quando já fizeram tudo que achavam ser possível e nada resolveu. É o estigma. Pode decorrer de uma falta de flexibilidade da escola, mas é o aluno quem fica marcado. Mirtis Firmo Leal, pedagoga e assistente de direção do colégio, conclui que quando se fala em maldade, se fala a partir do olhar do outro. "Já existe uma crítica quando se diz 'foi malvado o que você fez'". Podia apenas se tratar do único recurso da criança para reagir a uma situação. Norma Brandão aponta um outro aspecto. Observa que hoje, apesar de a garotada receber uma quantidade enorme de informação e dominar recursos como a informática, ela não tem sido estimulada a exercer as regras mais elementares da boa convivência, que vai desde uma boa relação com o funcionário até bater na porta antes de entrar. As crianças, para extravasar, seguem fazendo suas pequenas maldades. Chamam a grandalhona de girafa e a gordinha de baleia. "A criança tem uma percepção muito intuitiva, e sabe que se fizer isso vai acabar com a outra. Ela está sendo má. Mas isso não significa essa maldade que a gente toma com consciência adulta. O problema é que, na nossa cultura, foi ensinado que não devemos ser maus, devemos ficar bonzinhos para ficar perto de Deus. E fica difícil aceitar socialmente sentimentos como a raiva e a inveja", diz a psicoterapeuta junguiana Liriam Estephano. Para entender melhor essa dicotomia entre bem e mal, Liriam nos convida a pensar no desenvolvimento de um bebê, que nasce sem consciência da existência do outro. Ele só sabe que existe o bom e o mau. Tem hora que a mãe vem e o sacia e outras em que ele se esgoela e a mãe não vem. A mãe ruim, que não vem quando ele chora causa frustração e ele precisa ir aprendendo a lidar com isso. Aos poucos, começa a perceber que a mãe boa e a mãe ruim são a mesma mãe, e também precisa aprender a lidar com o conflito. Mais tarde, quando puder ouvir ou ler os contos infantis isso poderá ajudá-lo a elaborar melhor tais conflitos Enquanto não digere a situação, fica oscilando entre a docilidade e a fúria. Uma hora chama a mãe (e os amiguinhos, a professora, as tias etc.) de chata e de bruxa, diz que odeia. Depois chama para brincar e diz que a adora. Não é só a criança que fica confusa com o paradoxo, mas, principalmente, o adulto. Nos habituamos a olhar para a face da inocência como se não guardasse um lado direito e um esquerdo, um claro e um escuro. Esquecemos que na contrapartida do amor e da doçura existe sempre a sombra e o obtuso. A psicanalista norte-americana Jane G. Goldberg diz à certa altura do seu livro Tenho Raiva (Mercuryo, 312 págs., R$ 34,50) que "o ódio é construtivo quando usado na autodefesa, e é uma reação vital necessária. Torna-se patológico somente quando fundido com necessidades infantis não satisfeitas, e destrutivo somente quando se traduz em ação." Não é à toa que, como bem observou o filósofo Immanuel Kant (1724/1804), o choro de um recém-nascido não tem o tom de um lamento, mas de fúria. Da mesma forma, ao longo de seu desenvolvimento, é impulsionado pela raiva e pela amargura da separação que o bebê começa a entender sua própria individualidade. Num processo que vai se repetindo em inúmeras e dolorosas separações. Poder expressar os sentimentos ditos ruins deveria ser um direito assegurado a qualquer criança. Como não pode, porque está o tempo todo muito ocupada em ser boazinha para ganhar o amor e a compreensão dos adultos, é possível que conheça momentos de crise, em que todo ódio e frustração acumulados terão de explodir de alguma forma. E aí é a vez de pais e professores não saberem como lidar com a ambigüidade. Trabalhar com o instinto agressivo e direcioná-lo para algo lúdico e criativo é o conselho do psicólogo Fuerstenthal. Os jogos esportivos, principalmente em grupo, e as atividades artísticas são formas bastante positivas de redirecionar o excesso de energia. Além da descarga física, é preciso aprender a verbalizar as emoções. E a primeira escola a ensinar deve ser a família. Liriam ajuda a derrubar um mito: o do casal feliz. Todo mundo tem a impressão de que crianças felizes crescem em lares harmoniosos 24 horas por dia. A proeza não é só impossível, é inviável. "O estereótipo do casal feliz é extremamente infeliz. Eu tenho que discutir com meu marido. A raiva não demonstrada tem conseqüências ruins. Porque ela existe mas é engolida. Essa é uma das razões para as doenças psicossomáticas. Não é fácil digerir o ódio engolido". Nada mais natural que resultar numa gastrite. As pessoas sádicas, por seu lado, também não aprenderam a lidar com a agressividade. Precisam fazer o outro sofrer para se livrar do ódio que carregam. Enquanto isso, fica todo mundo acreditando que o amor só constrói. Mas ele também pode destruir. "A família feliz, de comercial de margarina, leva à mesmice, não ao crescimento", enfatiza Liriam. O passo decisivo para estabelecer um mínimo de harmonia no convívio com crianças de trato difícil é saber impor limites. E nisso, os especialistas são unânimes. Pais e escola só conseguem isso quando os critérios primeiramente estão estabelecidos. E de forma muito clara. Depois disso, é imprescindível comunicar esses critérios para a criança. Não como um estatuto fechado, mas com paciência, respeito e diálogo. Na opinião de da psicóloga alemã Jirina Prekop, autora de O Pequeno Tirano (Martins Fontes, 232 págs., R$ 24,50), as mães de hoje, por não se sentirem livres das pressões, permitem tudo aos seus filhos. Assim, ao invés de aliviar o impulso agressivo deles, permite que este cresça. A educação da "não-frustração", como ela chama, acabou produzindo milhares de crianças neuróticas e infelizes. O antídoto está em oferecer amor e carinho autênticos. Lendas e contos de fadas são instrumentos fundamentais para a criança trabalhar com seus instintos agressivos Há algum tempo psicólogos e educadores vêm descobrindo que contar histórias para as crianças pode ter uma função muito mais ampla que o entretenimento. Sheldon Cashdan, Ph.D., professor emérito de psicologia na Universidade de Massachusetts, em Amherst (EUA), escreveu sobre isso em Os 7 Pecados Capitais nos Contos de Fadas (Campus, 316 págs., R$ 39). A sobreposição de bem e mal com que a criança tem de aprender a conviver desde cedo resulta para ela em muita confusão e ansiedade. "Assim, a única forma de as crianças pequenas lidarem com esse perturbador estado de coisas é 'dividindo' mentalmente a mãe em duas entidades psíquicas distintas: uma gratificante 'mãe boa' e uma frustrante 'mãe ruim'", explica o autor. Com o tempo, essas duas representações maternas acabam por se transformar nas partes boa e ruim da percepção do próprio "eu" que a criança desenvolve dentro de si. Essas duas partes estão também representadas nos contos infantis e ganham vida em personagens como a boa fada madrinha e a bruxa má. Não é à toa que a garotada torce pelo triunfo do bem sobre o mal que, a rigor, passam a representar o triunfo de sua parte boa sobre sua parte má. Esse tipo de interpretação pode ser interessante para o adulto, mas não teria sentido nenhum ser transmitida para o pequeno ouvinte ou leitor. A sua elaboração é um processo interno, que pode ser lento e exigir muitas repetições. "Às vezes a gente fala: "Vou contar a história da bela adormecida", e a criança diz: "Eu quero ouvir Chapeuzinho". Cada história coincide com um tipo de conflito interno que ela está tendo resolver", diz a psicóloga junguiana Liriam Stephano. O psicólogo Ilan Brenman é contador de histórias há oito anos e acredita que esta é uma forma de canalizar a energia destrutiva e agressiva que toda criança tem: "O famoso psicanalista [Bruno] Bettelheim dizia que não é legal a criança se identificar com o personagem ruim. Eu acho o contrário. Assim, é possível descarregar esse tipo de energia na bruxa". Carolina Costa Especialistas buscam nos grandes primatas as origens da agressividade humana "Quando viu os oito intrusos, eles já estavam junto de sua árvore. Deu um salto e correu, mas seus perseguidores correra, atrás dele (...). Humphrey alcançou-o primeiro, agarrando-lhe uma perna. Desequilibrado, Godi tropeçou em seguida. (...) Enquanto Humphrey o segurava, os outros machos atacaram. (...) Passados 10 minutos, Humphrey soltou as pernas de Godi. Os outros pararam de bater nele. Godi ficou deitado na lama, de cara para baixo, e lhe jogaram uma grande pedra em cima. (...) Sangrava por dezenas de talhos, cortes e perfurações." Humphrey e Godi não
são nomes de pessoas, mesmo que essa terrível narrativa se assemelhe
a qualquer descrição de uma briga entre humanos. São jovens
chimpanzés, cujos comportamentos violentos até então eram
vistos pela ciência como mera ficção. A
volta do parafuso O primeiro mérito de Hanry James em A volta do parafuso (Ediouro, 220 págs., R$ 20) é manter o leitor no mesmo suspense que ele cria entre os personagens. O tempo todo fica-se na eminência de que algo terrível irá acontecer. E de que alguém ou algo misterioso pode produzir esse mal. Mas tudo é difuso. Custa, inclusive, deduzir se as crianças da trama são vítimas ou as invocadoras do mal demoníaco lançado por espectros. A mesma incredulidade presente na história em acreditar que semblantes tão angelicais possam esconder algo de ruim assoma ao leitor. No decorrer da trama, o contraste entre o impacto da visão desses espectros e a inocência de quem os vê tem o poder de amplificar a dúvida. Como crianças tão doces, inocentes e belas poderiam causar mal a quem quer que fosse? Descobrir a resposta é instigante e impele a chegar ao fim da leitura sem interrupções. Ao final se descobre que, muito mais do que o autor diz nas páginas, impressiona muito mais o exercício de imaginação que incita com suas inteligentes lacunas e não ditos. A pior maldade é sempre a que está por vir. E, nesse ponto, talvez se possa ousar traçar um paralelo com a inocência que ainda não desabrochou e que tanto pode guardar as maravilhas quanto os horrores de um futuro desconhecido. Caso real alerta sobre a origem de comportamento tirânico na educação familiar Bárbara é filha de uma adolescente cujo namorado não quis assumir a paternidade da criança. Criada pelos avós maternos, a menina confundia os vínculos familiares. Chamava o avô de pai a avó de mãe, e a mãe verdadeira... bem, algumas vezes sabia que era a mãe mesmo, em outras ocasiões ficava em dúvida e olhava para a avó. Tinha constantes gripes, pneumonias e alergia. Na escola foi extremamente tirana. Aos dois anos de idade não quis freqüentar a escolinha, como desejava a família. Armou o maior berreiro na porta. A mãe cedeu. Dois anos depois, nova tentativa. A criança aceitou no início, mas teve problemas de adaptação. Voltaram os berreiros, os choros, os escândalos na rua, com tentativas de tirar a roupa em público. Em casa ninguém segurava. Batia em todo mundo, incluindo avós e a mãe. É um caso típico de falta de tato para lidar com a situação. Ninguém contou a verdade sobre os vínculos da criança e a mãe, ainda na flor da idade, trocava a companhia da filha por passeios com os amigos. A menina percebia a desatenção e revidava com birras, "jogando" com quem cedia. Tudo era um jogo subliminar onde os avós, com seus mimos, se faziam de bonzinhos para que a criança gostasse mais deles. Após um período de terapia, a mãe finalmente assumiu o seu papel. A mãe foi a paciente na clínica psicológica, não a criança, que sofria de doenças psicossomáticas e manifestava comportamentos agressivos. Era uma pequena vítima do comportamento dos adultos. A psicóloga percebeu que o problema estava na família e trabalhou com essa hipótese. E deu certo. Quando ficou mais clara a função de cada um na família - avó é avó, avô é avô, mãe é mãe - cada um com responsabilidades definidas, a criança foi se acalmando. Comportamentos que sugerem problemas de fundo psiquiátrico ou neurológico, que devem ser tratados por especialistas Hiperatividade - Caracterizada pela falta de atenção e inquietação. Precisa ser bem diagnosticada e tratada por médico. Uma criança pequena pode ser agitada e não necessariamente hiperativa. Neurose - Manifestam comportamentos resultantes de traumas pessoais. Surpreendem o interlocutor porque dependem muito mais do mundo interno pessoal. Quando o professor pede à classe "silêncio, por favor", o aluno neurótico pode reagir: "Você não é meu pai para mandar em mim". O aluno não viu o professor, mas o pai projetado nele e respondeu para o pai - cuja relação é fruto de algum trauma. Psicose - O psicótico elabora qualquer estímulo recebido conforme a sua patologia e reage de forma inadequada. Se o professor pede silêncio à classe toda, o psicótico interpreta o pedido como uma perseguição à sua pessoa e reage até com agressões físicas. É perigoso. O psicopata não respeita os outros, nem as regras sociais. Maníaco-depressivo - Os maníacos não conseguem ficar em silêncio na classe porque estão submetidos a uma agitação psicomotora incontrolável. Epilepsia - E outras doenças transformam seus portadores em agitados, apressados, briguentos, não param quietos. Inteligentes, terminam as tarefas antes dos outros e, como não agüentam esperar, acabam tumultuando a aula. Deficiência mental
- Seus portadores apresentam menor capacidade de entender as regras e suportar
frustrações, além de controlar menos a agressividade e impulsividade.
Broncas, castigos ou expectativas excessivas só servem para deixá-los
tensos. Como lidar com a tirania infantil de maneira prática · Defina claramente
os limites, que devem ser estabelecidos em critérios fáceis de serem
entendidos pela criança;
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