Fernando Azevedo ajudou
a colocar a educação como prioridade na agenda nacional
Educador, ensaísta, e sociólogo, Fernando de Azevedo (1894-1974)
foi o principal introdutor das concepções do sociólogo francês
Émile Durkheim (1858-1917) no Brasil. Durkheim pretendeu dar um sentido
positivo à sociologia e procurou demonstrar a possibilidade de uma ciência
objetiva da sociedade, semelhante às ciências naturais. Em decorrência
de suas idéias a respeito do homem e da sociedade, o sociólogo francês
acreditava que a educação deveria ter como objetivo integrar os
indivíduos, situação em que teriam consciência das
normas de conduta social e do valor da coletividade a que pertencem.
Durkheim achava que o sistema
educacional moderno ainda tem necessidade da disciplina própria da vida
em sociedade, mas que essa disciplina deve deixar espaço para a autonomia,
a reflexão crítica e a capacidade de escolha. Fernando de Azevedo,
em Princípios de sociologia, publicado em 1935, faz a primeira explanação
sistematizada e crítica das idéias sociológicas para professores
e estudantes no país. Nesse trabalho, discute, entre outros, temas como
a natureza objetiva dos fatos sociais, a constituição de uma ciência
particular do social, a luta pela autonomia da sociologia como ciência e
as grandes correntes do pensamento sociológico. O mestre Durkheim é
o único a merecer capítulo próprio, além de citações
em outros.
Politicamente conturbado
com a eclosão da Revolução Constitucionalista em São
Paulo, o ano de 1932 é decisivo na carreira de Fernando de Azevedo. Neste
ano, ele é convidado a redigir e ser o primeiro signatário do Manifesto
dos pioneiros da Educação Nova, dirigido à Nação
e ao governo Vargas, documento que colocou a educação como o problema
nacional de maior importância, acima dos problemas econômicos nos
planos de reconstrução do país.
Pela primeira vez, afirmava-se alto e a bom som que "é impossível
desenvolver as forças econômicas ou de produção, sem
o preparo intensivo das forças culturais e o desenvolvimento das aptidões
à invenção e à iniciativa, que são os fatores
fundamentais do acréscimo de riqueza de uma sociedade."
Em relação
ao Estado, o Manifesto estabelecia a função essencialmente pública
da educação; a garantia de acesso à educação
dos cidadãos em condições de inferioridade econômica;
a laicidade, gratuidade e obrigatoriedade da educação; a proibição
de separação de sexo entre os alunos; a autonomia da função
educacional; a proibição de influências religiosas, políticas
e partidárias sobre o processo educacional.
O Manifesto termina com
o parágrafo: "Mas, de todos os deveres que incumbem ao Estado, o que
exige maior capacidade de dedicação e justiça e maior soma
de sacrifícios; aquele com que não é possível transigir
sem a perda irreparável de algumas gerações; aquele em cujo
cumprimento os erros praticados se projetam mais longe nas suas conseqüências,
agravando-se à medida que recuam no tempo; o dever mais alto, mais penoso
e mais grave é, de certo, o da educação que, dando ao povo
a consciência de si mesmo e de seus destinos e a força para afirmar-se
e realizá-los, entretém, cultiva e perpetua a identidade da consciência
nacional, na sua comunhão íntima com a consciência humana."
Entre os signatários estão educadores e intelectuais como Anísio
Teixeira, Lourenço Filho, Cecília Meireles, Júlio de Mesquita
Filho, Hermes Lima, Paschoal Leme, Afrânio Peixoto e Heitor Lira.
A partir do Manifesto, o
grupo de educadores formado por Fernando de Azevedo, Anísio Teixeira e
Lourenço Filho - já identificados com os princípios da Educação
Nova -, é violentamente atacado por conservadores e católicos. O
crítico Alceu de Amoroso Lima, na época representante do conservadorismo
católico, denunciou "o baluarte vermelho em que vão transformando
os nossos meios pedagógicos superiores" e classificou de "bolchevismo
intelectual" e de "pré-soviética" a pedagogia preconizada
pelos idealizadores da Educação Nova.
Quando redigiu o Manifesto
dos pioneiros da Educação Nova, Fernando de Azevedo, formado em
Direito pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco (hoje integrante
da USP), já havia sido professor de latim e psicologia no Ginásio
do Estado em Belo Horizonte e na Escola Normal de São Paulo (futura Escola
Normal Caetano de Campos, a "Escola Normal da Praça", referência
à praça da República, onde estava situada, local que hoje
abriga a Secretaria da Educação do Estado) e dirigido o Departamento
de Instrução Pública do então Distrito Federal (RJ),
onde orientou a reforma do ensino de 1926 a 1930.
Antes de ir de São
Paulo para o Rio, Fernando de Azevedo engordava o salário de professor
como redator e crítico literário do jornal O Estado de S.Paulo,
no qual colaborou durante toda a vida. Em 1926, organizou e dirigiu dois inquéritos
para O Estado - um sobre arquitetura colonial, outro abordando a educação
pública no Estado. Já neste inquérito, iniciou campanha por
uma nova política de educação, que iria desaguar no Manifesto,
e pela criação de universidades no Brasil. As reformas no ensino
paulista iriam ser concretizadas em 1933, com a elaboração e implantação
do Código de educação, levadas a efeito quando assumiu a
Direção Geral da Instrução Pública no Estado.
O convite a Fernando de
Azevedo para redigir o Manifesto deveu-se à notoriedade que adquirira não
só pela intensa atividade desenvolvida nos meios educacionais, mas também
pelo papel relevante que vinha exercendo como um dos dirigentes da Companhia Editora
Nacional, à época uma das principais casas editoriais do país.
Na Nacional, como era conhecida, Fernando de Azevedo criou e dirigiu a Biblioteca
Pedagógica Brasileira (BPB), selo editorial do qual faziam parte a série
Iniciação científica, que publicava textos inéditos
na área científica, e a Brasiliana, a primeira coleção
de estudos brasileiros do país, de alto nível.
Anísio Teixeira,
também signatário do Manifesto e já educador respeitado,
afirmou que a Brasiliana era destinada a "descobrir o Brasil aos brasileiros".
Fernando de Azevedo permaneceu no comando da Brasiliana por mais de 15 anos, revelando
ao grande público cronistas do século XVI e XVII; "naturalistas
e viajantes estrangeiros cujas obras constituíam privilégio de iniciados";
historiadores do século XIX, como Adolfo de Varnhagen, e pensadores como
Tavares Bastos; mestres da cultura do século XX, como Capistrano de Abreu,
João Ribeiro, Pandiá Calógeras, Manuel Bonfim, Celso Garcia
e Afonso Taunay; escritores como Sílvio Romero e Euclides da Cunha; desbravadores
do território nacional como o Marechal Rondon e muitos outros. Os textos,
em grande parte inéditos, eram acompanhados de ensaios introdutórios
assinados por especialistas de renome, prática editorial ainda desconhecida
no Brasil.
Outra grande aventura intelectual
de Fernando de Azevedo foi a participação na criação
da USP, em 1934, ao lado de Júlio de Mesquita Filho, Armando Sales de Oliveira,
Almeida Júnior, Vicente Rao, Rocha Lima e outros. Mais tarde, entre 1941
e 1942, ele seria diretor da então Faculdade de Filosofia, Ciências
e Letras da USP.
No campo da historiografia,
Fernando de Azevedo publica, em 1943, A cultura brasileira, obra na qual assume
uma visão marcadamente nacionalista dos problemas do Brasil. Nesse trabalho,
elogia o "espírito nacionalista" da Constituição
de 1937, que institucionalizou a Estado Novo no país e deu poderes ditatoriais
ao presidente Getúlio Vargas.
A Revolução de 1930, chefiada por Getúlio Vargas, havia,
de fato, dado impulso à reforma do ensino no Brasil, a começar pela
criação do Ministério da Educação e Saúde.
Mas, a despeito dos elogios feitos em seu livro, Fernando de Azevedo criticou
severamente o então ministro da educação, Gustavo Capanema,
por ter dado ao curso secundário um caráter elitista. Inspirado
na reforma educacional realizada na Itália fascista por Benito Mussolini,
Capanema deu nova direção ao curso secundário, agora voltado
para a "formação de personalidades condutoras", ou seja,
de elite, e organizou um currículo baseado em humanidades, repleto de línguas
como latim, grego e francês.
No Estado de São
Paulo, Fernando de Azevedo ocupou a Secretaria da Educação e Saúde
em 1947 e a Secretaria de Educação e Cultura no governo do prefeito
Prestes Maia, em 1961.
Bibliografia
Autor de obra numerosa,
Fernando de Azevedo escreveu, entre outros, Ensaios - Crítica para o jornal
O Estado de S.Paulo (1924-1926); Novos caminhos e novos fins - A nova política
da educação no Brasil (1935); Canaviais e engenhos na vida política
do Brasil (1948); A educação e seus problemas (1952); As ciências
no Brasil (1956); Princípios de sociologia (1958); e Sociologia educacional
(1959).