A infância pertence
a um universo aparentemente sereno, difuso, recoberto de impressões etéreas,
em que a inocência é um atributo inquestionável. Essa visão
paradisíaca sobre os primeiros anos de vida é, no fundo, um dos
mais sutis e eficientes instrumentos que os adultos encontraram para encarcerar
os pequenos em um mundo de opressão e controle. O cineasta francês
Jean-Luc Godard denunciou essa conspiração: "As crianças
são prisioneiras políticas dos adultos", afirmou, implacável.
Apesar de todas as revelações
da psicanálise e das ciências cognitivas, a mitificação
da infância continua. É um processo obscurantista, cuja base é
a ignorância e o medo de enxergar nos pequenos a inescapável condição
humana - que os torna falíveis, inseguros, mortais. Em vez de preservar,
essa visão turva a própria imagem que define a infância e
suas particularidades.
Esta revista se esforça
em manter a mais profunda honestidade intelectual. Acreditamos na inteligência
do nosso leitor e em seu compromisso de exercer o papel de educador de forma séria
e conseqüente. Assim como já dedicamos nossas páginas ao fantástico
mundo dos contos de fadas ou à questão da indisciplina, fomos o
primeiro veículo de comunicação a descrever com coragem a
terrível realidade da depressão infantil. Nesta edição,
nos propomos outro desafio - o de, com cuidado, vasculhar a "face oculta"
da pureza. Investigá-la, na verdade, é enxergar do que somos feitos
- nós, que já fomos crianças.