Especialista francês
sugere que professores troquem "falsas medidas" por "avaliação
formativa" da aprendizagem
Ao avaliar seus alunos, boa parte dos professores parece ter se rendido à
burocracia do sistema educacional. Aplicam provas e solicitam trabalhos, em muitos
casos, apenas em virtude da exigência de que um número ou conceito
seja associado ao desempenho de cada estudante ao final de um período letivo.
O francês Charles Hadji prefere valorizar outro modelo de avaliação,
que chama de "formativa", voltada para o conhecimento mais aprofundado
de cada aluno e, por conseqüência, para a melhoria da aprendizagem.
Doutor em filosofia, ele trabalhou durante toda a carreira com a formação
de professores. Autor de diversos livros sobre práticas de avaliação
e processos de aprendizagem, ele é diretor do departamento de ciências
da educação da Universidade de Grenobles II. Hadji esteve em outubro
no Brasil para participar de seminário promovido pela Escola da Vila, de
São Paulo, e lançar em português duas de suas obras, Avaliação
desmistificada (136 págs., R$ 21) e Pensar & agir a educação
(159 págs., R$ 24), ambas pela Editora ArtMed.
Educação
- No Brasil, há uma discussão muito forte sobre avaliação
escolar. Ocorre o mesmo na França?
Charles Hadji - Sim, é um importante tema de discussão e
de debate, talvez não nas mesmas circunstâncias e não pelas
mesmas razões que no Brasil. Pelo que sei, vocês estão à
frente em relação a nós. Na França, ainda não
existe uma avaliação de escolas, alunos e professores de nível
universitário. Existe um projeto que anda vagarosamente, e do qual muito
se fala, na tentativa de despertar interesse na comunidade formada pelos professores
universitários. Estamos atrasados em comparação a outros
países da Europa, como a Suíça, onde há um sistema
de avaliação universitária muito sólido, e a Itália.
Nós também estamos atrasados com relação ao Canadá.
Educação
- Quais as posições antagônicas?
Hadji - No que diz respeito à avaliação dos alunos,
o debate ocorre em dois níveis. No primeiro, o grande público discute
as avaliações dos especialistas qualificados, os alunos de baccalauréat
[formação profissional pré-universitária]. As pessoas
questionam o seu peso, a sua utilidade. E há uma forte pressão social
para que esse exame nacional traduza o nível dos estudantes no final dos
estudos secundários, pois atualmente seu objetivo é avaliar somente
o curso. O segundo plano de discussão envolve a preocupação
com o aspecto pedagógico. Ele interessa, acredito, a todos os professores,
mas somente uma pequena parte deles compreende que a avaliação pode
ser um instrumento pedagógico a serviço do êxito dos alunos,
do desenvolvimento dos indivíduos e, portanto, da sociedade, e da transformação
radical do sistema social. É a avaliação formativa.
Educação
- Quais as características desse modelo de avaliação?
Hadji - A educação pertence a um domínio que não
tem fim, interminável. É um erro acreditar que suas ambições
e objetivos podem ser realizados plenamente. Bem, é aí que pode
funcionar a avaliação formativa. Não há instrumentos
específicos para ela. O que a caracteriza é a vontade de colocar
seu tempo e suas atividades a serviço da aprendizagem. Estar atento ao
que os alunos fazem, verificar se eles têm dificuldades na sala de aula,
levá-los a refletir sobre elas. A avaliação formativa é
o ideal que contribui para regular nossa ação. Portanto, é
a utopia que pode nos dar o mínimo de encorajamento para continuar, quaisquer
que sejam as dificuldades - o número de estudantes, a imobilidade da sociedade,
a força da estratificação social. Ela nos dá energia
para tentar permitir que o maior número possível de alunos aprenda,
construa o saber, se aproprie do conhecimento.
Educação
- Mas alguém poderia se opor a essa idéia?
Hadji - Na França, esse tema começa a preocupar os professores
inovadores, que pesquisam todos os meios para facilitar o êxito dos alunos.
Mas esse movimento em nome da avaliação a serviço da aprendizagem
encontra uma grande resistência em outros professores. Estes acreditam que
não há nada para mudar e que as coisas estão bem como estão.
Esse debate entre inovadores e conservadores se encontra em outro nível,
sob a forma de uma discussão entre os pedagogos - que se interessam pelo
sucesso dos estudantes no aprendizado - e os outros, para os quais não
temos um nome específico, mas a quem chamamos de "defensores da escola
republicana". Eles pensam que a única função da escola
é difundir conhecimentos, permitir que os alunos se apropriem do saber,
sem se preocupar com outras coisas, como a socialização educativa.
Para eles, os alunos que não são capazes de se aproveitar desses
conhecimentos não têm espaço na escola. Esses professores
não se dedicam à pesquisa de meios pedagógicos que assegurem
um maior êxito dos estudantes.
Educação
- O senhor afirma que há três diferentes maneiras de avaliar um aluno:
como um filósofo, como um juiz e como um técnico ou especialista.
Quais as características de cada uma?
Hadji - Estamos constantemente nos avaliando, sendo avaliados, avaliando
os outros. É uma atividade social essencial. O problema consiste em como
fazê-la corretamente. Avaliamos, antes de mais nada, sob o mero pretexto
de avaliar. É o que acontece quando os alunos estão agitados e o
professor faz uma prova surpresa, para os acalmar. O que me parece essencial,
no entanto, ainda é saber em que consiste uma avaliação.
Seus mecanismos são quase sempre os mesmos. Há uma certa universalidade
nisso. Mas, por outro lado, não se avalia com a mesma atenção.
Então, podemos diferenciar as atenções dominantes que vão
corresponder às diferentes formas de avaliar. A primeira distinção:
avalia-se a língua, por exemplo, mas não se pode medi-la. A ambição
seria fazer isso, mas não há o que medir. Podemos avaliar, em um
caráter extremo, simplesmente para entender melhor o que acontece com o
aluno. Isso corresponde à postura do avaliador-filósofo. Ele avalia
não para julgar o valor ou o interesse daquilo que foi feito, mas para
tentar compreender melhor a pessoa em jogo. Nessas condições, deveríamos
construir um referencial próprio para cada situação ou pessoa
avaliada. Como podemos avaliar alguém com um referencial pertinente a outro?
Esse é o problema do avaliador-filósofo.
Educação
- E as outras duas maneiras?
Hadji - O avaliador-juiz leva em conta circunstâncias e atenuantes
para o desempenho do aluno. Já o avaliador-técnico é aquele
que mede, embora não tenhamos verdadeiramente um instrumento para isso.
Tentamos fazer uma medida aproximada através de falsos instrumentos. Ele
dispõe de um referencial pré-determinado e tenta ver qual é
a situação do indivíduo avaliado em relação
a essa referência. Com isso, decide se a produção do aluno
ou sua maneira de ser e fazer as coisas é aceitável com relação
à referência.
Educação
- Esse modelo de avaliação seria totalmente equivocado?
Hadji - Não acredito que a avaliação possa tornar-se
científica. Ela não será jamais uma medida. Em contrapartida,
ela poderia ser rigorosa. Tem esse dever. Avaliar com rigor implica primeiramente
definir de modo exato aquilo que se espera da realidade avaliada. Se a avaliação
não é freqüentemente rigorosa, é porque nós não
sabemos o que esperamos dos estudantes ou da sociedade. A primeira coisa é
tornar isso transparente. Em seguida, poderemos encontrar na realidade sinais
indicadores para nos permitir julgar se as expectativas foram satisfeitas ou não.
O rigor passa por esse duplo esforço de deixar explícitas as expectativas.
Mas esse rigor jamais tornará a avaliação científica.
Posso cronometrar o tempo que um corredor leva para percorrer 100 m; é
a medida, não a avaliação. Por outro lado, não posso
cronometrar o tempo de desenvolvimento de uma criança, o modo como ela
constrói a sua aprendizagem, desenvolve suas competências. Isso não
pode ser medido. É preciso distinguir bem as duas idéias.
Educação
- Qual das outras duas maneiras seria a mais apropriada?
Hadji - No fundo, há três grandes ambições que
correspondem a esses três usos sociais diferentes da avaliação.
Uma delas é a vontade de medir. É a avaliação pelas
falsas medidas, a posição do técnico que gostaria de fazer
uma avaliação científica e de transformá-la em uma
atividade prazerosa. Não acredito que isso seja possível. A nota
não corresponde a uma medida. É a "medida enganosa", como
se diz no Canadá. Depois, viria a intenção de medir sabendo
que essa equação jamais teria sucesso. É a ambição
de julgar a aceitabilidade do comportamento em relação às
expectativas. E, por fim, a intenção de tentar compreender o que
aconteceu, como chegamos lá, o que está em jogo. A avaliação
ganha sentido próprio nesse quadro, que terá como vantagem uma análise
sociológica.
Educação
- Mas o senhor acredita que a sociedade possa prescindir da avaliação
no sentido de certificação?
Hadji - É um erro propor a avaliação cumulativa, que
fornece a certificação, no lugar da formativa. Alguns pensam que
é preciso escolher entre as duas, como se fosse uma religião. Mas
uma e outra correspondem a momentos e necessidades sociais diferentes. A avaliação
cumulativa pode consistir simplesmente na verificação realizada
ao fim de um percurso de formação, à saída de uma
escola. Parece legítimo tentar apreciar o nível de cada indivíduo
que está saindo de um liceu, por exemplo. Por quê? Para poder atestar
socialmente o seu nível. O termo não é muito elegante, mas
consideramos o aluno como um produto que deverá se inserir no sistema social.
Desse ponto de vista, me parece fundamental que a sociedade possa saber qual é
o nível de formação real de um indivíduo para saber
como o inserir nesse sistema. Há uma necessidade social que me parece indiscutível
e incontornável. Já a avaliação formativa nada mais
é do que uma avaliação que quer se colocar a serviço
da formação, da aprendizagem, desde o ensino fundamental até
a universidade. Sua ambição é permitir que cada um dos alunos
se desenvolva o melhor possível e chegue com as melhores armas possíveis
à avaliação final. Não há nenhuma contradição
entre as duas, muito pelo contrário. É preciso apenas distingui-las.
Uma sociedade precisa enxergar com clareza o produto do sistema educacional. As
tentativas de avaliar o nível escolar de um conjunto de alunos ou de uma
população, bem como o nível do ensino, me parecem honestas
e legítimas em uma sociedade desenvolvida.
Educação
- O sistema de avaliação final não contribui para reproduzir
as desigualdades sociais?
Hadji - Há diversos trabalhos, em particular sociológicos,
que mostram como a escola é um instrumento de legitimação
das desigualdades sociais. Acredito que ela contribui para isso ao deixar que
o resultado escolar seja a única referência acadêmica do aluno.
Alguns alunos são objetos da categorização já nas
primeiras avaliações, o que gera uma espiral negativa. Desse ponto
de vista, a avaliação pode ser um fator de agravamento das desigualdades.
Há riscos de mau uso. Uma face perversa da avaliação acontece,
por exemplo, quando ela é colocada essencialmente a serviço da seleção.
Colaboraram: Clóvis
de Barros Filho e Maria Paula Lima