Um amável deputado,
daqueles que tanto lutam pelo bem do povo, usou a expressão "detalhe
importante". A apresentadora do curso de vestibular pela TV também
falou em "detalhe importante".
Muita gente fala em "detalhe
importante" quando quer ressaltar alguma coisa. Só que a expressão
"detalhe importante" é um contra-senso. Porque "detalhe"
significa pormenor, minudência, particularidade, minúcia, insignificância,
coisa sem importância. Quer dizer, "detalhe importante" significa
"insignificância importante", "coisa sem importância
importante". Uma tolice, portanto.
O que dizer em vez do "detalhe
importante" tão usado por gente sábia e bem-nutrida como o
deputado com seu terno cinza brilhante? Pode-se substituir nesse contexto "detalhe"
por fato, aspecto, coisa. Então se dirá ou escreverá sem
falar ou escrever bobagem: fato importante, coisa importante, aspecto importante.
Não é melhor?
Cuidado com os nomes!
Um economista escreveu o
seguinte num artigo de jornal: "Mais uma má notícia: não
fomos nós que derrubamos a Bolsa de Nova York. Foi a Monica Lewinsky".
A Monica, todos se lembram, é aquela senhora que fumava charutos com o
presidente Clinton. Mas o que importa é o texto do economista: "Uma
má notícia", foi o que ele escreveu.
"Umamá", do "uma má notícia", é
o que se chama de cacófato, o som desagradável, ridículo
ou obsceno provocado por uma união infeliz de sílabas. Outros exemplos
de cacófatos: fé demais, boca dela, acerca dela, "Nunca te
tinha conhecido esse aleijão" (frase do escritor português Camilo
Castelo Branco), "um por cada vez" (também do Camilo), "chuta
Neneca, gol!" (de locutor esportivo). Há ainda os Armando Pinto, Caio
Pinto, Mônica Gava. Que tal cuidar da combinação de nomes
e sobrenomes?
É claro que a preocupação com cacofonias não deve
ser muito grande. Mesmo porque o verso de um soneto de Camões continua
belo e eterno, apesar do inocente cacófato: "Alma minha gentil que
te partiste".
Má
origem, boa formação
Os economistas oficiais
inventaram mais uma palavra: despoupar e seu filhote, despoupança. Nenhuma
delas consta no léxico oficial. Despoupar aparece depois da sinuosa e dúbia
flexibilização. Significa desperdiçar, boa palavra muito
apropriada à administração pública. Na verdade, quase
sinônimo de administração pública. Insatisfeitos com
a precisão clara de "desperdiçar", os sábios da
economia lançam despoupar/despoupança.
No entanto, apesar da origem
nefanda, essa dupla - despoupar/despoupança - é bem formada: poupar
+ o prefixo latino de negação ou privação "de"
+ o sufixo "es" = despoupar. Como desabastecer, despossuir, descomer,
descolar, desapossar. Algumas dessas palavras são pouco usadas, mas estão
registradas no léxico oficial. Dentre elas despossuir, que significa desapossar,
esbulhar, espoliar, tirar; e descomer, raramente usada, por seu sentido desrefinado,
que significa o oposto de comer, se nos perdoam os leitores.