Numa nota, o jornal
publicou que "a polícia de Nova York deteu ontem o ator Johnny
Dep...". Deteu. Claro, comeu, deu, leu, meteu, deteu. Deteu é
o resultado de uma espantosa conjugação verbal: eu deti,
tu deteste, ele deteu, nós detemos, vós detestes, eles deteram.
Esse curioso pretérito
perfeito do indicativo de deter era usado no século XV pelos habitantes
de Brasov, nos Alpes da Transilvânia, situados na atual Romênia.
Não muito longe, reinava Vlad IV, o Empalador, príncipe
da Valáquia, também conhecido como conde Drácula.
Intransigente defensor da língua, mandava empalar o pessoal da
Folha da Transilvânia que conjugasse verbos errado.
Mas não havia
castigo para quem escrevesse "deteu", forma correta nas escarpas
morcegosas da Transilvânia. Só que bem antes disso, na ibérica
Lusitânia, o verbo latino "detinere" ("detinuit"
na terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo)
havia gerado em português o simples "deteve": detive,
detiveste, deteve, detivemos, detivestes, detiveram. Como "ter",
de que é composto e como se conjuga. Ter, tive, tiveste etc.
Seria o computador
responsável pelo transilvânico "deteu", um filhote
espúrio do sanguinário Drácula, o Empalador, infiltrado
entre nós?
Delfim, o fofo - Existe
a palavra "atraidor", escrita por um professor de história
em um artigo de jornal? O leitor João Augusto Piroli, de São
Paulo, investe contra neologismos do computês como "acessar",
"diretório", "deletar", "gerenciador",
"inicializar" etc. E considera "atraidor" uma invenção
dispensável.
Mas essa é
palavra bem formada, embora o Aurélio não a registre, provavelmente
por desuso. O que não se usa costuma estragar-se, definhar, decair,
murchar e morrer. "Atraidor" é formado obviamente de
"atrair" + "dor". Verdade que a última pessoa
que usou "atraidor" foi frei Felipe da Luz, em um sermão
em 1625, em que aproveitava para condenar a corrupção nos
meios políticos, grande novidade. Não faz mal.
A palavra está
registrada em outros dicionários para quem tiver coragem de usá-la.
Houaiss, Michaellis, Aulete, Melhoramentos, Morais, Cândido de Figueiredo,
Antenor Nascentes, Laudelino Freire, Lello e o Etimológico de Silveira
Bueno são alguns dos dicionários que não se envergonharam
de registrar o adjetivo "atraidor" (que atrai, atraente, atrativo)
e também substantivo (indivíduo que atrai; sedutor). Por
estranho que pareça, portanto, essa palavra não é
inventada.
Por isso, quando o
deputado, agora ministro, Arthur Virgílio considerou "atraente"
o deputado Delfim Netto, poderia ter dito "atraidor". Estaria
ele encantado pela inteligência rotunda do Delfim? Ou seduzido por
aquele rostinho redondo e fofo? Desconfia-se de alguma ironia no suposto
elogio, que se seguiu a uma troca de gentilezas farposas. Mas isso pouco
se nos dá, desde que adiramos a uma globalização
responsável, capaz de controlar os capitais itinerantes perversos!,
como diria e escreveria o presidente em terras gaulesas, para deslumbramento
de todos.
Josué Machado
é jornalista e autor do livro Manual da Falta de Estilo (Ed. Best
Sellers)