Restaurantes
fast-food são metáforas da correria que é a vida
nas grandes cidades
Férias! Sonho
de vários: aproveitar o tempo livre. Então, vai ao fast-food.
Para que serve o fast-food? Ele deveria ser uma opção de
alimento, não um sinal de exclusiva qualidade. Parece que muitas
crianças são dotadas de um sistema de comunicação
de massa que as impulsiona a dizer o tempo todo: "Se você não
come lá, você é menos."
Esse é um sistema,
mas há um outro, que é a pressão do dia-a-dia. É
mais prático levar as crianças para comer no fast-food porque
lá elas não dão tanto trabalho. Além disso,
adoram. Sabe porquê? O que pode lá que não pode em
casa? Escolher a comida e, atenção, escolher pelo número.
Você pára, olha e aponta, como qualquer outro primata não-hominídeo
faria. A combinação é a mesma; você não
precisa raciocinar, já está pronto. É a mesma comida,
com o mesmo gosto, em qualquer lugar.
É por isso
que as pessoas são capazes de ir a Paris ou a Caruaru e, em vez
de experimentar o novo e aprender, vão atrás do familiar,
procuram aquilo que já conheciam, o que significa uma redundância:
ficam onde estavam, no lugar de aumentar a experiência da saborosidade.
Por que crianças gostam de restaurante fast-food? Primeiro: elas
podem escolher e não precisam pensar. Segundo: não demora.
Terceiro: o que pode fazer lá? Sujar. Pode sujar à vontade,
derrubar, fazer o que quiser, não precisa cuidar. Aliás,
tudo é descartável.
No restaurante fast-food
também pode-se (e deve-se) comer com as mãos. A humanidade
passou séculos tentando não comer com a mão, milênios
para desenvolver talheres e pratos. Lá você ganha a comida
em um saco de papel. Quem ganhava a comida em um saco de papel até
20 anos atrás era cachorro. E você ainda acha que aquilo
é qualidade, porque o saco de papel é colorido e está
escrito que ele é reciclado. Você pega a sua comida, que
murcha dentro daquele saco - porque fica abafado e com o mesmo cheiro
-, tanto faz o que você come, o sabor será o mesmo, mas é
reciclável, é natural e ainda por cima não precisa
mastigar. Olha que delícia! Em casa você é obrigado
a mastigar. No fast-food não precisa porque aquilo é tão
mole que você põe na boca e engole.
Vamos ao fast-food
para conversar? Não, porque você entra, olha a placa, escolhe,
paga, o vendedor entrega a comida em 40 segundos em uma bandeja, você
pega aquilo e procura um lugar para sentar. Nunca a cadeira e a mesa são
compatíveis. Não pode ser confortável porque se for
confortável você fica e fast-food não é para
ficar e, sim, para sair logo, girando o movimento.
Agora, o ápice
da modernidade e da "qualidade de vida": o drive-thru. A lógica
é essa: você entra com o carro, fala com uma máquina,
dá uma volta e quando chega do lado de lá, a pessoa entrega
para você um saco de comida, um saco com bebida e você sai
comendo, bebendo, guiando e falando ao celular ao mesmo tempo. Ganhando
tempo. Tempo para quê? Essa é uma questão. Está
ganhando tempo para quê?
*Professor de pós-graduação
em Educação da PUC-SP.