Profissionais
criativos se reúnem para trocar experiências em educação
Não faltam
idéias e ações da sociedade civil para melhorar a
qualidade do ensino brasileiro. No entanto, muitas experiências
acabam isoladas pela falta de comunicação. Para tentar evitar
que isso aconteça, o jornalista Gilberto Dimenstein e a ONG Cidade
Escola Aprendiz, em parceria com a empresa de processadores Intel, criaram
o Clube do Educador Inventor, uma reunião de profissionais que
arriscam projetos para trazer uma nova visão de educação.
A idéia do
Clube é incentivar e sistematizar experiências educativas
inovadoras que acontecem dentro e fora das escolas. O grupo reúne,
em sua estréia, 27 educadores-inventores, todos agrupados em um
catálogo onde são contadas suas trajetórias. Mas
para que as experiências não se encontrem apenas no catálogo,
o Clube terá encontros mensais, nos quais três educadores
apresentarão seus projetos e resultados para os convidados.
Segundo Dimenstein,
o objetivo é que o Clube tenha continuidade e que novos projetos
e educadores-inventores sejam agregados a essa primeira turma. "A
educação está em qualquer lugar, a qualquer hora,
e com criatividade torna-se um ato de excelência", acredita
Dimenstein.
Para os integrantes do Clube, o conceito de educador é bem mais
amplo do que o tradicional: estende-se a músicos, bailarinos, apresentadores
de TV, médicos, empresários e jornalistas, que dentro da
sua área de atuação têm uma ação
inovadora e conseguem ensinar algo. Segundo Dimenstein, "o verdadeiro
educador é aquele que tem prazer em ensinar, disseminar e trocar
conhecimentos e experiências".
O apresentador da
MTV, Cazé Peçanha, já é um dos membros do
Clube. Sua invenção - os programas Teleguiado (já
extinto) e Neurônio - mostra que a televisão também
pode estimular a busca por informação entre os jovens. No
Teleguiado, os participantes eram provocados pelo apresentador com perguntas
sobre temas da ! atualidade, enquanto escolhiam um videoclipe. No Neurônio,
que ainda está no ar, a intenção de saber se o convidado
tem conhecimentos é mais declarada e os que acertam as perguntas
ganham prêmios. "O jovem que está informado não
precisa ter vergonha de saber. A idéia é valorizar aquele
que tem conhecimento mesmo", afirma Peçanha.
Paulo Blikstein, engenheiro
e pesquisador do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados
Unidos, é também um educador inventor. Sua invenção
está na tentativa de aproximar a escola da realidade do aluno,
fazendo com que ele mesmo detecte as dificuldades de sua comunidade e
pense em soluções. A cidade que a gente quer, projeto desenvolvido
por Blikstein em parceria com o grupo Future of Learning, ligado ao MIT,
incentiva alunos de 30 escolas públicas da periferia de São
Paulo a usarem a tecnologia para resolver problemas.
Blikstein conta que a primeira experiência do projeto foi na favela
de Heliópolis, uma das regiões mais carente! s de São
Paulo. Na época do racionamento de energia, os alunos se reuniram
para discutir o que poderia ser feito para economizar luz elétrica.
Mas, ao pesquisarem as condições do bairro, constataram
que a maior parte das ligações de energia era clandestina.
"Percebi que o principal problema não era com o racionamento,
mas com os incêndios que aconteciam na região em conseqüência
das ligações malfeitas. Surgiu dos próprios alunos
a iniciativa de fazer um documentário para ensinar a comunidade
a fazer essas ligações com segurança", conta
Blikstein. "Esse tipo de trabalho cria uma série de idéias
que, por mais absurdas que pareçam, são possíveis
e causam um impacto positivo onde é preciso que isso ocorra."
Paulo Cunha, gerente-geral
da Intel, afirma que o próprio mercado hoje vê na tecnologia
uma ferramenta para melhorar a educação. "Acreditamos
que o talento e a força para mudar estão no educador, a
tecnologia é apenas um meio para isso", pondera.
Além dos recursos
mais ! modernos, como os utilizados por Blikstein, outras atividades podem
ser usadas como forma de aprendizado. O engenheiro e empresário
José Carlos Teixeira, que também participa do Clube, transformou
um hábito de infância, o de construir brinquedos, em uma
maneira de incentivar a criatividade das crianças. Há 20
anos, Teixeira fundou uma escola de brinquedos para crianças entre
5 e 15 anos, a Tempo & Espaço - Ateliê de Tecnologia,
em São Paulo (SP).
Teixeira conta que
é interessante perceber como as crianças, logo que começam
a fabricar seus próprios brinquedos, encontram dificuldades em
inventar. "A inovação leva à auto-estima. E,
para as crianças, transformar idéias em coisas úteis
traz efeitos positivos no campo comportamental e afetivo", defende.
Enquanto uns incentivam
a criatividade e buscam educar por meio de recursos tecnológicos
ou por meio da construção de brinquedos, outros encontram
na expressão corporal um meio para esse fim. Para o coreógrafo
Ivaldo Bert! azzo, por exemplo, a dança não é algo
que pode ser feito apenas por profissionais. Seu grupo, o Corpo de Dança
da Maré, é formado por jovens do Complexo da Maré,
um conjunto de 16 comunidades carentes no Rio de Janeiro (RJ).
Segundo Bertazzo,
quando dança, a pessoa torna-se mais consciente do seu corpo e
aprende a se expressar. "Mais do que dançar, a idéia
é que a pessoa descubra a base dos gestos humanos. Se não
desenvolver a psicomotricidade, dificilmente ela vai conseguir se concentrar
para aprender qualquer coisa. Ter consciência das extremidades do
corpo como os pés e as mãos ajuda a ganhar capacidade de
concentração", explica.
Além de Cazé
Peçanha, Paulo Blikstein, José Carlos Teixeira e Ivaldo
Bertazzo, o primeiro grupo do Clube do Educador Inventor, conta também
com contribuições do médico Dráuzio Varella,
do cineasta Cao Hamburger, dos músicos Paulo Tatit e Sandra Peres
e do artista plástico Siron Franco, entre outros.