|
||||||||||||
|
Quem
tem fome, tem pressa Mariana Viktor Escolas podem desempenhar papel fundamental na campanha para levar comida a todos os brasileiros - só falta botar a mão na massa Leia
mais: Num restaurante carioca sobraram, de um único almoço, vários tipos de saladas, além de comida japonesa, filé ao molho madeira, paleta de carneiro e 18 travessas de alimento, sem falar nas sobremesas e nos 25 quilos de carne da churrasqueira. O suficiente para encher a barriga de 150 pessoas. Foi tudo para o lixo. Só na cidade do Rio de Janeiro, 15 toneladas de comida têm o mesmo destino, diariamente. Os donos de restaurante têm medo de doar a comida e serem processados se alguém passar mal. Um projeto de lei que isenta dessa responsabilidade quem doa alimentos espera aprovação no Congresso Nacional há quatro anos. O engenheiro agrônomo Antonio Hélio Junqueira, especialista em desenvolvimento rural e abastecimento alimentar urbano, afirma, no livro O Desafio Social da Fome, que o desperdício anual de comida no Brasil alcança 1,4% do PIB, algo em torno de R$ 10 bil! hões, o que daria para fornecer cestas básicas mensais de R$ 120 a 7 milhões de famílias. A estimativa foi feita em 1992, por iniciativa da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, mas Junqueira ainda considera o percentual válido como base de cálculo para dimensionar as perdas agrícolas. Somam-se ao problema do desperdício a falta de políticas públicas e o pouco alcance das iniciativas da sociedade civil. Se essas informações pudessem ser colocadas no prato de uma balança, do outro lado teríamos este dado do Unicef: a cada cinco minutos, uma criança com menos de um ano morre no Brasil, a maior parte delas por doenças ligadas à fome - são 288 crianças por dia. O desequilíbrio da balança tem o tamanho exato da nossa inércia. Nem todos estão esperando o governo fazer alguma coisa. Cada vez em maior número, pessoas e entidades, independentemente de classe social ou filiação partidária, têm vestido a camisa da solidariedade, entendendo que o combate à fome não é tarefa exclusiva do poder público, mas um compromisso de toda a sociedade. Espalhadas por todos os recantos do país, as escolas podem liderar um sem-número de iniciativas solidárias. Suas atuações, porém, ainda são tímidas. "Como centros de mobilização social, as escolas têm um importante papel em várias tarefas do combate à fome", destaca José Graziano, professor de economia agrária na Unicamp e mentor do programa Fome Zero. "Elas podem promover campanhas de educação alimentar, aproveitamento dos alimentos, combate à desnutrição e incentivo ao aleitamento materno. Basta ter criatividade e colocar a mão na massa", acredita Graziano. Criatividade parece ser mesmo a palavra de ordem para mobilizar a nova ger! ação. Um exemplo é a Gincana Estudantil da Solidariedade, idealizada pelo comunicador Daniel Pasquallin: "O que começou como brincadeira virou coisa séria. Organizei uma gincana entre condomínios e arrecadamos três toneladas de alimentos." O passo seguinte foi fazer o mesmo com as escolas. A partir do programa Encontra, da TV Vanguarda, em São José dos Campos (SP), Pasquallin convidou as cidades do Vale do Paraíba a participar. "A primeira gincana pela TV aconteceu em 2000, reuniu oito cidades e arrecadou 99 toneladas de alimentos. No ano seguinte, foram 144 toneladas. Em 2002, as cidades subiram para 12 e atingimos 276 toneladas, doadas a mais de 200 entidades. Ao todo, já realizamos 105 gincanas, inclusive em parceria com a Rede Globo." A gincana é simples. Cada cidade é representada por uma escola previamente sorteada. Dois meses antes, as escolas recebem a programação do evento, com calendário, locais, horários e tarefas simples, como arrecadar a maior quantidade de a! rroz, por exemplo. "Os alunos executam as tarefas e a escola que trouxe mais alimentos ganha pontos", explica Pasquallin. Para ele, é fundamental engajar os grêmios, convertendo as lideranças estudantis em multiplicadores. Em 2001, uma escola de Jacareí (SP) usou o grêmio para dividir a cidade em regiões. Cada classe assumiu uma delas. "Eles bolaram um campeonato: quem trouxesse mais comida ganhava uma pizza. Instalaram um painel com a relação das turmas e todo dia acrescentavam novos números, estimulando a competição", lembra Pasquallin. Acabaram rixas, vandalismo e pichações. Afinal, a escola representava Jacareí e, sem união, como vencer as outras cidades? Pasquallin acredita que, além da solidariedade, cria-se um intercâmbio tão positivo entre alunos, direção de escola e entidades beneficiadas que o movimento continua depois da gincana. "Trabalhar com a juventude é maravilhoso. Os jovens têm respostas rápidas, se emocionam. O evento não tem prêmio grande, como ! carro, ambulância, viagem. Tem um troféu, mas o que conta é a solidariedade. Imagine se cada escola do Brasil fizesse o mesmo", sonha ele. Outro exemplo de solidariedade é o de Márcio Brown, de 25 anos, presidente do movimento Cultura Verdadeira Hip-Hop Companhia (CVH2/Cia). Reunindo a turma do hip-hop de Sorocaba (SP), o CVH2/Cia promove shows de rap, break e oficinas de grafite para arrecadar alimentos, que são doados a famílias cadastradas. "O movimento surgiu da juventude que gosta de hip-hop e achou que devia criar alguma coisa na área social, através da nossa cultura", explica Brown. "Durante os eventos, conhecendo a realidade das famílias carentes, decidimos fazer um cadastro e doar diretamente. A gente acompanha e vê como a família vai seguindo." Fundada no início de 2002, a entidade já atende 60 famílias. CVH2/Cia também busca conscientizar os jovens que praticam atos de vandalismo. "Eu morei na rua e fiz muita coisa errada. Passei a me questionar quando e! ntrei para o hip-hop. Vi que tinha ONG que servia sopão, mantinha abrigos, dava comida para meninos de rua, banho, cursos. Comecei a ler, a participar de grupos de discussão sobre comunidades carentes e me encaminhei profissionalmente", lembra Brown. O paulistano Rodrigo Reif, de 22 anos, cursou administração na Fundação Getúlio Vargas (FGV). Quando tinha 11 anos, ele começou a organizar peças de teatro e jogos de futebol para divertir as crianças pobres do Jaguaré, bairro da periferia de São Paulo (SP). "Meus pais são humildes e sempre lutaram muito, mas me mostraram desde cedo a importância de ser solidário", orgulha-se Reif. Depois de conhecer o trabalho das senhoras da Federação Israelita - que coletavam alimentos no Mercado da Cantareira para distribuir a pessoas carentes -, ele decidiu ajudar. "Elas não podiam fazer a arrecadação no sábado, justo no dia de coleta mais farta. Eu assumi a tarefa junto com alguns amigos." Deu tão certo que, em abril de 2001, Reif f! undou a Associação Prato Cheio, que conta, atualmente, com 15 voluntários para coleta de alimentos e uma nutricionista, que indica os gêneros preferenciais. "É complicado", argumenta Reif, "não temos recursos, local para estocar comida ou parceria com transportadora. A cada sábado, alugamos uma kombi e distribuímos quase uma tonelada de alimento. Ao todo, foram 57 toneladas". O jornalista Tarcísio Faria, coordenador da campanha Natal Sem Fome, da Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, faz uma sugestão às escolas: "Que tal substituir o trote violento por um trote de cidadania, com arrecadação de alimentos, pedágios, debates e palestras?". Outra dica de Faria é que as escolas doem os alimentos a entidades compromissadas em formar o cidadão - em "ensinar a pescar" - em vez de distribuí-los individualmente, porque isso pode gerar acomodação. "Damos o alimento, mas orientamos a pessoa a integrar uma cooperativa ou fazer cursos gratuitos de qualificação ! profissional ou geração de renda. Como dizia Luís Gonzaga, o Rei do Baião, 'esmola para homem que é são ou mata de vergonha ou vicia o cidadão' - e isso a gente não quer." Educação alimentar - "Eles são nossos anjinhos da guarda." É com essa expressão carinhosa que Maria de Fátima Albuquerque, presidente do Instituto de Prevenção à Desnutrição e à Excepcionalidade (Iprede), de Fortaleza (CE), se refere aos alunos do Colégio Batista. Todo ano, no dia da criança e no Natal, os estudantes do Batista - uma escola particular da alta classe média - levam alimentos para as crianças atendidas pelo Iprede. "Eles trazem leite, arroz, feijão - nunca esquecem de nós", alegra-se Maria de Fátima. "Uma vez, o nosso almoxarifado estava a zero. Então, eles apareceram com comida." Por meio do projeto Teia de Resgate à Vida, o Iprede atende mensalmente 600 crianças com graus variados de desnutrição. Nos casos mais simples, a mãe leva o filho até o instituto para uma avaliação semanal e recebe uma cesta básica, além de vale-transporte. Nos casos de desnutrição severa, a criança é internada no Iprede e a mãe fica com ela.! "O tempo de permanência varia de 15 dias a um mês", esclarece Maria de Fátima. "Durante esse período, a mãe recebe orientações sobre higiene e alimentação. Continuamos acompanhando os pequenos mesmo depois da alta, até que eles saiam da faixa de risco." Com apoio de voluntários, empresas e escolas, do governo do Ceará e da Fundação Ayrton Senna, o Iprede já atendeu mais de 200 mil crianças desde 1986. O exemplo do Iprede vale por dois. Ao mesmo tempo em que destaca o papel das escolas no combate à fome, como no caso dos alunos do Colégio Batista, aponta para um aspecto ainda desconsiderado por muitas entidades: a educação alimentar. "A maioria das mães não admite que os filhos estejam desnutridos porque comem errado. Elas pensam que, se um pacote de salgadinho ou um prato de macarrão sem acompanhamento matou a fome, isso é o que conta. Tentamos mostrar que nem sempre barriga cheia é sinal de saúde", explica Maria de Fátima. "Até pouco tempo, quem falasse q! ue pobre não sabe comer era crucificado", diz Christiane Costa, coordenadora da área de segurança alimentar do Instituto Pólis, de São Paulo. "Hoje sabemos que, além de pobreza, há falta de informação - o que também é causa de desnutrição." Se dependesse de Christiane, segurança alimentar virava matéria de sala de aula. "Toda escola devia promover campanhas educativas de nutrição, inclusive para esclarecimento dos pais." O Sistema de Vigilância Nutricional, programa de combate à desnutrição infantil da prefeitura de Campinas (SP), usa o diagnóstico doméstico como forma de vencer a resistência das mães. Por meio de cadernetas com gráficos, a família acompanha o desenvolvimento das crianças e identifica casos de desnutrição. Desinformação não é patrimônio exclusivo dos mais pobres. Prova disso é que cresce, em todo o mundo, o número de crianças obesas e desnutridas nas classes com maior poder aquisitivo. A causa é a preferência dos pequenos por chocolates, salgadinhos, f! ast-food e refrigerantes, em lugar de uma refeição balanceada. "Se, na hora da merenda, eu colocar lado a lado uma fruta e uma bolacha para os alunos escolherem, quase todos vão preferir o biscoito, que engorda, mas não nutre", confirma Orivaldo Marçal Correa, diretor da Escola de Educação Básica Luiz Delfino, de Blumenau (SC). Por conta da falta de informação, um projeto do Instituto Pólis - que beneficia 6 mil moradores de um bolsão de pobreza próximo à rodovia Raposo Tavares, em São Paulo - tem como espinha dorsal a educação alimentar. "Estamos capacitando os alunos da Escola da Vila, um colégio de classe média, e também as moradoras da favela, para desenvolver oficinas sobre alimentação saudável com as crianças carentes", afirma Christiane Costa. Parte da responsabilidade pela opção alimentar pouco saudável das crianças é da mídia. Afinal, não há melancia, espinafre ou suco de goiaba que consiga competir com os comerciais de guloseimas industrializadas. Claro q! ue não se trata de cortar as delícias que as crianças adoram, mas de impedir que alimentos pobres em nutrientes sejam as estrelas do cardápio. "Dentro de uma proposta de segurança alimentar, não basta comer - é preciso comer nutritivamente. As escolas podem começar reavaliando a própria merenda", sugere Clóvis Boufleur, coordenador de políticas públicas da Pastoral da Criança, entidade ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). "É claro que haverá problemas, como no caso das cantinas que só vendem hambúrguer e pastel, mas é preciso priorizar a saúde e incentivar o aproveitamento dos alimentos da época e da região", pondera Boufleur. A Pastoral é um peso-pesado do terceiro setor. Indicada duas vezes ao Prêmio Nobel da Paz, é responsável por um dos mais eficientes programas mundiais de combate à desnutrição, beneficiando 1,1 milhão de famílias carentes em 64% dos municípios brasileiros. Também estimula projetos de geração de renda e aleitamento matern! o, reduzindo a mortalidade infantil da população assistida a 13 por mil, contra uma média nacional de 29 por mil. Quando perguntado a respeito de como a escola pode ajudar a erradicar a fome no Brasil, Boufleur sugere: "A escola pode tornar-se 'madrinha' de uma escola mais pobre. Há um caso, no Rio de Janeiro, de uma escola que ajuda outra, no Nordeste. Cada aluno ajuda outra criança com um ou dois reais por mês, o que faz muita diferença. Criou-se um vínculo e as crianças das duas escolas planejam um encontro." O exemplo das ONGs - Algumas décadas atrás, programas de assistência social eram sinônimo de caridade. Pessoas e entidades bem-intencionadas doavam alimentos aos necessitados e pronto - dever cumprido. Aos pobres, restava pedir esmola e esperar por uma vida melhor. Hoje, o conceito de trabalho social mudou. Na construção da cidadania e garantia dos direitos humanos básicos, destaca-se o trabalho das entidades do terce! iro setor. No Brasil, a presença de ONGs é quase indispensável. Da arrecadação de alimentos aos cursos de alfabetização, da formação profissional à geração de renda, da implantação de cooperativas aos fundos de microcrédito, a ação das ONGs é um exemplo de criatividade e de eficiência para as escolas. A Associação para Projetos de Combate à Fome (Ágora), fundada há dez anos, tem sede em Brasília e escritórios em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belo Horizonte. Sua ação inclui ajuda alimentar a famílias em risco nutricional, avaliação de crianças e gestantes e cursos de capacitação e formação profissional. "Como referência comunitária, a escola devia incentivar mais o protagonismo local, mobilizando alunos, pais e comunidade para a solução de problemas que não necessitem da intervenção do poder público. Muitas crianças que passam fome são filhas de pais analfabetos - a escola poderia, por exemplo, implantar um programa de alfabetização para esses adultos", def! ende Flávio Schuch, diretor da Ágora. Outra ONG que combate a fome é a Fundação Pauli-Madi Pró-Solidariedade e Vida, criada pelo padre Luiz Facchini - que vendeu a casa, um barco e um terreno para investir na entidade. A Pauli-Madi mantém 22 cozinhas comunitárias em regiões carentes de Joinville (SC) e serve diariamente uma refeição caprichada para 2.350 crianças, com apoio financeiro da prefeitura. Durante as refeições, os pequenos ainda recebem reforço escolar, em aulas ministradas por professores voluntários. Para o padre Facchini, "as escolas podem organizar um cadastro das famílias mais necessitadas do bairro e abrir uma cozinha comunitária que funcione até nos fins de semana". Ele acredita que a idéia do reforço escolar durante as refeições poderia ser estendida para as creches, envolvendo professores voluntários. Mas quando se fala em campanha contra a fome, a entidade brasileira mais lembrada é a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, fu! ndada em 1993 pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. A ONG estimula projetos de combate à miséria, priorizando a geração de emprego e de renda. Dentre suas iniciativas destacam-se a Escola de Cidadania, que reintegra jovens de 15 a 25 anos em situação de risco social, oferecendo-lhes educação, cultura e capacitação profissional; a Bolsa-Escola da Ação da Cidadania, que tira crianças e jovens em idade escolar das ruas e do trabalho escravo; o Espaço de Construção da Cultura da Ação da Cidadania, que reúne mais de 300 crianças e jovens cariocas, trabalhando com teatro, dança, reciclagem e música; e o Natal Sem Fome, que desde 1993 distribuiu quase 1 milhão de cestas básicas para pessoas pobres. Tarcísio Faria, coordenador do Natal sem Fome, lembra de uma situação que o marcou muito: "Uma menininha de 10 anos, a Joyce, arrecadou um carrinho-de-feira de alimentos no seu prédio, junto com uma amiguinha, e nos ligou. Queria que a gente fosse buscar a doação. Quando chegamo! s, ela contou que tinha feito aquilo porque ouviu na TV que cada um precisava fazer a sua parte. Imagine o que podem fazer dez, cem, mil menininhas como a Joyce. Elas mudam o mundo." Valores da merenda escolar são baixos para atender ensino fundamental, escassos para a educação infantil e inexistentes para o ensino médio Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pronae), nome oficial do popular Programa da Merenda, alcança 5.540 dos 5.560 municípios brasileiros, beneficia 37 milhões de alunos e movimenta mais de R$ 900 milhões ao ano. Desde que foi criado, em 1954, o programa passou por várias mudanças. "Antes, o governo federal comprava os gêneros e distribuía para todo o país, a um custo muito alto", explica Wilma Santana, diretora do Pronae. Segundo ela, em 1994, o sistema começou a ser descentralizado - as prefeituras podiam firmar um convênio e receber o recurso para comprar a merenda. Como a adesão ficou aquém do esperado, em 1999 a União tornou a descentralização automática. "Todo mês, o dinheiro é depositado na conta-corrente da prefeitura, de acordo com o número de alunos matriculados nas escolas municipais. As secretarias de educação dos Estados fazem o repasse para as escola! s estaduais", complementa Wilma. Em contrapartida, os municípios têm dois compromissos: prestar conta dos recursos, anualmente, e constituir um Conselho de Alimentação Escolar, integrado por representantes de pais, professores e poder público. "Nossa tarefa é fiscalizar a verba, acompanhando as licitações e a distribuição dos alimentos, e zelar pela qualidade da merenda", esclarece Antonio Rogé-rio, presidente do Conselho de Alimentação Escolar de Passo Fundo (RS). Há problemas. O primeiro é o valor repassado. Apesar de gigantesca, a cifra de R$ 900 milhões, dividida por 37 milhões de alunos e por 200 dias letivos, resulta em R$ 0,13 per capita/dia. Muitos acham a quantia insuficiente, especialmente diante do problema número dois: o Pronae só considera, para efeitos de cálculo, os alunos do ensino fundamental e da educação infantil - para os quais a verba é ainda menor, R$ 0,06/dia. O que fazer com os estudantes do ensino médio? A maioria das escolas "abraça a! bronca" e estende o benefício a esses alunos, mas aí o cobertor - que já é curto - encurta ainda mais. "Temos 860 alunos no ensino fundamental, mas o total sobe para 2.200 com os estudantes do ensino médio", observa Orivaldo Marçal Correa, diretor da Escola de Educação Básica Luiz Delfino, de Blumenau (SC). "E não podemos deixar de alimentá-los, porque muitos têm na merenda a principal refeição do dia." Aí surge o problema número três: para milhões de crianças brasileiras, a merenda não é só a principal refeição do dia, mas a única - e, por lei, ela só cobre 15% das necessidades diárias do aluno. Para Flávio Schuch, diretor da ONG Ágora, o ideal é que as crianças pobres recebam três refeições e a escola abra nos fins de semana para elas comerem, com cardápios regionalizados e um sistema de compras que permita adquirir o alimento nas redondezas, estimulando os produtores locais - o incentivo à produção local já acontece em muitos lugares. "Numa escola de Minas Gerais, o d! iretor dizia: 'Amanhã vai ter galinha com arroz - quem traz a galinha?' O aluno levantava a mão, trazia a galinha de casa e já voltava com o dinheiro. Grande idéia, porque as famílias passaram a produzir para a escola", exemplifica Schuch. O quarto problema é a reclamação de que, em muitos casos, falta variedade e qualidade nutricional à merenda - tem escola que serve bolacha num dia e no outro também. O Pronae se defende. "É verdade que R$ 0,13 parece pouco, mas a economia é feita em escala", observa Wilma Santana. "No final de 2001, uma pesquisa apontou que o dinheiro é suficiente, além de a maioria dos municípios declarar que só gastou R$ 0,13 por aluno/dia com a merenda." Outro aspecto destacado por Wilma é que um centavo a mais, per capita, representa R$ 74 milhões extras na conta do Pronae. "Se está faltando dinheiro, Estados e municípios precisam contribuir, até porque eles têm competência suplementar sobre o assunto - e isso já ocorre em muitos lugares." Quanto ao ensino médio e ao aumento do número de refeições diárias, a solução esbarra, outra vez, na falta de dinheiro. "A questão já foi colocada para o novo governo, só que ainda não conseguimos encontrar recursos orçamentários para cobrir os custos", argumenta Wilma. Em relação
ao valor nutricional da merenda, as reclamações causam estranheza:
"O programa determina, primeiro, que o município tenha um
nutricionista para planejar o cardápio e, segundo, que o Conselho
de Alimentação Escolar supervisione a execução
do programa pelo Estado ou município. Se a qualidade nutricional
da merenda deixa a desejar, o Conselho local não está cumprindo
sua tarefa", aponta. (MV) |
|
||||||||||