Professores
necessitam de espaço para extravasar emoções,
alerta especialista em medicina do trabalho
O professor precisa
deitar no divã - ou ter um espaço, dentro das escolas, para
refletir e ser ouvido. A opinião é de Dora Elisa Rodrigues
Tolosa, especialista em medicina do trabalho. Ela defendeu tese de doutorado
na Unicamp a respeito dos sentimentos e expectativas dos professores do
ensino fundamental. Durante cinco anos, Dora Elisa ouviu 1.819 professores
das redes pública e particular de Jundiaí (SP), anotando
suas reclamações relativas a cansaço, fadiga e irritação
- sintomas típicos de doenças psicossomáticas. Sua
pesquisa traça um perfil do estresse profissional e particular
nítido no meio docente. Dores de cabeça, problemas respiratórios
e complicações gastrointestinais são alguns dos problemas
mais recorrentes entre professores. O quadro se agrava na mesma proporção
que a pressão exercida pelos pais de alunos e pela direção
da escola. Segundo Dora Elisa, "n! o final do ano, quando há
acúmulo de tarefas - como corrigir provas, calcular média,
fazer relatórios -, surgem sintomas de doenças como hipertensão
arterial, problemas de pele e gastrite". A médica alerta as
escolas no sentido de proporcionarem melhores condições
de trabalho para a equipe pedagógica: "Falta um horário
apropriado - semanal, mensal ou anual - para os professores discutirem
os seus problemas pessoais e não os problemas dos alunos, como
costuma acontecer nas reuniões pedagógicas."
Revista Educação
- Em que teoria se baseia seu trabalho?
Dora Elisa Rodrigues Tolosa - Utilizei a teoria do psiquiatra francês
Dejour, especialista nas relações do trabalho. Segundo ele,
as relações profissionais passam pela questão emocional.
Os professores, como outros profissionais, têm de ter espaço
para discutir suas emoções.
Educação
- Mas se fala tanto que a escola é um ambiente democrático,
participativo, como pode estar sufocando o professor?
Dora Elisa - Quando o professor tem pouco tempo de formado, ele
chega cheio de projetos, quer mudar o mundo e a escola, mas, depois de
alguns anos, perde o interesse. De acordo com minha pesquisa, os sete
primeiros anos de carreira são o período no qual o professor
mais deseja investir na profissão. Depois de 22 anos de carreira,
ele já se sente mais cansado com o trabalho e deseja se aposentar.
Educação
- Por que o professor perde o interesse?
Dora Elisa - Porque a direção não dá
apoio aos seus projetos. Na escola pública, o governo não
mostra interesse por novos projetos. E o professor não tem para
quem reclamar. Isso sem contar que ele também é desvalorizado
com baixos salários. Na escola particular, o limite é sempre
financeiro, muitas idéias são proteladas. Nesse caso, o
professor tem medo de abrir a boca.
Educação
- Pais de alunos interferem na motivação do professor?
Dora Elisa - Na escola pública, a ausência dos pais
nas reuniões mostra desinteresse em participar, em estar mais presente
no dia-a-dia escolar dos filhos e isso acaba desmotivando o docente. Na
escola particular, pelo contrário, existe o que os professores
chamam de exigência inadequada dos pais: eles cobram da escola coisas
que não são de responsabilidade da instituição,
como, por exemplo, o comportamento dos filhos em casa.
Educação
- A pressão dos pais é mais evidente no portão e
na diretoria da escola, não?
Dora Elisa - Na rede particular de ensino há um sentimento
de subordinação dos professores em relação
aos pais de alunos. Quantos alunos já não jogaram na cara
do professor que "é o meu pai que paga o seu salário"
quando são repreendidos em classe? Muitos docentes disseram que
sintomas físicos ou emocionais surgiram após conflitos no
ambiente de trabalho. Outro docente comentou, por exemplo, o aborrecimento
em voltar a conviver com um aluno reprovado por ele e depois considerado
aprovado pela direção da escola, devido à pressão
dos pais. Na escola particular, o medo da demissão é muito
presente.
Educação
- Todos os professores são afetados por esse estresse ou só
alguns têm uma certa predisposição?
Dora Elisa - A maioria dos professores ouvidos em minha pesquisa,
91,9%, queixou-se de fadiga, cansaço e irritação.
É o resultado do estresse, de pr! essões do trabalho. Além
disso, 51,72% fizeram referências a respeito da falta de valorização
profissional, o que ataca a auto-estima e contribui para agravar o quadro
de saúde do indivíduo. Ouvi muitas reclamações
de sofrimentos causados pelas relações pessoais e profissionais
dentro da escola. Todos relataram que, no final do ano, quando há
acúmulo de tarefas - como corrigir provas, calcular média,
fazer relatórios -, surgem sintomas de doenças como hipertensão
arterial, problemas de pele e gastrite.
Educação
- Professores com mais tempo de carreira sofrem mais?
Dora Elisa - Na rede pública, principalmente, os mais antigos
são os menos motivados. Os que possuem de oito a 21 anos de profissão
formam o grupo prioritário para um trabalho de motivação.
Não adianta oferecer cursos de aprimoramento profissional ou seminários
se o professor não tem motivação. Paulo Freire dizia
que "o ensinante é também um aprendiz". E mais:
"Não se pode solucionar o conflito entre professores distanciando-os;
pelo contrário, os encontros devem ser estimulados. Se uma das
tarefas do professor é ensinar a criança a sociabilizar-se
com os outros, também ele, professor, deverá ser educado
para tal. Esse é um aprendizado diário sem fim, pois estamos
sempre iniciando uma nova fase da vida."
Educação
- Que profissional poderia fazer esse trabalho em defesa dos professores?
Dora Elisa - As escolas deveriam criar um programa de orientação
educacional e psicológica para professores, com o objetivo de trabalhar
o emocional e a motivação profissional, auxiliando-os na
resolução das relações conflituosas existentes.
Educadores, terapeutas, psicólogos e psiquiatras poderiam criar
espaços de reflexão dentro da própria escola.
Educação
- O que poderia ser discutido nesses espaços?
Dora Elisa- Poderia acontecer um seminário anual para discutir
relações de poder entre os diferentes profissionais na escola,
por exemplo. Debater informações a respeito da situação
financeira da instituição traz maior transparência
à relação entre direção da escola e
professores. Saber a opinião dos pais sobre o que eles esperam
da escola também seria útil para amenizar o sofrimento dos
professores.
Educação
- Na escola pública, esse tipo de iniciativa costuma depender de
políticas às quais, muitas vezes, o professor não
tem acesso.
Dora Elisa - Na rede pública, a transferência de poder
para a escola seria muito importante - é o caso de não deixar
que a regional, a secretaria ou a delegacia de ensino resolva esse tipo
de assunto. Veja que, na rede pública, a maior parte dos problemas
de saúde que geram afastamento é de origem psicossomática.
O Estado não tem idéia do que acontece, não faz vigilância
sobre a saúde de seus servidores. A falta de controle traz a sensação
de irresponsabilidade e mau uso dos pedidos de afastamento. Esse é
um problema que deveria ser tratado desde cedo, já no início
de carreira do professor.
Educação
- Acontece o mesmo na escola particular?
Dora Elisa - O quadro é semelhante, mas na rede particular
o professor fica menos tempo afastado por problemas de saúde por
medo de perder a vaga. O estresse na rede particular é maior. O
professor sente a cobrança da direção, da coordenação,
dos pais, e muitas vezes essa cobrança é contraditória.
Educação
- Qual a maior pressão, a do ambiente interno ou a do externo?
Dora Elisa - Ambas podem estar relacionadas. Um dos resultados
que refletem a importância das interferências externas está
no fato de 61,72% dos professores responderem que não se sentem
valorizados - principalmente pelos baixos salários pagos nas escolas
públicas, uma referência direta à falta de valorização
da profissão. Como o salário e o poder aquisitivo são
considerados sinais de sucesso e de reconhecimento profissional, essa
situação acaba refletindo em outros tipos de relação,
reforçando o sentimento de desvalorização. Para exemplificar,
vale a pena citar a afirmação de uma professora: "Até
o supermercado não valoriza", referindo-se à dificuldade
em obter crédito quando mostra seu contracheque.
Educação
- Essa desmotivação chega à sala de aula?
Dora Elisa - Acredito que todas as interferências e pressões
internas e externas fazem com que o professor não consiga isolar
a organização de seu trabalho da relação professor-aluno.
Educação
- O que acontece na prática? Como os professores reagem a esses
conflitos?
Dora Elisa - De formas diferentes. Alguns se distanciam de alunos
e colegas como forma de se defender dos conflitos. Outros reagem com a
prática de diferentes tipos de lazer ou esportes, como forma de
alívio das tensões após a jornada de trabalho.
Educação
- Ter mais tempo de lazer ameniza o estresse do professor?
Dora Elisa - Sim. Mas o problema é a sobrecarga de trabalho.
Muitos professores trabalham em diferentes períodos, em mais de
uma escola, e ainda levam trabalho para casa. É muito desgastante
e o tempo para o lazer acaba limitado a umas poucas horas, no fim de semana.
Educação
- Isso sem contar os problemas pessoais.
Dora Elisa - O professor precisa de uma orientação
emocional. As instituições de ensino devem entender que
as relações dos professores com os alunos envolvem a questão
emocional. Os docentes precisam de um espaço mais democrático
para discutir seus medos, suas angústias, seus problemas. O ideal
seria criar, dentro da escola, uma ouvidoria, para melhorar a organização
do trabalho.
Educação
- Esse trabalho seria semelhante ao que é realizado, nas empresas,
pelo profissional de recursos humanos?
Dora Elisa - Nas escolas, como em qualquer empresa, é preciso
investir em melhorar a saúde mental e física dos funcionários.
Isso certamente se refletirá na melhoria da produtividade. Infelizmente,
no Brasil, a medicina do trabalho ainda é encarada pelas empresas
como parte dos custos e não como investimentos. Dejour diz que,
dependendo da organização do trab! alho, o funcionário
pode transformar sofrimento em criatividade. Poder conversar sobre os
conflitos é uma forma de começar o processo, ainda mais
no caso dos professores, que são responsáveis pela formação
intelectual e emocional das pessoas.
Educação
- Mas essa abertura para uma gestão participativa não colide
com as estruturas do poder?
Dora Elisa - A linha de mando nas escolas particulares tem nome
e sobrenome. É mais visível e tem um papel ambíguo.
Ao mesmo tempo em que organiza, encaminha as diretrizes, reconhece e valoriza
um bom trabalho, a diretoria demite - às vezes injustamente, em
outros casos por necessidades financeiras. Na escola pública, a
linha de mando é invisível, inacessível. Trata-se
de uma série de siglas, cujas funções e atribuições
não são bem compreendidas pelos professores. A direção
pode apoiar os professores, dar conforto, mas não pode decidir.
O poder acaba centralizado no governo, um patrão sem nome ou sobrenome.
Educação
- E a meta, em alguns casos, é a aposentadoria.
Dora Elisa-A carreira do professor não pode limitar-se
à conquista de pontuações que serão úteis
no final da profissão, na aposentadoria. O fato de aposentar-se
acaba sendo confundido com um projeto de vida para a maioria dos professores
com 22 anos ou mais de carreira.